{"id":954,"date":"2010-05-29T12:21:02","date_gmt":"2010-05-29T15:21:02","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=954"},"modified":"2010-05-29T12:21:02","modified_gmt":"2010-05-29T15:21:02","slug":"a-existencia-de-deus-na-perspectiva-de-voltaire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=954","title":{"rendered":"A exist\u00eancia de Deus na perspectiva de Voltaire"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem \u00e9 um ser caracterizado por grandes capacidades intelectuais e pr\u00e1ticas, mas, em sua finitude, \u00e9 concomitantemente um ser fr\u00e1gil que se encontra em meio a grandes for\u00e7as externas, como a natureza e a sociedade, e for\u00e7as internas, como os instintos e as paix\u00f5es. Por causa de sua fragilidade, inquieta-se com o sentido de sua exist\u00eancia e sempre se pergunta qual o sentido de seu nascimento, de sua morte, da ang\u00fastia, do medo, do sofrimento e do desespero. Diante disso, busca algo que lhe traga esperan\u00e7a, algo que lhe d\u00ea seguran\u00e7a e sentido para a vida, encontrando assim respostas na aceita\u00e7\u00e3o de um ser superior a ele, um ser perfeito e eterno, que \u00e9 \u201cDeus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m Deus n\u00e3o \u00e9 um ser material, tang\u00edvel, do qual facilmente se constate a exist\u00eancia. Por isso, sua exist\u00eancia foi e \u00e9 uma quest\u00e3o muito discutida, principalmente no \u00e2mbito da filosofia. V\u00e1rios fil\u00f3sofos escreveram sobre este tema e tentaram argumentar sobre a exist\u00eancia de Deus. Assim, ser\u00e1 tratado neste artigo, especificamente, a perspectiva de Voltaire.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Voltaire (1694-1778) foi um fil\u00f3sofo franc\u00eas iluminista considerado \u201cde\u00edsta\u201d<strong><sup>1<\/sup><\/strong> (embora o pr\u00f3prio Voltaire use o termo te\u00edsmo para designar sua concep\u00e7\u00e3o de Deus). Acredita que Deus se manifesta ao homem n\u00e3o pela revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica como a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, mas atrav\u00e9s da raz\u00e3o, de modo que, negar a exist\u00eancia de Deus seria um absurdo, pois segundo ele: \u201cDeus existe como a coisa mais veross\u00edmil que os homens podem pensar e a proposi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria como uma das mais absurdas\u201d (VOLTAIRE, 1978b, p.68).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, o fil\u00f3sofo em quest\u00e3o tem uma vis\u00e3o c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metaf\u00edsica, pois a raz\u00e3o humana n\u00e3o \u00e9 capaz de conhecer a natureza divina e a realidade transcendente. Ao contr\u00e1rio da presun\u00e7\u00e3o da antiga metaf\u00edsica, que se gabava de tudo conhecer, Voltaire evita o conhecimento que supera o limite da natureza humana, porque segundo ele: \u201ca verdadeira filosofia consiste em saber deter-se no ponto exato e nunca continuar sem um guia seguro\u201d (ROVIGHI, 1999, p.355). Isto \u00e9, n\u00e3o existe um guia seguro para a metaf\u00edsica, justamente por causa da insufici\u00eancia da raz\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade supra-sens\u00edvel. .<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, Voltaire acreditava numa certa ordem inerente \u00e0 natureza. Uma prova desta ordem inerente \u00e9 o fim com que cada coisa se relaciona, pois este fim comprova que existe uma fun\u00e7\u00e3o para cada coisa no universo, conforme se segue: \u201cN\u00e3o h\u00e1 arranjo sem objeto, nem efeito sem causa; logo tudo \u00e9 igualmente o resultado, o produto de uma causa final; logo, \u00e9 t\u00e3o verdadeiro dizer que os narizes foram feitos para trazer lunetas, como \u00e9 verdadeiro dizer que as orelhas foram formadas para ouvir os sons e os olhos para receberem a luz\u201d. (VOLTAIRE, 1978a, p.191).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deste modo, a partir da ordem inerente da natureza, Voltaire deduz duas provas da exist\u00eancia de Deus, as quais segundo ele resumiriam todas as outras provas e tamb\u00e9m todos os outros escritos sobre esta quest\u00e3o. Sendo assim, o primeiro argumento a ser considerado \u00e9 exatamente esta ordem do universo, mas n\u00e3o s\u00f3 ela, como tamb\u00e9m o fim com que cada coisa se relaciona:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Quando vejo um rel\u00f3gio cujo ponteiro marca as horas, disso concluo que um ser inteligente montou as engrenagens desta m\u00e1quina para que o ponteiro marque as horas. Assim quando considero as engrenagens do corpo humano, concluo que um ser inteligente montou os \u00f3rg\u00e3os para serem recebidos e nutridos por nove meses na matriz: que os olhos nos s\u00e3o dados para ver, \u00e0s m\u00e3os para segurar, e assim por diante.<\/em> (VOLTAIRE, 1978b, p.63).<em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por esse motivo, para Voltaire, como para Newton, Deus \u00e9 o grande engenheiro ou mec\u00e2nico que idealizou, criou e regulou o sistema do mundo (REALE, 2005, p.257), ou seja, se existe uma ordem no universo \u00e9 porque algu\u00e9m ordenou, e o rel\u00f3gio \u00e9 uma prova ineg\u00e1vel da exist\u00eancia do relojoeiro, assim como o mundo \u00e9 uma prova evidente da exist\u00eancia de um Criador Supremo que \u00e9 Deus. \u201cSe Deus n\u00e3o existisse seria preciso invent\u00e1-lo, por\u00e9m a natureza proclama a sua exist\u00eancia\u201d. (REALE, 2005, p.257).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O segundo argumento a ser considerado \u00e9 mais metaf\u00edsico, partindo assim, do pressuposto da necessidade da exist\u00eancia de um Ser que exista necessariamente e seja eterno, pois se existe uma coisa ou existe eternamente ou foi criado por um Ser eterno que existe por si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Existo, portanto alguma coisa existe. Se algo existe, existiu desde toda eternidade, pois aquilo que \u00e9, ou \u00e9 por si mesmo ou recebeu seu ser de outro. Se \u00e9 por si mesmo, \u00e9 necessariamente, sempre foi necessariamente e \u00e9 Deus. Se recebeu o ser de outro, e este seu ser de um terceiro, aquele de quem este \u00faltimo recebeu seu ser deve ser necessariamente Deus, pois n\u00e3o podeis conceber um ser que d\u00ea o ser a um outro se n\u00e3o tiver o poder de criar.<\/em> (VOLTAIRE, 1978b, p.64)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste argumento a exist\u00eancia de Deus \u00e9 provada pelo fato de ter que existir um Ser que exista necessariamente por si mesmo. Pois se existe algo, existe necessariamente por si mesmo desde toda eternidade ou seu ser deriva de um outro ser que existe desde toda eternidade sendo o seu ser a origem de todos os outros seres. Logo, este ser necess\u00e1rio que existe por si mesmo \u00e9 Deus. E por fim, basta agora examinar, segundo a reflex\u00e3o de Voltaire, se o mundo material \u00e9 este Ser necess\u00e1rio que existe por si mesmo e que \u00e9 a origem dos outros seres que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Se este mundo material existisse por si mesmo de modo absolutamente necess\u00e1rio, seria contradit\u00f3rio pensar que a m\u00ednima parte dela poderia ser diferente de como \u00e9, pois, se o seu ser neste momento \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio, isso \u00e9 suficiente para excluir qualquer outra maneira de ser. Ora est\u00e1 fora de d\u00favida que esta mesa sobre a qual escrevo, esta pena de que me sirvo, n\u00e3o foram sempre aquilo que s\u00e3o; estes pensamentos que tra\u00e7o sobre esta folha um momento antes nem sequer existiam, e n\u00e3o existem de modo necess\u00e1rio. Ora, se cada parte n\u00e3o existe com absoluta necessidade, \u00e9 imposs\u00edvel que o todo exista por si mesmo. Eu produzo movimento; portanto um movimento antes n\u00e3o existia; portanto, n\u00e3o \u00e9 essencial a mat\u00e9ria; portanto ela o recebe de outro; portanto, h\u00e1 um Deus que o comunica a ela.<\/em> (REALE, ,2005 p.73.)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desta forma, se a mat\u00e9ria existisse como uma necessidade absoluta, todas as partes dela deveriam existir necessariamente. Por\u00e9m, as partes n\u00e3o existem necessariamente, pois uma mesa nem sempre foi uma mesa e uma caneta nem sempre foi uma caneta. Sendo assim, se as partes n\u00e3o existem necessariamente, o todo tamb\u00e9m n\u00e3o existe necessariamente. Logo, a mat\u00e9ria n\u00e3o existe necessariamente e n\u00e3o \u00e9 Deus. Pois como se percebeu, Deus \u00e9 um ser que existe necessariamente por si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, fica claro no pensamento de Voltaire que Deus se revela aos homens por meio de sua raz\u00e3o, no entanto esta mesma raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 capaz de conhecer a realidade transcendente. E a exist\u00eancia de Deus \u00e9 algo ineg\u00e1vel, pois a natureza proclama sua exist\u00eancia, ou seja, as provas de sua exist\u00eancia s\u00e3o tiradas da ordem inerente que existe na natureza e esta ordem se d\u00e1 pelo fim com que cada coisa se relaciona no universo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ABBAGNANO, Nicola. <strong>Dicion\u00e1rio de filosofia. <\/strong>4. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes. 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni. <strong>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/strong>: de Spinoza a Kant. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ROVIGHI, Sofia Vanni. <strong>Hist\u00f3ria da Filosofia Moderna<\/strong>: da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a Hegel. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VOLTAIRE. <strong>Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico.<\/strong> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Abril cultural, 1978a. (Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VOLTAIRE.<strong> Tratado de Metaf\u00edsica<\/strong>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Abril cultural, 1978b. (Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">________________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[1] \u201c<strong>De\u00edsmo<\/strong> \u2013 Doutrina de uma religi\u00e3o natural ou racional n\u00e3o fundada na revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas na manifesta\u00e7\u00e3o natural da divindade \u00e0 raz\u00e3o do homem. O D. \u00e9 um aspecto do iluminismo (v.), de que faz parte integrante.(&#8230;) O D. difundiu-se fora da Inglaterra como elemento do iluminismo: s\u00e3o de\u00edstas quase todos os iluministas franceses , alem\u00e3es e italianos. Nem todos, por\u00e9m, usam a palavra D. para designar sua cren\u00e7as religiosas: Voltaire, p. ex., usa a palavra \u2018<strong>te\u00edsmo<\/strong>\u2019. (&#8230;) Nota-se, por\u00e9m, que em rela\u00e7\u00e3o ao conceito de Deus nem todos os de\u00edstas estavam de acordo. Enquanto os de\u00edstas ingleses atribu\u00edam a Deus n\u00e3o s\u00f3 o governo do mundo (a garantia da ordem do mundo), mas tamb\u00e9m o do mundo moral, os de\u00edstas franceses, a come\u00e7ar por Voltaire, negam que Deus se ocupe dos homens e lhe atribuem a mais radical indiferen\u00e7a quanto a seu destino.\u201d (ABBAGNANO, 2000, p. 238). Voltaire usa a palavra <strong>te\u00edsmo<\/strong> com o mesmo significado do <strong>de\u00edsmo<\/strong> para os demais iluministas, \u201cafirmando que Deus governa o mundo e na retribui\u00e7\u00e3o do mal e do bem na vida futura. Por\u00e9m , quanto \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de Deus nem todos os <strong>de\u00edstas<\/strong> comungam da mesma id\u00e9ia. Enquanto os de\u00edstas ingleses atribuem a Deus o governo do mundo f\u00edsico e do mundo moral, os de\u00edstas franceses, a come\u00e7ar por Voltaire, negam o governo do mundo moral (&#8230;), por isso, ele acredita que a historia \u00e9 uma quest\u00e3o dos homens, inclusive o mal\u201d(REALE, 2005, p. 257).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira O homem \u00e9 um ser caracterizado por grandes capacidades intelectuais e pr\u00e1ticas, mas, em sua finitude, \u00e9 concomitantemente um ser fr\u00e1gil que se encontra em meio a grandes for\u00e7as externas, como a natureza e a sociedade, e for\u00e7as internas, como os instintos e as paix\u00f5es. Por causa de sua fragilidade, inquieta-se &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[72,160],"tags":[244,253,349,488],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-954","6":"format-standard","7":"category-joao-paulo-rodrigues-pereira","8":"category-voltaire","9":"post_tag-deismo","10":"post_tag-deus","11":"post_tag-iluminismo","12":"post_tag-teismo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=954"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/954\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}