{"id":928,"date":"2010-05-22T10:08:21","date_gmt":"2010-05-22T13:08:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=928"},"modified":"2010-05-22T10:08:21","modified_gmt":"2010-05-22T13:08:21","slug":"a-intuicao-como-condicao-necessaria-do-conhecimento-abstrato-em-schopenhauer-e-nietzsche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=928","title":{"rendered":"A intui\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria do conhecimento abstrato, em Schopenhauer e Nietzsche"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desde as origens da filosofia na antiga Gr\u00e9cia, a capacidade cognitiva do homem vem sendo uma quest\u00e3o que inquieta os fil\u00f3sofos. Ser\u00e1 que o homem \u00e9 capaz de conhecer a verdade? Ser\u00e1 que o homem \u00e9 capaz de conhecer as coisas na sua plenitude? At\u00e9 onde a raz\u00e3o consegue apreender a realidade? Estas s\u00e3o algumas quest\u00f5es que se pode fazer a cerca da capacidade cognitiva do homem. Por\u00e9m, diferente da filosofia Grega no per\u00edodo cl\u00e1ssico e dos fil\u00f3sofos racionalistas do per\u00edodo moderno, que acreditavam na capacidade da raz\u00e3o de conhecer a verdade, alguns fil\u00f3sofos fazem uma cr\u00edtica sobre est\u00e1 capacidade. Duvidando assim do poder de conhecimento da raz\u00e3o, colocando em xeque a validade do conhecimento abstrato. Entre eles pode ser citado Schopenhauer e Nietzsche.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tanto Schopenhauer como Nietzsche fazem uma cr\u00edtica ao conhecimento proveniente da raz\u00e3o, o conhecimento abstrato. \u201cNietzsche em seu livro <em>Sobre a verdade e mentira<\/em> <em>no sentido extra-moral, <\/em>questiona a validade do conhecimento abstrato e faz uma reflex\u00e3o a respeito da capacidade intuitiva\u201d (PASCHOAL; FREZZATTI JR, 2008, p. 320). J\u00e1 Schopenhauer no Livro I de O <em>Mundo como vontade e representa\u00e7\u00e3o<\/em> \u201cinvestiga a concord\u00e2ncia do saber racional e aponta um conhecimento mais puro, desprovido da linearidade l\u00f3gica e dos recursos da linguagem, justamente a intui\u00e7\u00e3o\u201d (ibidem, p. 314). Assim, os dois fil\u00f3sofos n\u00e3o concebem o saber abstrato proveniente da raz\u00e3o como um conhecimento seguro da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, diferente de Schopenhauer que acredita que o conhecimento verdadeiro e puro das coisas se d\u00e1 por meio da capacidade intuitiva. Para Nietzsche n\u00e3o h\u00e1 conhecimento verdadeiro, o homem n\u00e3o consegue conhecer a verdade das coisas. Mas assim como Schopenhauer, Nietzsche v\u00ea a intui\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o conhecimento abstrato, sendo ela o primeiro contanto da mente com a coisa, e atrav\u00e9s dela a raz\u00e3o tem contato com o mundo objetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deste modo, prop\u00f5em se neste artigo, mostrar sob o vi\u00e9s de Schopenhauer e de Nietzsche a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento humano. E como a intui\u00e7\u00e3o pode ser a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o conhecimento abstrato. Avaliando primeiro o pensamento de Schopenhauer para assim chegar ao pensamento de Nietzsche.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1. Constru\u00e7\u00e3o do conhecimento em Schopenhauer<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao contr\u00e1rio da filosofia tradicional, Schopenhauer n\u00e3o mais identifica o homem como ser unicamente racional, movido pela raz\u00e3o. Mas sim, um ser movido pela vontade [1]. Por isso, ele questiona o valor do conhecimento abstrato. A raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais confi\u00e1vel, ela necessita dos conceitos para construir o conhecimento e o conceito n\u00e3o consegue apreender a realidade de cada coisa em sua particularidade. Desta forma ele aponta a intui\u00e7\u00e3o como forma mais pura de conhecer a realidade objetiva. Ela \u00e9 um conhecimento instant\u00e2neo e imediato desprovido de conceitos e de qualquer forma de julgamento:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>A intui\u00e7\u00e3o produz um conhecimento efetivo a partir da percep\u00e7\u00e3o do objeto pelos \u00f3rg\u00e3os sensoriais e pela impress\u00e3o deste no c\u00e9rebro, sendo um conhecimento instant\u00e2neo e imediato. Quando intu\u00edmos um objeto n\u00e3o h\u00e1 qualquer forma de julgamento, intu\u00edmos a sua figura exclusivamente e particular.<\/em> (ib., p. 317)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A intui\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro contato da mente com a coisa. Ela representa a imagem da coisa na mente, sem nenhum julgamento. Desprovida de conceitos, esta imagem \u00e9 capitada a partir do pr\u00f3prio objeto. Por isso para Schopenhauer a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 um conhecimento puro, pois ela \u00e9 fiel \u00e0 coisa em sua particularidade.\u00a0 \u201cA intui\u00e7\u00e3o se basta por si mesma. Por conseguinte, tudo que se origina puramente dela a ela permanece fiel, como a aut\u00eantica obra de arte, nunca pode ser falso ou contradit\u00f3rio pelo tempo, pois l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 opini\u00e3o alguma, mas a coisa mesma\u201d (ib., p. 317).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Schopenhauer a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 a detentora da realidade (ib., p.319). Ela \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do mundo material, \u00e9 tudo aquilo que aparece como figura para o entendimento. Mas para entender melhor a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso compreender duas faculdades distintas do intelecto que \u00e9: o entendimento e a raz\u00e3o. Estas fundamentam todo o processo de conhecimento do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O entendimento \u00e9 a base tanto do conhecimento intuitivo quanto do conhecimento abstrato, proveniente da raz\u00e3o. A Partir da intui\u00e7\u00e3o a mente tem o primeiro contato com a realidade, mas a percep\u00e7\u00e3o, a representa\u00e7\u00e3o, da coisa intu\u00edda s\u00f3 se d\u00e1 pelo entendimento. O conhecimento intuitivo \u00e9 apreendido pelo entendimento, onde se encontra as categorias de espa\u00e7o e tempo [2]. Estas categorias s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para que a coisa intu\u00edda seja representada pelo entendimento na mente. Depois de representada a raz\u00e3o conceitua est\u00e1 representa\u00e7\u00e3o, formando assim o conhecimento abstrato. Mas o que o entendimento representa \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da causa e do efeito do objeto: \u201cNo entendimento o espa\u00e7o e o tempo se unem possibilitando a condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de todas as representa\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, a <em>percep\u00e7\u00e3o<\/em> da causa e do efeito de um objeto\u201d (ib., p 315). Tudo se relaciona na mente pela causalidade que se encontra no entendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, o entendimento n\u00e3o \u00e9 uma faculdade peculiar do ser humano. Mas uma faculdade que existe em todos os animais. E muitas vezes ele \u00e9 mais puro nos animais do que no homem. Pois no homem o entendimento se ap\u00f3ia na raz\u00e3o. Um bom exemplo para demonstra a a\u00e7\u00e3o do entendimento nos animais \u00e9: \u201co caso do elefante que evitou passar sobre uma ponte, pois previu que seu peso a derrubaria\u201d (Genealogia da Moral, p 315). O entendimento sem a a\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o \u00e9 mais puro. Sendo que a raz\u00e3o trabalha com conceitos e estes empobrecem o entendimento. \u201c\u00c8 importante salientar que a faculdade do entendimento \u00e9 uma exclusividade da filosofia de Kant, para ele: Todos os fen\u00f4menos, que o homem encontra, s\u00e3o determinados e concebidos de acordo com as formas de vis\u00e3o do entendimento\u201d( ZILLES, 2008, p. 85)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo entendido a faculdade do entendimento, cabe a gora conhecer a faculdade da raz\u00e3o. Como se sabe ela \u00e9 uma faculdade exclusiva do homem. E tem como fun\u00e7\u00e3o ordenar o conhecimento intuitivo. Por isso para Schopenhauer \u201ca raz\u00e3o \u00e9 de natureza feminina, pois s\u00f3 pode dar depois de ter recebido\u201d (PASCHOAL; FREZZATTI JR, 2008, p. 316). Isto \u00e9 a raz\u00e3o depende do entendimento para formar o conhecimento abstrato. \u201cS\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel o saber abstrato, isto \u00e9, proveniente da raz\u00e3o gra\u00e7as ao entendimento, pois \u00e9 a partir dele que se pode ter o conhecimento da mat\u00e9ria\u201d (ib., p.316). Assim, tamb\u00e9m a raz\u00e3o \u00e9 dependente da intui\u00e7\u00e3o .<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A raz\u00e3o s\u00f3 forma o conhecimento abstrato a partir de conceitos. Mas os conceitos tendem a caracterizar o conhecimento intu\u00eddo. E esta caracteriza\u00e7\u00e3o empobrece o conhecimento, devido \u00e0 pobreza dos conceitos. Tamb\u00e9m os conceitos fazem uma generaliza\u00e7\u00e3o da coisa. Ou seja, eles n\u00e3o conseguem apreender a particularidade de cada objeto. E assim acontece a degrada\u00e7\u00e3o do conhecimento intu\u00eddo. \u201cPara Schopenhauer, no momento em que caracterizamos a realidade intu\u00edda, ou seja, quando a transformamos em conceito, h\u00e1 inevitavelmente uma degrada\u00e7\u00e3o do conhecimento devido \u00e0 escassez dos recursos ling\u00fc\u00edsticos e da conseq\u00fcente generaliza\u00e7\u00e3o obtida por ela\u201d (ib., p.316).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com isso, a raz\u00e3o trabalha com conceitos para formar o conhecimento abstrato. Mas para forma um conceito a raz\u00e3o precisa fragmentar v\u00e1rias representa\u00e7\u00f5es intu\u00eddas. E assim atrav\u00e9s de um agrupamento de informa\u00e7\u00f5es forma-se o conceito do objeto. Tendo-os, assim, como qualidades diferentes do que est\u00e1 intr\u00ednseco no objeto. Isto \u00e9, o conceito n\u00e3o consegue expressar a coisa mesma, isto s\u00f3 \u00e0 intui\u00e7\u00e3o. Por isso, o conhecimento abstrato n\u00e3o \u00e9 um conhecimento puro da realidade. Sendo que ele passa por um processo enorme at\u00e9 ser formado. E seu conte\u00fado est\u00e1 sempre em refer\u00eancia a outro conte\u00fado, o da intui\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o ao pr\u00f3prio objeto, como segue:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>A forma\u00e7\u00e3o do conceito, portanto, s\u00f3 se d\u00e1 a partir do agrupamento de uma serie de informa\u00e7\u00f5es adquiridas pela intui\u00e7\u00e3o podendo ser interpretada como uma representa\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o, pois seu conte\u00fado est\u00e1 em refer\u00eancia \u00e0 outra representa\u00e7\u00e3o (intuitiva) constituindo-se, assim, numa copia flagelada do conte\u00fado intuitivo. <\/em>(ib.)<em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Schopenhauer, o conhecimento abstrato n\u00e3o est\u00e1 destinado a conhecer a realidade, mas sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a comunicabilidade e a praticidade. Com isto, fica claro que a raz\u00e3o tem um car\u00e1ter instrumental. O conhecimento intu\u00eddo s\u00f3 pode ser usado na vida pr\u00e1tica atrav\u00e9s da conceitua\u00e7\u00e3o dada pela raz\u00e3o, formando assim, o conhecimento abstrato. O que corresponde \u00e0 realidade do objeto s\u00e3o as representa\u00e7\u00f5es intuitivas. Estas por sua vez precisam da raz\u00e3o para expressar o seu conte\u00fado. Por\u00e9m, este conhecimento intuitivo s\u00f3 consegue conhecer no particular, um objeto de cada vez: \u201cAs representa\u00e7\u00f5es intuitivas correspondem \u00e0 realidade do objeto, todavia seu conhecimento s\u00f3 vale no caso particular, pois a sensibilidade e o entendimento s\u00f3 podem conceber um objeto por vez\u201d (ib., p. 318).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deste modo, para Schopenhauer a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 a forma mais pura de conhecimento da realidade. Ela produz um conhecimento real da coisa. Atrav\u00e9s dos \u00f3rg\u00e3os sensoriais a intui\u00e7\u00e3o representa o objeto na mente que \u00e9 apreendido pelo entendimento. Em seguida a raz\u00e3o conceitua o objeto, formando o conhecimento abstrato. Tendo como escopo a comunica\u00e7\u00e3o e o aux\u00edlio na vida pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, mais do que explicar o processo do conhecimento humano, Schopenhauer quer mostrar um conhecimento mais puro da realidade, um conhecimento distante da raz\u00e3o, um conhecimento que consegue conhecer as coisas na sua plenitude, que \u00e9 o conhecimento intuitivo. Mas mesmo que a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 a possuidora da realidade, ela s\u00f3 \u00e9 fen\u00f4meno, ou seja, n\u00e3o corresponde ao objeto em si, este \u00e9 conhecido pela id\u00e9ia o que \u00e9 analisado no segundo livro da obra <em>O mundo como vontade e representa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2. O problema do conhecimento abstrato em Nietzsche<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Nietzsche, assim como em Schopenhauer, h\u00e1 um questionamento sobre a validade do conhecimento abstrato. Por\u00e9m ao inv\u00e9s de analisar o processo cognitivo, Nietzsche analisa at\u00e9 onde a linguagem \u00e9 capaz de expressar a realidade. Deste modo, ele tenta demonstrar que tudo que o homem conhece s\u00e3o antropomorfismos criados pelo intelecto. Isto \u00e9, o intelecto cria formas para as coisas. Esta no\u00e7\u00e3o do intelecto coincide com a hip\u00f3tese de Schopenhauer, de que a raz\u00e3o \u00e9 um instrumento para auxiliar a vida do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O intelecto \u00e9 concebido, por Nietzsche, como meio de conserva\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Ou seja, algo que protege o indiv\u00edduo, que d\u00e1 seguran\u00e7a a ele. Assim como os animais tem seus meios de defesa: as garras, presas, unhas, chifres etc. \u201cO intelecto como meio de conserva\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, desdobra suas for\u00e7as mestras no disfarce; pois este \u00e9 o meio pelo qual os indiv\u00edduos mais fracos, menos robustos se conservam, aqueles aos quais est\u00e1 vedado travar uma luta pela exist\u00eancia com chifres ou presas afiadas\u201d (ib., p. 320). Trata-se de um mecanismo de defesa a qual existe para garantir a exist\u00eancia da ra\u00e7a humana. Por isso, Nietzsche, concebe o conhecimento que provem dele como utilit\u00e1rio. Necess\u00e1rio somente pela necessidade que o homem tem de se comunicar, por causa da vida social. \u201cSendo assim, todo o conhecimento advindo do intelecto possui somente um car\u00e1ter utilit\u00e1rio, principalmente no que diz respeito \u00e0 linguagem e \u00e0 import\u00e2ncia desta para a vida greg\u00e1ria, uma fez que para viver em conjunto \u00e9 necess\u00e1rio comunicar-se e fazer-se entender\u201d (ib., p 321). Diante desta necessidade da comunicabilidade do ser humano se desenvolve a linguagem, como instrumento para suprir esta necessidade. Por\u00e9m, para Nietzsche seria um absurdo dizer que ela consegue transmitir um conhecimento seguro da realidade do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diferente de Schopenhauer, que enumera as faculdades do intelecto como entendimento e raz\u00e3o, Nietzsche n\u00e3o se atem a estes detalhes do intelecto. Mas concebe o conhecimento do intelecto como met\u00e1foras criadas. S\u00e3o os antropomorfismos do intelecto. Met\u00e1foras estas que n\u00e3o conseguem assemelhar-se a realidade da coisa. Nem mesmo o primeiro contato do sujeito com o objeto, atrav\u00e9s da sensibilidade, consegue captar a realidade da coisa. Este primeiro contato da mente com o objeto \u00e9 chamado met\u00e1fora intuitiva ou primeira met\u00e1fora. Ela distorce a realidade porque a parti desta met\u00e1fora o intelecto cria uma imagem na mente. Mas esta met\u00e1fora \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o individual e \u00fanica do objeto. Ou seja, mesmo que a met\u00e1fora intuitiva distor\u00e7a a realidade ela \u00e9 o conhecimento mais puro do intelecto. \u201cA met\u00e1fora intuitiva, como \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o natural do intelecto que cont\u00e9m um saber individualizado e \u00fanico em refer\u00eancia ao objeto\u201d (ib., p.323). A met\u00e1fora intuitiva coincide com a representa\u00e7\u00e3o da intui\u00e7\u00e3o em Schopenhauer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Nietzsche a met\u00e1fora intuitiva n\u00e3o se identifica com o objeto, pois n\u00e3o h\u00e1 percep\u00e7\u00e3o como em Schopenhauer, mas sim cria\u00e7\u00e3o. Quando se tem contato com um objeto s\u00e3o lan\u00e7ados no c\u00e9rebro informa\u00e7\u00f5es, derivadas da sensibilidade, estas n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o objeto. \u201cNo momento em que temos contato com o objeto, automaticamente, criamos a suas qualidades que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente condizentes com a natureza\u201d (ib., p 322).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, em Nietzsche a intui\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue conhecer a realidade objetiva. E isto difere do pensamento de Schopenhauer. Mas algo comum no pensamento dos dois, \u00e9 que a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e0 base do conhecimento abstrato. Pois \u00e9 o primeiro contato da mente com a coisa. Outra coisa que eles t\u00eam em comum \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o da linguagem como degrada\u00e7\u00e3o da intui\u00e7\u00e3o por meio do conceito. \u201cEm <em>sobre Verdade e mentira<\/em>, Nietzsche assimila a id\u00e9ia proposta por Schopenhauer do processo degenerativo da intui\u00e7\u00e3o pela postula\u00e7\u00e3o de um conceito\u201d (ib., p.322).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A met\u00e1fora intuitiva \u00e9 uma imagem criada pelo intelecto como se segue: \u201cmesmo num primeiro contato do homem com o objeto, cujo ponto de partida \u00e9 sempre a sensibilidade corporal, j\u00e1 ocorreu uma distor\u00e7\u00e3o da realidade, pois os nossos est\u00edmulos nervosos criam subjetivamente uma imagem (met\u00e1fora intuitiva)\u201d (ib., p,.321). Toda fez que se cria uma imagem, cria-se uma imagem \u00fanica, que n\u00e3o se repete. Por\u00e9m, diante da necessidade de comunic\u00e1-la, suas particularidades se perdem. Pois os conceitos empobrecem a met\u00e1fora devido \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o generalizada da coisa feita pelo conceito. Isto \u00e9, os conceitos n\u00e3o conseguem apreender as particularidades de cada coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Um dos exemplos utilizados por Nietzsche \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da palavra folha, de fato nos \u00e9 claro que nunca uma folha \u00e9 exatamente igual \u00e0 outra, mas arbitrariamente n\u00f3s a identificamos como iguais esquecendo suas peculiaridades como as diferentes tonalidades e texturas. A palavra aos olhos de Nietzsche fixa as nossas impress\u00f5es imediatas deixando-as frias e descoloridas. <\/em>(ib., p.324)<em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deste modo, o conceito para Nietzsche est\u00e1 num grau inferior de conhecimento. Mas tanto ele como Schopenhauer reconhece o valor do conceito, pelos seus fins pr\u00e1ticos. O grande problema acontece quando o homem toma o conceito como um conhecimento verdadeiro, capaz de exprimir a realidade objetiva. O conceito, a linguagem, n\u00e3o se aproxima do objeto, pois passa por um processo longo desde a primeira met\u00e1fora at\u00e9 ser formado. O conceito \u00e9 a terceira met\u00e1fora. \u00c8 importante lembrar que para Nietzsche n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conhecer a coisa em si, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 conhecimento verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, depois de ter percorrido este processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento abstrato tanto em Nietzsche como em Schopenhauer. Observa-se que a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 o iniciante do processo cognitivo. E a raz\u00e3o em Schopenhauer, e o intelecto em Nietzsche, n\u00e3o s\u00e3o considerados um conhecimento seguro da realidade. Pois, a realidade representada pela intui\u00e7\u00e3o sofre uma degrada\u00e7\u00e3o quando transformada em conceito pela raz\u00e3o. Atrav\u00e9s dos conceitos a realidade \u00e9 caracterizada de uma forma generalizada, n\u00e3o observando a particularidade de cada coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim para Schopenhauer a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 um conhecimento puro. A percep\u00e7\u00e3o do objeto dada pela intui\u00e7\u00e3o se iguala ao objeto. Por\u00e9m em Nietzsche a met\u00e1fora intuitiva n\u00e3o se iguala a realidade. Pois no intelecto n\u00e3o h\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o, mas sim uma cria\u00e7\u00e3o. Mas a intui\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser o conhecimento mais puro da realidade objetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, fica claro, que a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 o iniciante do processo cognitivo. E que a raz\u00e3o ou o intelecto tem seu valor unicamente como instrumento da vida pr\u00e1tica. Isto por causa da necessidade de comunicabilidade do homem diante da vida social.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">BARBOSA, Jair. <em>Schopenhauer<\/em>: a decifra\u00e7\u00e3o do enigma do mundo. 2.  ed. S\u00e3o Paulo: Moderna, 1997.<\/p>\n<p>PASCHOAL, A. E., FREZZATTI JR, W. A. (org.)<em>. 120 anos de Para a  Genealogia da moral<\/em><strong>.<\/strong> Iju\u00ed: Uniju\u00ed, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ZILLES, Urbano. <em>Teoria do Conhecimento e Teoria da Ci\u00eancia<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[1] Pode considerar-se a realidade sob duas diferentes perspectiva:s como representa\u00e7\u00e3o e como vontade. Como representa\u00e7\u00e3o o mundo \u00e9 cognosc\u00edvel racional, mas o mundo como vontade permanece obscuro. O mundo como vontade e representa\u00e7\u00e3o \u00e9 um principio universal que tamb\u00e9m vale no reino anorg\u00e2nico. A vontade \u00e9 a for\u00e7a que leva a planta a florir. A vontade est\u00e1 no peixe que quer viver na \u00e1gua. Vontade \u00e9 a garra da ave de rapina que quer comer sua presa. (ZILLES, 2008)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[2] O sujeito possui tr\u00eas formas puras de conhecimento, todas inatas, presentes nelas desde o nascimento e que possibilita a apreens\u00e3o do mundo circundante, s\u00e3o: o tempo, o espa\u00e7o e a causalidade, esp\u00e9cie de \u201c\u00f3culos intelectuais\u201d, para se conhecer as coisas, v\u00ea-las tais quais aparecem. Situada num dado espa\u00e7o, num dado tempo, envolvidas pela causalidade. Causalidade &#8211; todo acontecimento possui um fundamento, uma raz\u00e3o de ser. (BARBOSA, 1997)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira Introdu\u00e7\u00e3o Desde as origens da filosofia na antiga Gr\u00e9cia, a capacidade cognitiva do homem vem sendo uma quest\u00e3o que inquieta os fil\u00f3sofos. Ser\u00e1 que o homem \u00e9 capaz de conhecer a verdade? Ser\u00e1 que o homem \u00e9 capaz de conhecer as coisas na sua plenitude? 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