{"id":775,"date":"2010-04-24T08:58:53","date_gmt":"2010-04-24T11:58:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=775"},"modified":"2010-04-24T08:58:53","modified_gmt":"2010-04-24T11:58:53","slug":"a-concepcao-pascaliana-de-milagres-na-relacao-entre-o-humano-e-o-divino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=775","title":{"rendered":"A concep\u00e7\u00e3o pascaliana de milagres na rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o divino"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rodrigo Artur Medeiros da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O per\u00edodo hist\u00f3rico denominado idade moderna &#8211; enquanto filosofia &#8211; \u00e9 dividido em tr\u00eas fases: a fase do renascimento, que se compreende do s\u00e9culo XV ao s\u00e9culo XVI, a do racionalismo e a do empirismo, compreendidas no s\u00e9culo XVII; fases estas respectivamente marcadas pela religiosidade, pelo privil\u00e9gio das verdades da raz\u00e3o bem como das experi\u00eancias sens\u00edveis como pontos fundamentais na forma\u00e7\u00e3o do sujeito cognoscente. Com base nesta perspectiva \u00e9 que Blaise Pascal (1623-1662), em seus pensamentos, escreve a sua concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica acerca do conceito de milagres.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Pascal, lei divina (doutrina) e milagres n\u00e3o podem ser considerados como distintos, visto que ambos, mutuamente, ajudam-se no amadurecimento e na compreens\u00e3o dos referidos conceitos. H\u00e1 os falsos e os verdadeiros milagres, sendo estes guardados pela Igreja (PASCAL, 1979 p. 250-257); por\u00e9m tanto os falsos quanto os verdadeiros milagres n\u00e3o podem ser considerados como fundamentos in\u00fateis, e sim como fundamentos de f\u00e9; da\u00ed a necessidade de conhec\u00ea-los e, posteriormente, distingui-los de forma sistem\u00e1tica. Ali\u00e1s, \u00e9 a exist\u00eancia dos falsos milagres, de acordo com o pensamento pascaliano, que faz com que o ser humano n\u00e3o aja em sua vida por meio da certeza, e sim da raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O milagre \u00e9 um efeito que excede a for\u00e7a natural dos meios, que nele se emprega, e o n\u00e3o-milagre \u00e9 um efeito que n\u00e3o excede a for\u00e7a natural dos meios, que nele se emprega. Assim, os que curam por invoca\u00e7\u00e3o do diabo n\u00e3o fazem um milagre, por isso n\u00e3o excedem a for\u00e7a natural do diabo (PASCAL, 1979 p. 249)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O ser humano \u00e9 o instrumento por meio do qual os milagres infundem-se nos pr\u00f3prios seres humanos; por\u00e9m os milagres, para que sejam considerados como verdadeiros, devem exceder a for\u00e7a natural dos meios, tendo estes que invocar o ser capaz de tal ato: Deus. Pascal concebe milagre como um fundamento sobrenatural que atinge o ser humano por interm\u00e9dio da gra\u00e7a divina. Acredita tamb\u00e9m que os milagres existem para fazer com que o ser humano, por meio de sua fragilidade, aproxime-se de Deus e este, atrav\u00e9s da infus\u00e3o de sua gra\u00e7a, se achegue de modo m\u00edstico aos seres humanos; uma conversa \u00edntima entre o criador e suas criaturas. Ora, Jesus comprova que \u00e9 o Messias devido aos seus milagres, atrav\u00e9s dos quais Ele consegue colocar a sua doutrina em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Apesar dos profetas falarem em nome de Deus, suas profecias n\u00e3o podem ser consideradas como milagres, pois a gra\u00e7a de Deus n\u00e3o age no instante exato na pessoa profetizada; n\u00e3o se pode dizer, tamb\u00e9m, que s\u00e3o premuni\u00e7\u00f5es, visto que a gra\u00e7a de Deus age nos profetas no momento de suas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da\u00ed pode-se dizer que Pascal muito contribui com a religiosidade atual, uma vez que, de acordo com sua concep\u00e7\u00e3o, somente as profecias n\u00e3o d\u00e3o subs\u00eddios para provar a exist\u00eancia de Jesus Cristo durante sua vida. Outra contribui\u00e7\u00e3o pascaliana, outrora advinda que se pode ser inferida na atualidade, \u00e9 a de que n\u00e3o basta aderir o seguimento a Cristo apenas para ser um mero milagreiro ou profeta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O seguimento a Cristo deve ser movido somente pela f\u00e9 por meio da qual Ele se faz conhecedor das mol\u00e9stias espirituais dos seres humanos e infunde seus milagres nos mesmos, por total compaix\u00e3o da fraqueza humana. Caso contr\u00e1rio, seguir o Messias \u201cseria apenas fazer da a\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a uma adula\u00e7\u00e3o ao amor-pr\u00f3prio do homem corrompido, quando na realidade a gra\u00e7a s\u00f3 eleva o homem humilhando-o\u201d. Esta \u00e9 uma pedagogia divina que Pascal n\u00e3o concebe, visto que \u00e9 o homem quem se humilha diante da gra\u00e7a de Deus. (PASCAL, 1979 p. 183-184)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pascal defende a tese de que somente quando o ser humano reconhece-se como miser\u00e1vel \u2013 enquanto ser da esp\u00e9cie animal, movido por paix\u00f5es, instintos, desejos \u2013 consegue encontrar no infinito algo maior, ou seja, Deus. A condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel do humano \u00e9 que o dificulta chegar \u00e0 verdade (Deus), mas ao mesmo tempo sua condi\u00e7\u00e3o acena para uma grandeza que lhe ultrapassa. Segundo a concep\u00e7\u00e3o pascaliana, h\u00e1 uma insufici\u00eancia, uma incapacidade da raz\u00e3o humana em conjeturar o absoluto. Por\u00e9m, se for capaz de superar esta incapacidade da raz\u00e3o, poder\u00e1 \u00a0regozijar de uma grandeza: o reconhecer-se miser\u00e1vel diante da grandeza de Deus, implica a grandeza do homem, isto \u00e9, a grandeza do pensamento e do auto-conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante da insufici\u00eancia da raz\u00e3o, Pascal prop\u00f5e uma aposta na exist\u00eancia de Deus, mediante a qual \u201cvencendo, ganhareis tudo e perdendo, n\u00e3o perdereis nada\u201d, ou seja, se o homem ap\u00f3s a morte conseguir contemplar Deus, ganhar\u00e1 por ter apostado neste em vida; caso contr\u00e1rio, n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma perda, pois a aposta num absoluto n\u00e3o lhe ter\u00e1 feito mal algum, ao contr\u00e1rio, ter\u00e1 ainda lhe oferecido refer\u00eancias morais. Trata-se de uma aposta de cunho racional que visa auxiliar a f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante dos pontos aqui discorridos, fica percept\u00edvel que, no pensamento de Pascal, para haver uma rela\u00e7\u00e3o maturada entre Deus e o imanente \u2013 o divino e o humano \u2013 \u00e9 necess\u00e1rio ao homem apenas abra\u00e7ar a sua condi\u00e7\u00e3o humana e assumir para si a primazia de Deus. Este talvez seja um dos grandes problemas para a filosofia atual.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>_<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">BRANCO, Daniel Artur Em\u00eddio. <em>A rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o divino. <\/em>Dispon\u00edvel em: www.consciencia.org\/a-relacao-entre-o-humano-e-o-divino-em-blaise-pascal. Acesso em: 07.abr. 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PASCAL, Blaise. <em>Pensamentos. <\/em>2.ed. Trad. S\u00e9rgio Milliet. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong>REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia. <\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 2006. V. 4.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Artur Medeiros da Silva &nbsp; O per\u00edodo hist\u00f3rico denominado idade moderna &#8211; enquanto filosofia &#8211; \u00e9 dividido em tr\u00eas fases: a fase do renascimento, que se compreende do s\u00e9culo XV ao s\u00e9culo XVI, a do racionalismo e a do empirismo, compreendidas no s\u00e9culo XVII; fases estas respectivamente marcadas pela religiosidade, pelo privil\u00e9gio das verdades &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[116,131],"tags":[191,253,300,391,446],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-775","6":"format-standard","7":"category-pascal","8":"category-rodrigo-artur-medeiros-da-silva-autores","9":"post_tag-aposta","10":"post_tag-deus","11":"post_tag-fe","12":"post_tag-milagre","13":"post_tag-razao"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/775","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=775"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/775\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}