{"id":658,"date":"2009-11-21T08:00:34","date_gmt":"2009-11-21T11:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=658"},"modified":"2009-11-21T08:00:34","modified_gmt":"2009-11-21T11:00:34","slug":"deus-imagem-e-semelhanca-do-cogito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=658","title":{"rendered":"Deus: imagem e semelhan\u00e7a do cogito"},"content":{"rendered":"<p><!--CTYPE html PUBLIC \"-\/\/W3C\/\/DTD HTML 4.01 Transitional\/\/E--><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Tiago da Silva Gomes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:180px;\"><em>Mas o que sou eu, portanto? Uma coisa que pensa. Que \u00e9 uma coisa que pensa? \u00c9 uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que n\u00e3o quer, que imagina tamb\u00e9m e que sente. Certamente n\u00e3o \u00e9 pouco se todas essas coisas pertencem \u00e0 minha natureza. <\/em>(DESCARTES, <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>, II, 9)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o se pode falar sobre Deus em Descartes sem antes falar do cogito, pois \u00e9 a partir deste que todo o sistema cartesiano se desenvolve. O infinito em Descartes foi uma tentativa fracassada de sa\u00edda do eu, pois todo itiner\u00e1rio de comprova\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o passou de um mero exerc\u00edcio de afirma\u00e7\u00e3o do cogito. Deus e o cogito t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia m\u00fatua num sentido existencial que se d\u00e1 na atividade do pr\u00f3prio cogito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A descoberta do <em>cogito<\/em> se deu atrav\u00e9s da d\u00favida met\u00f3dica instaurada por Descartes ao se perceber envolto de conhecimentos incertos e err\u00f4neos. Atrav\u00e9s da d\u00favida ele come\u00e7ar\u00e1 todo o seu processo cognitivo a partir de id\u00e9ias claras e distintas. Ele pretende dar um basta \u00e0s antigas opini\u00f5es e alcan\u00e7ar um fundamento que lhe garanta evid\u00eancia. \u00c9 assim que ele descobrir\u00e1 o <em>cogito<\/em> ao perceber que o ato de pensar \u00e9 algo de mais evidente em sua exist\u00eancia e \u00e9 atrav\u00e9s dessa sua faculdade que se reconhece como existente. Descartes faz coincidir a exist\u00eancia com o ato de pensar. Por isso, o pensamento ser\u00e1 elevado no homem como a a\u00e7\u00e3o mais sublime e a algo que o especifica e lhe d\u00e1 fundamento. O <em>cogito<\/em> fundamentar\u00e1 todo o estatuto do conhecimento enquanto realismo na busca de clareza e distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O problema da exist\u00eancia de Deus ser\u00e1 um dos passos em que Descartes envolver\u00e1 o cogito. Ele pretende descobrir se Deus existe e se ele pode ser a causa do engano. \u00c9 por meio do elemento \u201cengano\u201d, relacionado com o pensamento, que ele chega \u00e0 comprova\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia. Sobre o engano ele tamb\u00e9m pretende descobrir a sua origem, mas antes disso procurar\u00e1 uma sa\u00edda do solipsismo recorrendo a algo fora de si que confirme ainda mais a atividade do cogito. O objeto de manipula\u00e7\u00e3o do <em>cogito<\/em> ser\u00e1 Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Atrav\u00e9s do argumento das id\u00e9ias que todo o processo de descoberta de Deus a partir do cogito se desenvolver\u00e1. Existem no homem id\u00e9ias inventadas, advent\u00edcias e inatas. As id\u00e9ias inventadas e advent\u00edcias s\u00e3o algo comum ao homem, faz parte de suas fantasias e reprodu\u00e7\u00f5es imaginativas. J\u00e1 as que se encontram inatas s\u00e3o aquelas que permanecem no homem e o ultrapassam. S\u00e3o duas as id\u00e9ias inatas que ele faz refer\u00eancia: a id\u00e9ia de infinito e a id\u00e9ia de perfei\u00e7\u00e3o. Com a id\u00e9ia de infinito, Descartes chega \u00e0 conclus\u00e3o de que a id\u00e9ia que ele tem de si, enquanto subst\u00e2ncia finita, n\u00e3o pode ser concebida por si s\u00f3, \u00e9 necess\u00e1ria a refer\u00eancia da id\u00e9ia de algo infinito que seja exterior a ele. A id\u00e9ia de infinitude precede a id\u00e9ia de finitude, pois o finito n\u00e3o pode conceber o infinito. A id\u00e9ia de finito implica a subst\u00e2ncia infinita. A id\u00e9ia de perfei\u00e7\u00e3o passa a ser entendida tamb\u00e9m dessa forma dicot\u00f4mica, na qual se afirma que o menos perfeito n\u00e3o pode chegar a conceber o mais perfeito, ou seja, a id\u00e9ia inata que o homem tem de perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ter origem em si mesmo, ser imperfeito, mas s\u00f3 fora de si e ainda em algo superior. Atrav\u00e9s do pensamento n\u00e3o se pode conceber algo superior ao que nele mesmo se concebe.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 por causa das car\u00eancias do homem que Descartes afirmar\u00e1 a exist\u00eancia de Deus e o reconhecer\u00e1 como detentor de tais atributos, perfei\u00e7\u00e3o e infinitude, e o respons\u00e1vel em t\u00ea-los colocado no homem. Isso quer dizer que se existe uma id\u00e9ia em que o homem n\u00e3o \u00e9 a causa eficiente, decorre que exista algo maior e exterior a ele que seja a causa eficiente, e esse algo s\u00f3 pode ser Deus. A exist\u00eancia de Deus \u00e9 comprovada pela incapacidade cognitiva do homem em conceber os seus atributos, os quais s\u00e3o considerados id\u00e9ias grandes e eminentes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Deus, \u00e9 necess\u00e1rio que sua ess\u00eancia coincida com sua exist\u00eancia. Se Deus \u00e9 pensado como algo perfeito e infinito, se faz necess\u00e1rio que ele exista. A ess\u00eancia est\u00e1 para a exist\u00eancia, assim como o vale est\u00e1 para a montanha e como \u00e9 da ess\u00eancia do tri\u00e2ngulo que a soma de seus \u00e2ngulos corresponda a dois \u00e2ngulos retos. Esse argumento d\u00e1 sustentabilidade ao conhecimento verdadeiro e garante a exist\u00eancia das coisas corp\u00f3reas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Toda l\u00f3gica cartesiana para a comprova\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus se baseia no argumento ontol\u00f3gico de Anselmo usado para provar <em>a priori<\/em> a exist\u00eancia de Deus. J\u00e1 o fato de Descartes fazer coincidir a ess\u00eancia de Deus com a exist\u00eancia, isso ele parece ter tirado do pensamento de Tom\u00e1s que tamb\u00e9m afirma o mesmo sobre Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que a tentativa de Descartes de procurar encontrar uma sa\u00edda do subjetivismo provocado pelo <em>cogito,<\/em> n\u00e3o alcan\u00e7ou sucesso na busca de se recorrer a algo transcendente, pois o sujeito cartesiano \u00e9 um sujeito fechado em si mesmo, que pensa a si mesmo e tudo faz submeter \u00e0 supremacia do pensamento. \u00c9 um afundamento no solipsismo exacerbado que exclui a possibilidade de rela\u00e7\u00e3o fora do pr\u00f3prio eu. Deus \u00e9 feito \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Todos os mecanismos descritivos de comprova\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia e superioridade de Deus nada mais passaram do que um fechamento e culto na Deusa-Raz\u00e3o. O Deus de Descartes \u00e9 um objeto da <em>res cogitans<\/em>. \u00c9 o pensamento enquanto atividade existencial do homem que fundamenta a exist\u00eancia de Deus. Descartes quis um novo fundamento para a raz\u00e3o; diferente do que a tradi\u00e7\u00e3o pregava como fundamento (algo absoluto), ele traz como fundamento o pr\u00f3prio sujeito conhecedor. O conhecimento est\u00e1 no sujeito que percebe o objeto e n\u00e3o o objeto que se apresenta ao sujeito e se faz conhecer. A revolu\u00e7\u00e3o cartesiana consiste em ter ele transferido o lugar da certeza original de Deus para o homem, para a raz\u00e3o humana. Parte-se, agora, da certeza de si pr\u00f3prio para a certeza de Deus e o teocentrismo medieval \u00e9 ser substitu\u00eddo pelo antropocentrismo moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Medita\u00e7\u00f5es.<\/em> Trad. J. Gindburg e Bento Prado J\u00fanior. 3\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: do humanismo a Kant. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1990.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tiago da Silva Gomes &nbsp; Mas o que sou eu, portanto? Uma coisa que pensa. Que \u00e9 uma coisa que pensa? \u00c9 uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que n\u00e3o quer, que imagina tamb\u00e9m e que sente. 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