{"id":707,"date":"2010-03-06T12:00:14","date_gmt":"2010-03-06T15:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=707"},"modified":"2010-03-06T12:00:14","modified_gmt":"2010-03-06T15:00:14","slug":"a-sensibilidade-e-suas-intuicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=707","title":{"rendered":"A sensibilidade e suas intui\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Tiago da Silva Gomes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Denomino <\/em>puras<em> (em sentido transcendental) todas as representa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o for encontrado nada pertencente \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o. Conseq\u00fcentemente, a forma pura de intui\u00e7\u00f5es sens\u00edveis em geral, na qual todo o m\u00faltiplo dos fen\u00f4menos \u00e9 intu\u00eddo em certas rela\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 encontrada <\/em>a priori<em> na mente. Essa forma pura da sensibilidade tamb\u00e9m se denomina ela mesma intui\u00e7\u00e3o pura. <\/em>(Kant, <em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o <\/em>Pura, p.39)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em sua <em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura<\/em>, na \u201cEst\u00e9tica Transcendental\u201d, Kant definiu a sensibilidade como uma faculdade de intui\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da qual os objetos s\u00e3o apreendidos pelo sujeito cognoscente. Nessa apreens\u00e3o receptiva s\u00e3o fornecidas \u201cintui\u00e7\u00f5es puras\u201d e \u201cintui\u00e7\u00f5es emp\u00edricas\u201d que possibilitar\u00e3o o conhecimento do objeto. O conhecimento s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel nas formas puras <em>a priori <\/em>da intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel: tempo e espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Kant afirma que a sensibilidade \u00e9 o primeiro passo para se chegar ao conhecimento. O objeto \u00e9 apresentado primeiramente \u00e0 sensibilidade para ser pensado, em seguida, gra\u00e7as ao entendimento. \u00c9 ela que fornece os dados da experi\u00eancia, ou seja, o m\u00faltiplo vindo das intui\u00e7\u00f5es. \u00c9 necess\u00e1rio distinguir na sensibilidade dois elementos constitutivos: um que \u00e9 material e receptivo passivo; outro que \u00e9 formal e ativo. A mat\u00e9ria do conhecimento s\u00e3o as impress\u00f5es que o sujeito recebe dos objetos exteriores, enquanto a forma exprime a ordem na qual essas impress\u00f5es s\u00e3o colocadas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A primeira fase definida como recep\u00e7\u00e3o passiva, na qual ministra ao conhecimento seu objeto ou sua mat\u00e9ria \u00e9 o que Kant chama de intui\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. Nela, o sujeito, exerce sua capacidade representativa (sensa\u00e7\u00e3o) mediante o efeito provocado pela afeta\u00e7\u00e3o do objeto. O material \u00e9 dado ao sujeito pelas simples sensa\u00e7\u00f5es ou modifica\u00e7\u00f5es que ele lhe causa (como, por exemplo, sentir frio ou calor, amargo e doce) e como tal, s\u00e3o dados <em>a posteriori<\/em> pertencentes \u00e1 realidade emp\u00edrica experienciada. S\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es fenom\u00eanicas, das quais se capta n\u00e3o o <em>em si mesmo<\/em> (<em>noumeno<\/em>) do objeto, mas o que se aparece ao sujeito que conhece sensorialmente atrav\u00e9s das manifesta\u00e7\u00f5es que lhe foram causadas pelo objeto. Por\u00e9m, na manifesta\u00e7\u00e3o fenom\u00eanica da intui\u00e7\u00e3o emp\u00edrica a \u201cforma\u201d da sensibilidade precede a \u201cmat\u00e9ria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A segunda fase \u00e9 aquela do pensamento ativo na qual se manifesta a inteligibilidade, ou seja, a forma do conhecimento chamada de \u201cintui\u00e7\u00e3o pura\u201d. Enquanto a mat\u00e9ria \u00e9 algo dada por simples sensa\u00e7\u00f5es ou modifica\u00e7\u00f5es produzidas no sujeito pelo objeto, a forma, por sua vez, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o vem das sensa\u00e7\u00f5es e da experi\u00eancia, mas sim do sujeito, sendo aquilo pelo qual os m\u00faltiplos dados sensoriais s\u00e3o ordenados em determinadas rela\u00e7\u00f5es. A forma \u00e9 o modo de funcionamento da sensibilidade, que, ao receber os dados sensoriais, naturalmente os organiza. Por isso, a intui\u00e7\u00e3o pura \u00e9 a forma pura da sensibilidade, ou seja, a forma dos <em>fen\u00f4menos<\/em> como contribui\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e <em>a priori<\/em> da sensibilidade em rela\u00e7\u00e3o ao saber. As formas puras da intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel como princ\u00edpios do conhecimento \u00e9 o tempo e o espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O espa\u00e7o e o tempo kantiano n\u00e3o s\u00e3o determina\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas, ou estruturas dos objetos, mas modos e fun\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do sujeito, isto \u00e9, s\u00e3o formas inerentes <em>a priori<\/em> de sua capacidade cognitiva. Conhecimento sens\u00edvel algum pode fugir \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o, pois todas as partes da sensa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se integram ao saber do sujeito se compreendidas no todo do tempo e no todo do espa\u00e7o. As formas <em>a priori<\/em> do espa\u00e7o e do tempo s\u00e3o as pr\u00f3prias impress\u00f5es refletidas do sujeito conhecedor intu\u00eddas sensivelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Kant, o espa\u00e7o \u00e9 a forma (o modo de funcionamento) do sentido externo, ou seja, a condi\u00e7\u00e3o \u00e0 qual deve satisfazer a representa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel de objetos externos; j\u00e1 o tempo \u00e9 a forma (o modo de funcionamento) do sentido interno e, portanto, a forma de todo dado sens\u00edvel interno enquanto conhecido pelo sujeito. Assim, o espa\u00e7o abarca todas as coisas que podem aparecer exteriormente e o tempo abarca todas as coisas que podem aparecer interiormente. N\u00e3o significam que sejam realidades absolutas, pois s\u00e3o dependentes da intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, se exige como condi\u00e7\u00e3o imanente para que seja poss\u00edvel um conhecimento objetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deve-se eliminar das formas puras do espa\u00e7o e do tempo kantiano qualquer hip\u00f3tese de um enquadramento num conceito discursivo, pois a sua unidade n\u00e3o \u00e9 a de um conceito abstrato, geral e universal como o conceito homem. Eles s\u00e3o essencialmente uno ao passo que todo conceito \u00e9, de si, relativo \u00e0 multiplicidade. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel falar de v\u00e1rios espa\u00e7os e tempos referindo-os, ao menos implicitamente, a um espa\u00e7o e tempo mais vasto que os cont\u00e9m a todos. A unicidade tanto do tempo, quanto do espa\u00e7o, enquanto princ\u00edpio de refer\u00eancia, diz respeito \u00e0 sua ilimita\u00e7\u00e3o e infinitude perante toda a realidade objetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A natureza do espa\u00e7o e do tempo \u00e9 determinada pela converg\u00eancia de duas caracter\u00edsticas essenciais: sua realidade emp\u00edrica e sua realidade transcendental. A sua realidade emp\u00edrica \u00e9 tudo aquilo que se apresenta externamente \u00e0 intui\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, ou seja, a afeta\u00e7\u00e3o do objeto no sujeito que a percebe intuitivamente pela sensibilidade. J\u00e1 a idealidade transcendental \u00e9 descoberta por Kant para que as formas puras da sensibilidade n\u00e3o venham a ser uma propriedade das coisas, nem uma realidade absoluta que as contenha, como ocorre na realidade emp\u00edrica. O tempo e o espa\u00e7o s\u00e3o, pois, algo ideal, mas daquela idealidade transcendental que n\u00e3o se op\u00f5e em nada \u00e0 objetividade atribu\u00edda \u00e0 extens\u00e3o e \u00e0 temporalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Kant, ao apresentar estas reflex\u00f5es faz uma cr\u00edtica aos empiristas, pois para ele a id\u00e9ia n\u00e3o pode ser destitu\u00edda do emp\u00edrico, um conhecimento deve nascer do emp\u00edrico e ser conceituado pela raz\u00e3o. Ele n\u00e3o exclui um conhecimento em detrimento do outro, ambos se complementam, dando possibilidade de um conhecimento verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As formas puras <em>a priori<\/em> s\u00e3o constitu\u00eddas como o fundamento dos ju\u00edzos sint\u00e9ticos <em>a priori<\/em> da matem\u00e1tica e da geometria. A geometria est\u00e1 diretamente relacionada ao espa\u00e7o e seus objetos externos. J\u00e1 a matem\u00e1tica se relaciona com o tempo e seus objetos s\u00e3o internos e n\u00e3o emp\u00edricos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, Kant percebeu que os objetos da ci\u00eancia podem ser conhecidos, pois se d\u00e3o no tempo e espa\u00e7o. Enquanto, os objetos da metaf\u00edsica que s\u00e3o objetos <em>em si<\/em> (<em>noumeno<\/em>), por n\u00e3o ser uma manifesta\u00e7\u00e3o fenom\u00eanica, n\u00e3o se pode conhec\u00ea-los. Por isso, a metaf\u00edsica como ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 algo poss\u00edvel, pois para ser teria que conhecer os seus objetos, sendo necess\u00e1rio emitir ju\u00edzo e ent\u00e3o conceitu\u00e1-los, por\u00e9m isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pelo fato da metaf\u00edsica n\u00e3o se dar no tempo e no espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">KANT, Immanuel. <em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o pura<\/em>. Trad. Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger. S\u00e3o Paulo: Abril cultural, 1983.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tiago da Silva Gomes Denomino puras (em sentido transcendental) todas as representa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o for encontrado nada pertencente \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o. Conseq\u00fcentemente, a forma pura de intui\u00e7\u00f5es sens\u00edveis em geral, na qual todo o m\u00faltiplo dos fen\u00f4menos \u00e9 intu\u00eddo em certas rela\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 encontrada a priori na mente. 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