{"id":675,"date":"2010-02-20T12:00:34","date_gmt":"2010-02-20T15:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=675"},"modified":"2010-02-20T12:00:34","modified_gmt":"2010-02-20T15:00:34","slug":"violencia-silenciosa-ensaio-sobre-a-reificacao-na-dialetica-do-esclarecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=675","title":{"rendered":"Viol\u00eancia silenciosa: ensaio sobre a reifica\u00e7\u00e3o na dial\u00e9tica do esclarecimento"},"content":{"rendered":"<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Maur\u00edcio de Assis Reis<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>\u201cConhecereis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1\u201d<\/em> (Jo 8,32)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">S\u00e9culo XX: um s\u00e9culo de profundas transforma\u00e7\u00f5es no modo de vida do homem, s\u00e9culo de contradi\u00e7\u00f5es, onde o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico disputa espa\u00e7o com os atos violentos praticados entre os homens. Nas palavras do historiador Eric Hobsbawn, a chamada \u201cEra das Cat\u00e1strofes\u201d. Parece que a humanidade nunca sofreu tamanha transforma\u00e7\u00e3o, com a presen\u00e7a de tais elementos. Parece.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O fato \u00e9 que, ao olhar atentamente para a hist\u00f3ria da humanidade, a conviv\u00eancia de viol\u00eancia e progresso a percorre como que sendo um seu elemento constitutivo. A palavra de Cristo, retirada de seu contexto b\u00edblico, reflete o slogan dessa hist\u00f3ria: a verdade da Inquisi\u00e7\u00e3o, a verdade das Cruzadas, a verdade dos colonizadores das Am\u00e9ricas, a verdade de Hitler e do nazismo. Tantas foram as verdades quantos foram tamb\u00e9m os ideais de liberdade. A possibilidade da evolu\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o social da humanidade segue, pois, a necessidade dos sacrif\u00edcios daqueles que s\u00e3o tomados como empecilhos para a realiza\u00e7\u00e3o concreta da verdade, pois s\u00f3 atrav\u00e9s dela \u00e9 que se poderia realizar a liberdade humana. Foi assim na dita sociedade esclarecida da Fran\u00e7a iluminista, ao depor e assassinar os nobres franceses, s\u00f3 para se dar um exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se se reportar o tema ao debate filos\u00f3fico, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de se perceber a pertin\u00eancia da quest\u00e3o. O questionamento em torno da verdade e da liberdade se mostra de fundamental import\u00e2ncia para os pensamentos em torno da metaf\u00edsica e da \u00e9tica, apoiadas, sem exce\u00e7\u00e3o, numa concep\u00e7\u00e3o gnosiol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A men\u00e7\u00e3o primeira ao s\u00e9culo XX, apesar de tantos outros eventos catastr\u00f3ficos durante a hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 proposital: chama a aten\u00e7\u00e3o, ao pensar sobre este s\u00e9culo, a obra dos frankfurtianos Adorno e Horkheimer, <em>Dial\u00e9tica do Esclarecimento<\/em>. A quest\u00e3o de urg\u00eancia est\u00e1 em pensar sobre as raz\u00f5es de por que o mundo se encontra em tal situa\u00e7\u00e3o de guerras, quando o est\u00e1gio tecnol\u00f3gico se encontra t\u00e3o avan\u00e7ado. Diante disso, chama a aten\u00e7\u00e3o o comprometimento filos\u00f3fico sem deixar de lado o esfor\u00e7o em pensar as causas hist\u00f3ricas da barb\u00e1rie, que ora atinge os judeus, povo ao qual pertencem os autores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre verdade e liberdade \u00e9 ent\u00e3o pensada pelos autores na busca por entender um caminho de viol\u00eancias existente na (de)-forma\u00e7\u00e3o da sociedade hist\u00f3rica, processo esse que deixa marcas mais profundas que as viol\u00eancias vividas contemporaneamente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2. Esclarecimento, dom\u00ednio e desencantamento: a rela\u00e7\u00e3o homem-natureza e a busca de um conceito de verdade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>2.1 Surgimento da quest\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O tema da reifica\u00e7\u00e3o tem sua coloca\u00e7\u00e3o inicial na <em>Dial\u00e9tica do Esclarecimento<\/em>, de Adorno e Horkheimer. Entretanto, o surgimento do conceito a ser estudado n\u00e3o acontece logo de in\u00edcio. Isso s\u00f3 ocorre gra\u00e7as ao desenrolar de uma quest\u00e3o inicial da obra, quest\u00e3o essa que \u00e9 menos te\u00f3rica que existencial: trata-se do objetivo da obra, baseado na vis\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o social que urge ser denunciada e que se diz na tentativa de \u201cdescobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, est\u00e1 se afundando em uma nova esp\u00e9cie de barb\u00e1rie\u201d (ADORNO, 1985: 11).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, tal objetivo conduz os autores a voltarem \u00e0 hist\u00f3ria a fim de interpret\u00e1-la por um vi\u00e9s diferenciado, ou seja, interpret\u00e1-la a partir de uma desconstru\u00e7\u00e3o do <em>logos <\/em>hist\u00f3rico a partir do qual tornar-se-ia poss\u00edvel apontar os desvios que impediram a humanidade de alcan\u00e7ar o dito \u201cestado verdadeiramente humano\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>2.2 M\u00e9todo e verdade na rela\u00e7\u00e3o com a natureza<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A problem\u00e1tica da reifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz respeito, num primeiro momento, ao sujeito simplesmente. O primeiro momento do tema est\u00e1 em entender o que ocorre, em tempos imemoriais, na rela\u00e7\u00e3o homem-natureza. Para tanto, a id\u00e9ia dos frankfurtianos \u00e9 de perceber no percurso hist\u00f3rico um processo de esclarecimento, processo esse que n\u00e3o estaria, ent\u00e3o, reduzido ao per\u00edodo das Luzes (S\u00e9c. XVIII), mas que pertenceria \u00e0 hist\u00f3ria da humanidade como um todo:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\">No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e investi-los na posi\u00e7\u00e3o de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo da calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imagina\u00e7\u00e3o pelo saber\u201d (ADORNO, 1985: 19).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, esta, que \u00e9 a cita\u00e7\u00e3o inaugural da <em>Dial\u00e9tica do Esclarecimento<\/em>, reporta \u00e0 id\u00e9ia de que o esclarecimento, como processo dado no percurso hist\u00f3rico, estaria, em seu in\u00edcio, fundado num medo diante das for\u00e7as da natureza e numa tentativa, ent\u00e3o, de livrar-se desses medos. A imagina\u00e7\u00e3o, como uma primeira forma de tentar se apropriar da verdade da natureza seria ent\u00e3o substitu\u00edda por algo mais seguro, o m\u00e9todo, que possibilitaria, de fato, o poder sobre a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, \u00e9 preciso dizer que os homens, nesse primeiro momento diante da natureza percebem j\u00e1 uma faceta da verdade: assumem a posi\u00e7\u00e3o de seres inferiores diante das for\u00e7as da natureza e ainda se percebem fundamentalmente diferentes dessa mesma natureza (DUARTE, 2003:42). A tentativa de responder a esse medo passa, num primeiro momento, pela interpreta\u00e7\u00e3o dessas for\u00e7as a partir de um ponto de vista mais fant\u00e1stico, ou seja: surgem os mitos como uma forma de conhecimento apropriada para o momento hist\u00f3rico que era vivido pelos homens. \u00c9 curioso observar que, nesse momento de verdade em que se constitui o mito, a rela\u00e7\u00e3o homem-natureza ainda se mostra como uma rela\u00e7\u00e3o, de certa forma, totalizante, pois envolve o homem como um todo, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer claramente como tal conhecimento se forma, nem racional, nem psicologicamente: o que se poderia definir como verdade nesse momento hist\u00f3rico estaria fundado numa concep\u00e7\u00e3o de homem totalizante, uma forma de conhecimento que se daria vivencialmente, numa \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre homem e natureza sem a necessidade de se apoiar em formas <em>a priori<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com o advento do m\u00e9todo cient\u00edfico, a verdade que se encontrava nos mitos perde espa\u00e7o e \u00e9 substitu\u00edda por uma nova concep\u00e7\u00e3o de verdade que \u00e9 alcan\u00e7ada pela utiliza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo: j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 lugar para a interpreta\u00e7\u00e3o da natureza, apenas para o desencanto e seu conseq\u00fcente dom\u00ednio cient\u00edfico, que conduz os homens \u00e0 sua almejada posi\u00e7\u00e3o de poder: \u201cHorkheimer e Adorno chamam a aten\u00e7\u00e3o para a supera\u00e7\u00e3o do mito mediante a supress\u00e3o de seu car\u00e1ter plur\u00edvoco em benef\u00edcio da univocidade das proposi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, a qual \u00e9 apresentada como uma forma de reifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, j\u00e1 que \u00e9 uma restri\u00e7\u00e3o a formas alternativas de cogni\u00e7\u00e3o imposta pela necessidade de sobreviv\u00eancia f\u00edsica, de autoconserva\u00e7\u00e3o\u201d (DUARTE, 2003: 44).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 interessante aqui recordar, para ilustrar a dimens\u00e3o dessa op\u00e7\u00e3o pela autoconserva\u00e7\u00e3o, os mitos gregos das escolhas dos grandes her\u00f3is. Um exemplo claro disso se encontra na <em>Il\u00edada<\/em> de Homero, quando Aquiles, alertado por sua m\u00e3e que poderia encontrar a gl\u00f3ria, mas tamb\u00e9m a morte nas terras de Pr\u00edamo, escolhe ent\u00e3o enfrentar seu destino a fim de se tornar imortal nas palavras do poeta grego. A escolha pela autoconserva\u00e7\u00e3o reflete, pois, a mesma id\u00e9ia, apenas no sentido contr\u00e1rio \u00e0 escolha da Aquiles: o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a imortalidade na mem\u00f3ria hist\u00f3rica, mas a perspectiva de alcan\u00e7ar a felicidade ou se esfor\u00e7ar em alcan\u00e7ar o maior tempo poss\u00edvel numa vida de sacrif\u00edcios intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A quest\u00e3o que importa para a reflex\u00e3o sobre o tema proposto aqui \u00e9 que a busca da verdade imp\u00f5e certos caminhos hist\u00f3ricos para a humanidade. Tais caminhos se iniciam pela aceita\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo cient\u00edfico de proposi\u00e7\u00f5es un\u00edvocas e caminhos seguros, onde a interpreta\u00e7\u00e3o perde seu espa\u00e7o, constituindo a primeira forma da reifica\u00e7\u00e3o. Esse primeiro passo \u00e9 reconhecido na forma da reifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e da seguran\u00e7a ilustrada pela autoconserva\u00e7\u00e3o. Posteriormente, \u00e9 preciso recorrer ao homem, percebendo nele as transforma\u00e7\u00f5es impostas por esse novo estilo de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>3. Na esfera do sujeito: reifica\u00e7\u00e3o e regress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Impulsionado por esse novo estilo de vida que surge de um instinto de sobreviv\u00eancia ou autoconserva\u00e7\u00e3o, o homem assume um caminho de seguran\u00e7a, a fim de fugir dos medos diante do misterioso que paira sob a natureza e buscar o poder sobre o mundo. Tendo sidos produzidos pelo pensamento que interpreta a natureza, os mitos s\u00e3o logo suprimidos pela mente racionalista, que tem em sua base a exatid\u00e3o matem\u00e1tica: \u201cs\u00f3 o pensamento que se faz viol\u00eancia a si mesmo \u00e9 suficientemente duro para destruir os mitos\u201d (ADORNO, 1985: 20).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, com um novo conceito de verdade, baseado num m\u00e9todo de desencanto e conseq\u00fcente dom\u00ednio da natureza, o homem que seria ent\u00e3o agente de todo o processo, come\u00e7a a sofrer as conseq\u00fc\u00eancias de seu envolvimento. \u201cDesencanto significa n\u00e3o apenas a quebra de um feiti\u00e7o, mas tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de desgosto. O caminho na dire\u00e7\u00e3o desse esclarecimento \u00e9 a t\u00e9cnica, isto \u00e9, um tipo de conhecimento em que os conceitos gen\u00e9ricos e as imagens n\u00e3o t\u00eam mais o seu lugar assegurado, ocupando o m\u00e9todo todo o espa\u00e7o outrora habitado por eles\u201d (DUARTE, 1997: 45).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Seguindo-se a esse procedimento repetitivo, pautado pela utiliza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo, o homem passa a ter como que atrofiadas as partes de sua constitui\u00e7\u00e3o inutilizadas pela perene a\u00e7\u00e3o da racionalidade. A reifica\u00e7\u00e3o, enquanto uma viol\u00eancia silenciosa, ataca de forma a extirpar do homem os elementos que comprometem a dita \u201cverdade pura\u201d, \u201cobjetiva\u201d: \u201cNa verdade, Bacon representa uma esp\u00e9cie de protopositivismo, na medida em que pretende extirpar do conhecimento aqueles elementos antropol\u00f3gicos que comprometem sua precis\u00e3o e objetividade, o que, para Horkheimer e Adorno, significa uma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o das possibilidades cognitivas humanas\u201d (DUARTE, 2003: 42).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo dessa forma, h\u00e1 que se perceber que o caminho reificante assumido pelo homem em sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza, pautado pela busca de uma verdade te\u00f3rica objetiva sobre uma realidade nem t\u00e3o objetiva assim, termina em transformar o pr\u00f3prio homem de uma maneira profunda: \u201cA domina\u00e7\u00e3o da natureza volta-se contra o pr\u00f3prio sujeito pensante; nada sobra dele sen\u00e3o esse eu penso eternamente igual&#8230;\u201d (ADORNO, 1985: 38).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, a instru\u00e7\u00e3o desse processo pelos frankfurtianos tem em vista a realidade violenta na qual est\u00e3o inseridos. Com isso, a reflex\u00e3o sobre a reifica\u00e7\u00e3o deve culminar na prepara\u00e7\u00e3o de uma sociedade automatizada, onde os homens perdem a pr\u00f3pria capacidade de serem, de forma geral, sujeitos de suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. \u201cO resultado disso \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de um sujeito cuja unilateralidade, a subsmiss\u00e3o \u00e0 ditadura da autoconserva\u00e7\u00e3o, \u00e9 o correlato da impossibilidade de toda a humanidade se tornar sujeito de suas a\u00e7\u00f5es, de seu futuro, de seu destino, fato que Adorno e Horkheimer descrevem em termos de uma esp\u00e9cie de minoridade do g\u00eanero humano\u201d (DUARTE, 1997: 53).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por conseguinte, a Id\u00e9ia de uma minoridade do g\u00eanero humano conduz ao questionamento em torno da sociedade formada por esse tipo de homem reificado: se o esclarecimento n\u00e3o trouxe a maioridade do pensamento como queria Kant, mas, ao contr\u00e1rio, evidenciou os elementos de menoridade, como se portar\u00e1 ent\u00e3o a sociedade formada pelos homens reificados?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao pensar em uma sociedade de homens reificados, esta segue, em linhas gerais, o mesmo processo sofrido pela sua c\u00e9lula b\u00e1sica. Como os homens, a reifica\u00e7\u00e3o imp\u00f5e um estado de uma viol\u00eancia oculta, velada pelos progressos encontrados em v\u00e1rias de suas \u00e1reas principais. Um estado de regress\u00e3o, como dizem os autores:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\">A regress\u00e3o das massas, de que hoje se fala, nada mais \u00e9 sen\u00e3o a incapacidade de poder ouvir o imediato com os pr\u00f3prios ouvidos, de poder tocar o intocado com as pr\u00f3prias m\u00e3os: a nova forma de ofuscamento que vem substituir as formas m\u00edticas superadas. Pela media\u00e7\u00e3o da sociedade total, que engloba todas as rela\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es, os homens se reconvertem exatamente naquilo contra o que se voltara a lei evolutiva da sociedade, o princ\u00edpio do eu: meros seres gen\u00e9ricos, iguais uns aos outros pelo isolamento na coletividade governada pela for\u00e7a. (ADORNO, 1985: 47)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De fato, o estado de regress\u00e3o das massas fala a partir ainda da mesma rela\u00e7\u00e3o entre homem e natureza, uma rela\u00e7\u00e3o que, apesar de sua longevidade, ainda n\u00e3o alcan\u00e7ou sua concilia\u00e7\u00e3o definitiva, mas, pelo contr\u00e1rio, caminha em sentido contr\u00e1rio, na medida em que a presen\u00e7a de um n\u00e3o-id\u00eantico na natureza ainda \u00e9 afastada pela figura do m\u00e9todo. Os homens acabam por se relacionar com tudo o que est\u00e1 \u00e0 sua volta a partir de formas pr\u00e9-existentes, impedidos de serem o que s\u00e3o em sua totalidade e tornados simples elementos formadores da coletividade, \u201cseres gen\u00e9ricos\u201d como se referem os frankfurtianos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>4. Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como se v\u00ea, o percurso hist\u00f3rico que busca entender um pouco a forma\u00e7\u00e3o da sociedade se depara com a marca de uma viol\u00eancia diferenciada: em vez de perder-se a vida de pessoas concretas, \u00e9 a humanidade enquanto conceito universal que perde em sentido. Esse esvaziamento antropol\u00f3gico reflete no contexto social, o que permite a exist\u00eancia de um outro tipo de viol\u00eancia, aquela que clama nas barb\u00e1ries dos novos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, a evolu\u00e7\u00e3o que existe no conceito de verdade em cada \u00e9poca define os passos dados pelo programa do esclarecimento, programa esse que n\u00e3o se resume a meros aspectos racionais, mas que atinge ainda com maior for\u00e7a o aspecto vivencial. A reifica\u00e7\u00e3o como viol\u00eancia silenciosa abre caminho para a liberdade humana diante dos medos antigos, medos diante do desconhecido; por outro lado, imp\u00f5e apenas um caminho a ser seguido para a chamada autoconserva\u00e7\u00e3o, a partir de onde o medo de \u201ctocar o intocado\u201d \u00e9 cada vez maior. A perda de sentido se torna inevit\u00e1vel, j\u00e1 que os caminhos a serem seguidos se mostram pr\u00e9-definidos. No fim, a escolha continua sendo sempre a mesma, por\u00e9m, cada vez mais tendente para um mesmo p\u00f3lo: entre a gl\u00f3ria dos campos de batalha e a an\u00f4nima longevidade; entre os riscos da beleza dos cantos das sereias e a seguran\u00e7a da volta para casa; entre a felicidade e a autoconserva\u00e7\u00e3o; entre o desafio de ser aut\u00eantico e a certeza da facilidade da repeti\u00e7\u00e3o de um mesmo e eterno caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. <em>Dial\u00e9tica do esclarecimento<\/em>: fragmentos filos\u00f3ficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DUARTE, Rodrigo. <em>Adornos<\/em>: nove ensaios sobre o fil\u00f3sofo frankfurtiano. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"text-decoration:underline;\">______<\/span>. <em>Teoria cr\u00edtica da ind\u00fastria <\/em>cultural. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\ufeff<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maur\u00edcio de Assis Reis 1. Introdu\u00e7\u00e3o \u201cConhecereis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1\u201d (Jo 8,32) S\u00e9culo XX: um s\u00e9culo de profundas transforma\u00e7\u00f5es no modo de vida do homem, s\u00e9culo de contradi\u00e7\u00f5es, onde o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico disputa espa\u00e7o com os atos violentos praticados entre os homens. Nas palavras do historiador Eric Hobsbawn, a chamada \u201cEra &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[3,60,108],"tags":[256,276,451],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-675","6":"format-standard","7":"category-adorno","8":"category-horkheimer","9":"category-mauricio-de-assis-reis","10":"post_tag-dialetica-do-esclarecimento","11":"post_tag-esclarecimento","12":"post_tag-reificacao"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/675\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}