{"id":693,"date":"2010-02-27T12:00:42","date_gmt":"2010-02-27T15:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=693"},"modified":"2010-02-27T12:00:42","modified_gmt":"2010-02-27T15:00:42","slug":"a-utopia-positiva-caminho-para-uma-praxis-possivel-de-libertacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=693","title":{"rendered":"A utopia positiva: caminho para uma pr\u00e1xis poss\u00edvel de liberta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Adelson Laurindo Clemente Sampaio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um dos maiores males da sociedade atual \u00e9 a indiferen\u00e7a. O homem p\u00f3s-moderno, calculista e pragm\u00e1tico, n\u00e3o se sente afetado pela realidade e perde, progressivamente, a capacidade de ser atingido com os sofrimentos alheios. Essa realidade \u00e9tico-antropol\u00f3gica repercute nas rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas que v\u00e3o se tornando cada vez mais pobres e menos solid\u00e1rias e gratuitas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste sentido, o outro \u00e9 desconsiderado no seu valor e dignidade. O apelo, o grito de desespero dos marginalizados e exclu\u00eddos, as \u201cv\u00edtimas\u201d, n\u00e3o consegue eco no cora\u00e7\u00e3o do homem contempor\u00e2neo e da sociedade como um todo. Exemplo claro da indiferen\u00e7a e da desconsidera\u00e7\u00e3o pelo outro foram as duas grandes guerras mundiais. Al\u00e9m disso, as injusti\u00e7as, as viol\u00eancias, os ataques terroristas, a perda de valores, o niilismo, o esquecimento do outro, as grandes desigualdades sociais, o racismo, mostram a crescente insensibilidade para com o outro. A conseq\u00fc\u00eancia de tudo isso \u00e9 o aumento crescente de exclu\u00eddos, de \u201cv\u00edtimas\u201d. A cada dia, in\u00fameras pessoas, n\u00e3o conseguem ser ouvidas em suas necessidades b\u00e1sicas, clamam por justi\u00e7a e pelo respeito aos seus direitos b\u00e1sicos de sobreviv\u00eancia. Apesar da indiferen\u00e7a, com suas vidas subvalorizadas, estas pessoas ainda provocam o pensar, cobram uma postura \u00e9tica, exigem uma reflex\u00e3o mais aprofundada e a\u00e7\u00f5es mais eficazes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como sobreviver com desemprego, fome, mis\u00e9ria, injusti\u00e7as e viol\u00eancias sociais? O que fazer diante da morte e sacrif\u00edcio de tantas vidas humanas? Que posi\u00e7\u00e3o adotar diante de um crescente individualismo, ego\u00edsmo e tantos \u201cismos\u201d que geram \u201cv\u00edtimas\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A \u201cv\u00edtima\u201d ou o \u201coutro exclu\u00eddo\u201d provoca, excita, estimula \u00e0 a\u00e7\u00e3o; n\u00e3o tem como ficar acomodado diante da \u201cv\u00edtima\u201d que interpela. Sua presen\u00e7a \u00e9 um pro-vocar (chamar para fora) constante, que nos retira da obsoleta monotonia e nos remete \u00e0 pr\u00e1tica, pois \u00e9 o clamor do semelhante, de um <em>alter ego <\/em>que se apresenta diante de mim e exige justi\u00e7a. Atrav\u00e9s da responsabilidade \u00e9tica nasce o impulso positivo: romper com o sistema e a assumir a \u201cv\u00edtima\u201d ou o exclu\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O sistema de exclus\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o da \u201cv\u00edtima\u201d chama a aten\u00e7\u00e3o e nos convida \u00e0 reflex\u00e3o. Faz-se necess\u00e1rio pensar e propor questionamentos, bem como analisar a possibilidade de uma pr\u00e1xis libertadora, visto que a \u201cv\u00edtima\u201d nasce do descaso e manipula\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico, da globaliza\u00e7\u00e3o, do capital. Com isso, cabe refletir sobre o sistema vitimizador que vem causando tanto sofrimento aos homens, para, na <em>pr\u00e1xis<\/em> ter uma resposta \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2. A utopia positiva: caminho de liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Todo processo de liberta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o traz, em sua base uma articula\u00e7\u00e3o entre pr\u00e1xis e teoria, tende a cair em estrat\u00e9gias de oportunismos, ou seja, pode se transformar em meio de promo\u00e7\u00e3o de sujeitos que n\u00e3o est\u00e3o interessados em, de fato, libertar as v\u00edtimas. No decorrer da hist\u00f3ria, muitos fatos acontecidos comprovaram que a liberta\u00e7\u00e3o que se faz sem uma fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica concreta e sem a participa\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas em simetria, acarretam grandes desastres ou foram ineficazes. O sonho de liberdade pode se tornar realidade, desde que se conjugue efetivamente teoria e pr\u00e1xis e brote da pr\u00f3pria comunidade de v\u00edtimas, caso contr\u00e1rio, pode se transformar em pesadelo e uma utopia que beneficia somente oportunistas e aproveitadores. Eles podem levar \u00e0 fal\u00eancia um projeto que tem por finalidade a promo\u00e7\u00e3o de vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\">Quer se trate da organiza\u00e7\u00e3o ou de outra coisa, o oportunismo tem um s\u00f3 princ\u00edpio: a falta de princ\u00edpios (<em>Prinzipienlosigkeit<\/em>). Escolhe seus meios (<em>Mitte<\/em>) de acordo com as circunst\u00e2ncias, se estes meios lhe parecem aptos para conseguir os fins (<em>Zwecken<\/em>) que persegue. (DUSSEL, 2007: 514)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O processo de liberta\u00e7\u00e3o, muitas vezes, se confunde com uma utopia pelo fato de suas a\u00e7\u00f5es estarem na \u201ccontram\u00e3o\u201d da l\u00f3gica do mercado, pois, s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o ter\u00e3o um resultado imediato, mas constru\u00eddo como projeto futuro. S\u00e3o a\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o que se gestam no ch\u00e3o concreto da realidade, a partir das necessidades que s\u00e3o concretas, como a fome, a mis\u00e9ria, a doen\u00e7a, o desemprego; s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que adquirem o rosto da viol\u00eancia e exigem uma atitude imediata. N\u00e3o se pode aceitar uma ordem pol\u00edtica que vitimiza. Trata-se de um ver al\u00e9m, de uma proposta futura e poss\u00edvel que vai se concretizando.\u00a0 Como precisa Dussel, a \u201cutopia concreta \u00e9 fruto hist\u00f3rico do homem, n\u00e3o se realizando mecanicamente\u201d (DUSSEL, 1977a: 176-7).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\">Marx pensa [&#8230;] que na sociedade futura, a utopia, que se constitui como um horizonte cr\u00edtico, &#8230; \u00e9 a plena realiza\u00e7\u00e3o da <em>individualidade<\/em> na respons\u00e1vel <em>comunitariza\u00e7\u00e3o <\/em>de toda a atividade humana; utopia que tem, no desenvolvimento da humanidade presente, suas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade. (DUSSEL, 1985: 357)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por este motivo, quando a proposta de liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 descontextualizada e n\u00e3o tem a participa\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica das v\u00edtimas, ela n\u00e3o passar\u00e1 de uma utopia. Neste caso, a viol\u00eancia pura e simples substitui os argumentos, tornando-se um irracionalismo desencarnado. Com isso, o reino da morte se imp\u00f5e em nome do reino da liberdade. Algo que \u00e9 muito distante de todo o projeto de uma \u00e9tica da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A utopia tende a ser um projeto de realiza\u00e7\u00e3o, na medida em que incita o homem a agir e tem por conseq\u00fc\u00eancia promover a liberta\u00e7\u00e3o de toda opress\u00e3o. Trata-se de uma esperan\u00e7a calcada na realidade concreta. Somente assim, ser\u00e1 poss\u00edvel superar a aliena\u00e7\u00e3o. \u201cA nega\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade humana de trabalho criam um novo tipo de sociedade\u201d (PINTO, 1962: 20).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A utopia concreta guia a reflex\u00e3o do fil\u00f3sofo, sendo poss\u00edvel, a partir dela, julgar a aliena\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o a que s\u00e3o submetidas as classes populares e oprimidas. Cabe, portanto, aos fil\u00f3sofos, atrav\u00e9s da racionalidade, questionar o sistema, propondo assim, uma antecipa\u00e7\u00e3o do futuro. Trata-se de construir um pensar otimista, que visa contribuir para a liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos. Trata-se de dar significado concreto \u00e0 luta por direitos iguais, de tirar as m\u00e1scaras e os ideais burgueses que se fazem presente e assim promover a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Vieira, historiador comprometido com a \u201cliberta\u00e7\u00e3o, como Dussel, tal liberta\u00e7\u00e3o ocorre quando os valores de liberdade, igualdade e fraternidade (a heran\u00e7a tricolor, como precisa Bloch), s\u00e3o despojadas da conota\u00e7\u00e3o abstrato-formal que a burguesia lhes d\u00e1, orientando, portanto, a uma real liberta\u00e7\u00e3o, aquela em que o homem oprimido se realiza enquanto homem\u201d (VIEIRA, 1975: 137). Trata-se de buscar meios concretos para fugir de todas as nega\u00e7\u00f5es e construir uma poss\u00edvel estrutura social justa, onde o homem possa produzir, reproduzir e desenvolver sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\">(&#8230;) transforma\u00e7\u00f5es construtivas, poss\u00edveis e exigidas; em \u00faltimo termo: uma nova ordem com base num programa concretamente planejado que vai realizando progressivamente, <em>mas nunca totalmente<\/em>, a utopia poss\u00edvel (&#8230;).(DUSSEL, 2007: 558)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>3. A pr\u00e1xis libertadora<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao iniciar tal empreitada na companhia de Dussel, percebe-se uma esperan\u00e7a solid\u00e1ria por liberta\u00e7\u00e3o, que nasce a partir do sujeito, da v\u00edtima, que \u00e9 autor (a) de sua liberta\u00e7\u00e3o, pela pr\u00e1xis. Esse processo ocorre atrav\u00e9s uni\u00e3o dos pares em simetria, (no caso, as v\u00edtimas), que intersubjetivamente se disp\u00f5em a reivindicar seus direitos. S\u00e3o os membros de um gruo exclu\u00eddo que se unem para juntos lutarem pelo re-conhecimento, pela liberta\u00e7\u00e3o de todo tipo de exclus\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\">O Sujeito da pr\u00e1xis de liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 o sujeito vivo, necessitado, natural, e por isso cultural, em \u00faltimo termo a v\u00edtima, a comunidade das v\u00edtimas e os co-responsavelmente articulados a ela. O \u201clugar\u201d \u00faltimo, ent\u00e3o, do discurso, do enunciado cr\u00edtico, s\u00e3o as v\u00edtimas emp\u00edricas, cujas vidas est\u00e3o em risco. (DUSSEL, 2007: 530)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para que haja a liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio projetos hist\u00f3ricos, concretos, nascidos a partir da realidade das v\u00edtimas, que considerem os indiv\u00edduos exclu\u00eddos. Desta forma, os projetos devem nascer a partir da comunidade de v\u00edtimas. As v\u00edtimas lutar\u00e3o por aquilo que acreditam, da\u00ed a raz\u00e3o pela qual os projetos devem ser gestados na sua comunidade. Devem ser projetos que se constroem a cada dia e tenham como ponto de partida o humano, a produ\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da vida em comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio que a pr\u00e1xis de liberta\u00e7\u00e3o que surge na comunidade de v\u00edtimas, possibilitem a transforma\u00e7\u00e3o das mesmas, mas seja guiada por princ\u00edpios e crit\u00e9rios \u00e9ticos que tenham por par\u00e2metro a vida. N\u00e3o \u00e9 um simples formar, mas trans-formar, formar para al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com a tomada de consci\u00eancia e a necessidade de transforma\u00e7\u00e3o, surge o ju\u00edzo \u00e9tico-cr\u00edtico negativo que reivindica o novo, o positivo. O que possibilita analisar e criticar a ordem do sistema, o que resulta na proclama\u00e7\u00e3o da dissolu\u00e7\u00e3o do mesmo, a necessidade de seu desaparecimento. A v\u00edtima busca um novo sistema, onde seja poss\u00edvel viver e participar livremente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A \u201craz\u00e3o \u00e9tico-cr\u00edtica\u201d busca a transforma\u00e7\u00e3o, a pr\u00e1xis de liberta\u00e7\u00e3o, ou a a\u00e7\u00e3o transformadora de normas, a\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es, sistema ou eticidade, a partir das v\u00edtimas. \u00c9 na ado\u00e7\u00e3o deste posicionamento que nasce a a\u00e7\u00e3o concreta e comprometida com os oprimidos, uma luta transformadora (libertadora) dos oprimidos ou exclu\u00eddos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A consci\u00eancia \u00e9tico-cr\u00edtica \u00e9 que possibilita, de fato, a transforma\u00e7\u00e3o da realidade onde se encontra as v\u00edtimas; \u00e9 a partir dela que ser\u00e1 poss\u00edvel a nova constru\u00e7\u00e3o positiva das normas, a\u00e7\u00f5es, microestruturas, institui\u00e7\u00f5es ou sistema de eticidades, onde a produ\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da vida humana em geral seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tudo isso ser\u00e1 poss\u00edvel pela responsabilidade <em>a priori <\/em>pelo outro, que trar\u00e1 consigo conseq\u00fc\u00eancias, pois, seus princ\u00edpios materiais e formais exigem uma responsabilidade radical, <em>o dever da produ\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da vida de cada sujeito humano<\/em> (DUSSEL, 2007: 573). O que s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel com a co-responsabilidade solid\u00e1ria, com validade intersubjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O processo de liberta\u00e7\u00e3o deve levar em conta o desenvolvimento da vida das v\u00edtimas, a satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades (desde comer at\u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e m\u00edstica) e dos seus desejos (puls\u00f5es corporais comunit\u00e1rias do prazer gozoso), da hist\u00f3ria como progresso qualitativo da discursividade comunicativa, participativa e sim\u00e9trica, como autonomia e liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>4. Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s explorar o arcabou\u00e7o filos\u00f3fico de Dussel, foi poss\u00edvel perceber que a \u201cv\u00edtima\u201d ou o \u201coutro exclu\u00eddo\u201d ocupa lugar central em seus escritos. Para o fil\u00f3sofo latino-americano, uma \u00e9tica que n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o, a reprodu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da vida dos indiv\u00edduos oprimidos, carece de fundamento e sentido. Ele rejeita as teorias \u00e9ticas formais e abstratas que n\u00e3o t\u00eam nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o fazem nenhuma refer\u00eancia \u00e0 pr\u00e1xis concreta dos grupos oprimidos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ernest Bloch nos apresenta uma vis\u00e3o positiva, mesmo com tantas dificuldades, acredita na ut\u00f3pica positiva como possibilidade para construir uma sociedade melhor. \u00c9 a partir do sonho com um lugar ut\u00f3pico, perfeito que constru\u00edmos um melhor e poss\u00edvel. Pois os sonhos d\u00e3o animo para lutar e refletir sobre uma \u00e9tica, mesmo quando a sociedade prega valores que s\u00e3o contr\u00e1rios a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dussel acredita que para haver liberta\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, \u00e9 preciso que ela, responsavelmente, assuma sua condi\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o e, unida simetricamente com as outras \u201cv\u00edtimas\u201d, reivindiquem juntas o seu reconhecimento. Isto ocorre a partir de um processo de tomada de consci\u00eancia \u00e9tico-cr\u00edtica, que possibilitar\u00e1 \u00e0 \u201cv\u00edtima\u201d agir segundo ju\u00edzos \u00e9ticos, que servir\u00e3o de padr\u00e3o para as suas escolhas e a\u00e7\u00f5es e isso possibilitar\u00e1 a reformula\u00e7\u00e3o das estruturas, das a\u00e7\u00f5es e das institui\u00e7\u00f5es, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mais interessante \u00e9 que, para Dussel, a vida deve ser o par\u00e2metro de toda reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o. Por isto, deve ser respeitada e promovida em todas as circunst\u00e2ncias. Com isso, deve ser criticada e repensada toda a\u00e7\u00e3o ou institui\u00e7\u00e3o que exclui, oprime e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, provoca a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para o pensador latino-americano a liberta\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel, de fato com \u201ca co-res-ponsabilidade solid\u00e1ria, com validade intersubjetiva, partindo do crit\u00e9rio de verdade vida-morte\u201d (DUSSEL, 2007: 574). Segundo ele, somente a partir da responsabilidade m\u00fatua e da considera\u00e7\u00e3o da vida como valor primeiro, \u00e9 que ser\u00e1 poss\u00edvel \u201csair do caminho tortuoso sempre fronteiri\u00e7o, no qual caminha a humanidade como equilibrista sobre a corda bamba, entre os abismos da c\u00ednica insensibilidade \u00e9tica irrespons\u00e1vel para com as \u201cv\u00edtimas\u201d ou a paran\u00f3ia fundamentalista necrof\u00edlica que leva a humanidade a um suic\u00eddio coletivo\u201d (DUSSEL, 2007: 574).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A reflex\u00e3o de Dussel \u00e9 muito l\u00facida e equilibrada: ao mesmo tempo em que ele reconhece o valor da reflex\u00e3o te\u00f3rica, como motor que pode promover a conscientiza\u00e7\u00e3o das \u201cv\u00edtimas\u201d e lev\u00e1-las a um processo de reivindica\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o, por outro lado, ele percebe que a conscientiza\u00e7\u00e3o somente n\u00e3o \u00e9 capaz de libertar a \u201cv\u00edtima\u201d, se n\u00e3o for gestada no seio da sua realidade. Dussel percebe ainda que \u00e9 necess\u00e1rio que as \u201cv\u00edtimas\u201dse unam, em torno de um ideal comum, para efetivar a liberta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma pr\u00e1xis libertadora.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DUSSEL, Enrique. <em>\u00c9tica da liberta\u00e7\u00e3o na idade da globaliza\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o<\/em>. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Petr\u00f3polis: Vozes, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>Filosofia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>: cr\u00edtica \u00e0 ideologia da exclus\u00e3o. Trad. Georges I. Massiat. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>Filosofia da liberta\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/em> Trad. Luiz de Jo\u00e3o Gaio. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>La producci\u00f3n de Marx<\/em>: un coment\u00e1rio aos Grundrisse<em>.<\/em> M\u00e9xico: Siglo XXI, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>Para uma \u00e9tica da Liberta\u00e7\u00e3o latino-americana<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PINTO, A. P. <em>Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?<\/em> Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1962.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VIEIRA, Antonio Rufino. Marxismo e filosofia latino-americana: uma aproxima\u00e7\u00e3o dentre Ernest Bloch e Enrique Dussel. <em>Reflexao<\/em> (67\/68) Campinas, 1975.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adelson Laurindo Clemente Sampaio &nbsp; 1. Introdu\u00e7\u00e3o Um dos maiores males da sociedade atual \u00e9 a indiferen\u00e7a. O homem p\u00f3s-moderno, calculista e pragm\u00e1tico, n\u00e3o se sente afetado pela realidade e perde, progressivamente, a capacidade de ser atingido com os sofrimentos alheios. Essa realidade \u00e9tico-antropol\u00f3gica repercute nas rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas que v\u00e3o se tornando cada vez mais &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[167,25],"tags":[294,312,370,413,506,510],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-693","6":"format-standard","7":"category-adelson-l-clemente-sampaio","8":"category-dussel","9":"post_tag-exclusao","10":"post_tag-filosofia-da-libertacao","11":"post_tag-libertacao","12":"post_tag-outro","13":"post_tag-utopia","14":"post_tag-vitima"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=693"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/693\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}