{"id":906,"date":"2010-05-15T08:01:45","date_gmt":"2010-05-15T11:01:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=906"},"modified":"2010-05-15T08:01:45","modified_gmt":"2010-05-15T11:01:45","slug":"a-dominacao-do-desconhecido-a-genese-da-reificacao-no-projeto-do-esclarecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=906","title":{"rendered":"A domina\u00e7\u00e3o do desconhecido: a g\u00eanese da reifica\u00e7\u00e3o no projeto do esclarecimento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Bruno Viana Campos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Todo homem, mesmo que seja indiretamente, procura entender os paradigmas que regem a sociedade na qual vive. Compreendendo-os, ainda que em partes, ele ter\u00e1 uma vis\u00e3o mais profunda da realidade que o cerca. Nesse sentido, a import\u00e2ncia de se pensar o conceito de esclarecimento \u2013 \u201cque tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e investi-los na posi\u00e7\u00e3o de senhores\u201d (DA*, p. 17) \u2013 surge da necessidade de compreender a \u00e9poca em que vivemos, marcada pelo avan\u00e7o do pensamento tecno-cient\u00edfico, que d\u00e1 ao homem meios cada vez mais eficazes para a domina\u00e7\u00e3o da natureza, mas que, paradoxalmente, elimina, com a primazia da raz\u00e3o instrumental, o car\u00e1ter reflexivo do pr\u00f3prio pensamento, reduzindo o sujeito: \u201cO eu integralmente capturado pela civiliza\u00e7\u00e3o se reduz a um elemento dessa inumanidade, a qual\u00a0 a civiliza\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio procurou escapar\u201d (DA, p. 37).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, pensar como o esclarecimento se articulou resultando em tal redu\u00e7\u00e3o do sujeito (reifica\u00e7\u00e3o) pressup\u00f5e an\u00e1lises cr\u00edticas das entrelinhas do processo de desenvolvimento que a humanidade desencadeou para efetivar o projeto do esclarecimento, que era, em linhas gerais, colocar o homem como descortinador do desconhecido. Por isso, para dar continuidade a esta reflex\u00e3o, escolhemos os autores frankfurtianos Theodor Adorno e Max Horkheimer, pois ambos elaboraram an\u00e1lises cr\u00edticas sobre a sociedade contempor\u00e2nea, fazendo uma releitura do termo esclarecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na vis\u00e3o de Adorno e Horkheimer, o conceito de esclarecimento \u00e9 concebido com uma acep\u00e7\u00e3o muito mais ampla que o termo kantiano (<em>aufkl\u00e4rung<\/em>). Para os referidos fil\u00f3sofos de Frankfurt, o esclarecimento tem o intuito, em princ\u00edpio, de dominar a natureza externa (havia uma manifesta\u00e7\u00e3o de algo desconhecido cuja explica\u00e7\u00e3o fugia dos par\u00e2metros ordin\u00e1rios de compreens\u00e3o da realidade), ou seja, as for\u00e7as naturais, colocando-as a servi\u00e7o do seu dominador: \u201cNo sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posi\u00e7\u00e3o de senhores. [&#8230;]. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo.\u201d (DA, p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, para dominar a natureza externa era necess\u00e1rio que o homem cunhasse um m\u00e9todo que executasse com a m\u00e1xima precis\u00e3o poss\u00edvel o programa do esclarecimento, tudo isso em prol do dominador. Com esse intuito, n\u00e3o era a meta principal a busca por uma verdade que deixasse margem para o desconhecido; donde a necessidade do \u201c<em>operation<\/em>\u201d (DA, p. 18), do procedimento eficaz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso, nos prim\u00f3rdios da civiliza\u00e7\u00e3o, na tentativa de explicar o mundo e torn\u00e1-lo menos hostil e mais prop\u00edcio para a domina\u00e7\u00e3o (ou efetiva\u00e7\u00e3o da autoconserva\u00e7\u00e3o), o homem cria os mitos como uma primeira forma de desvelamento do mundo: \u201cos mitos [&#8230;] j\u00e1 se encontram sob o signo daquela disciplina e poder que Bacon enaltece como o objetivo a se alcan\u00e7ar (o progresso)\u201d (DA, p. 20). Por\u00e9m, os mitos, embora fossem \u00fateis para explicar o mundo \u2013 al\u00e9m de j\u00e1 serem produto do pr\u00f3prio pensamento, ou melhor, do esclarecimento \u2013 ainda n\u00e3o conseguiam eliminar por completo o medo dos homens (os mitos deixavam margem para o desconhecido), pois \u201cdo medo o homem presume estar livre quando n\u00e3o h\u00e1 nada mais de desconhecido\u201d(DA, p. 26).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse modo, era necess\u00e1rio que o homem superasse o pensamento m\u00edtico, voltando-se para si mesmo, no sentido de que o uso de uma raz\u00e3o instrumental \u00e9 muito mais eficiente para descortinar o mundo que o uso de uma raz\u00e3o produtora de mitos que deixava margem para o oculto [**]. Doravante, o homem encontra dentro de si mesmo o m\u00e9todo necess\u00e1rio e eficaz para o dom\u00ednio do mundo natural, ou seja, encontra a raz\u00e3o instrumental:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">Mas, ao mesmo tempo, a raz\u00e3o constitui a inst\u00e2ncia do pensamento calculador que prepara o mundo para os fins da autoconserva\u00e7\u00e3o e n\u00e3o conhece nenhuma outra fun\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a de preparar o objeto a partir de um mero material sensorial como material para a subjuga\u00e7\u00e3o. [&#8230;]. Tudo, inclusive o indiv\u00edduo humano, para n\u00e3o falar do animal, converte-se num processo reiter\u00e1vel e substitu\u00edvel, mero exemplo para os modelos conceituais do sistema. O conflito entre a ci\u00eancia que serve para administrar e reificar, entre o esp\u00edrito p\u00fablico e a experi\u00eancia do indiv\u00edduo, \u00e9 evitado pelas circunst\u00e2ncias. (DA, p. 73)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com o aux\u00edlio da sua raz\u00e3o instrumental, o homem deve colocar em d\u00favida e, no mais das vezes, descartar qualquer coisa que extrapolasse o seu pensamento calculador. Assim, n\u00e3o s\u00f3 as pot\u00eancias m\u00edticas e naturais passaram a se tornar uma t\u00eanue lembran\u00e7a nas mentes dos homens, mas tamb\u00e9m tudo aquilo que remetesse o ser humano ao seu estado natural (DA, p. 93), primitivo, pois a ordem dada pelo esclarecimento comandado pela raz\u00e3o instrumental era a efetiva\u00e7\u00e3o da autoconserva\u00e7\u00e3o a qualquer pre\u00e7o (DA, p. 38).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nessa perspectiva de total domina\u00e7\u00e3o da natureza pelo homem, ou seja, na busca de garantir a autoconserva\u00e7\u00e3o e a extirpa\u00e7\u00e3o do desconhecido na natureza, o homem acabou por fazer com que ele mesmo se perdesse de sua humanidade, coisificando-se:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">Atrav\u00e9s da identifica\u00e7\u00e3o antecipat\u00f3ria do mundo totalmente matematizado com a verdade, o esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do m\u00edtico. Ele confunde o pensamento com a matem\u00e1tica. [&#8230;]. O pensamento reifica-se num processo autom\u00e1tico e aut\u00f4nomo, emulando a m\u00e1quina que ele pr\u00f3prio produz para que ela possa finalmente substitu\u00ed-lo. O esclarecimento p\u00f4s de lado a exig\u00eancia b\u00e1sica de pensar o pensamento [&#8230;] porque ela desviaria do objetivo de comandar a pr\u00e1xis [&#8230;]. O procedimento matem\u00e1tico tornou-se, por assim dizer, o ritual do pensamento. (DA, p. 33)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, de acordo com o pensamento de Adorno e Horkheimer, observa-se que \u00e9 a partir da tentativa de descortinar o mundo desconhecido (e garantir a sobreviv\u00eancia do homem) que surge a proposta inicial do esclarecimento, cujo intuito era colocar o homem na posi\u00e7\u00e3o de dominador da natureza. No entanto, essa mesma proposta de emancipa\u00e7\u00e3o do homem acabou por faz\u00ea-lo regredir a mais um mero objeto a ser dominado (reifica\u00e7\u00e3o) atrav\u00e9s da principal ferramenta de domina\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio homem utiliza: o seu pensamento (com \u00eanfase da raz\u00e3o instrumental).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. <em>Dial\u00e9tica do esclarecimento<\/em>: fragmentos filos\u00f3ficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[*=DA]<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">__________________________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">[**] Na perspectiva de Adorno e Horkheimer, \u00e9 dif\u00edcil pensar em uma crise do mito diante da raz\u00e3o ou uma ruptura entre mitologia e esclarecimento, visto que o mito j\u00e1 \u00e9 um produto do esclarecimento. No entanto, pode-se pensar em uma sucess\u00e3o de verdades, no sentido de que a verdade revelada pelo mito se mostrava cada vez mais t\u00eanue e insuficiente para explicar e dominar o mundo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade descortinada pela raz\u00e3o instrumental.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Viana Campos Todo homem, mesmo que seja indiretamente, procura entender os paradigmas que regem a sociedade na qual vive. Compreendendo-os, ainda que em partes, ele ter\u00e1 uma vis\u00e3o mais profunda da realidade que o cerca. Nesse sentido, a import\u00e2ncia de se pensar o conceito de esclarecimento \u2013 \u201cque tem perseguido sempre o objetivo de &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[3,11,60],"tags":[199,256,276,448,451],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-906","6":"format-standard","7":"category-adorno","8":"category-bruno-viana-campos","9":"category-horkheimer","10":"post_tag-aufklarung","11":"post_tag-dialetica-do-esclarecimento","12":"post_tag-esclarecimento","13":"post_tag-razao-instrumental","14":"post_tag-reificacao"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=906"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/906\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}