{"id":968,"date":"2010-06-19T11:44:01","date_gmt":"2010-06-19T14:44:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=968"},"modified":"2010-06-19T11:44:01","modified_gmt":"2010-06-19T14:44:01","slug":"o-ser-humano-a-crianca-niilista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=968","title":{"rendered":"O ser humano: a crian\u00e7a niilista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Evaldo Rosa de Oliveira <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Reginaldo Pereira In\u00e1cio<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">O niilismo vem do latim <em>nihil<\/em> que significa nada; \u00e9 uma corrente filos\u00f3fica que, a princ\u00edpio, concebe a exist\u00eancia humana como isenta de qualquer sentido. Foi popularizada primeiramente na R\u00fassia do s\u00e9culo XIX, como rea\u00e7\u00e3o de alguns intelectuais russos, principalmente socialistas e anarquistas \u00e0 lentid\u00e3o dos czares em promover as desejadas reformas democr\u00e1ticas. Por\u00e9m o assunto a ser trabalhado se dar\u00e1 na perspectiva do fil\u00f3sofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900). Para ele \u201co niilismo \u00e9 aquilo em que estamos e como pensamos, \u00e9 teoria de raz\u00e3o e l\u00f3gica de decad\u00eancia&#8221; (OLIVEIRA, 1999: 51).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Nietzsche, o niilismo tem suas ra\u00edzes na Gr\u00e9cia antiga, mais precisamente com a metaf\u00edsica socr\u00e1tica-plat\u00f4nica. Com a dicotomia estabelecida por Plat\u00e3o, criam-se dois mundos o sens\u00edvel, um mundo que \u00e9 ilus\u00f3rio, por isso, aparente, e o outro mundo que \u00e9 chamado de supra-sens\u00edvel que \u00e9 ideal e perfeito, portanto verdadeiro. Esta mesma dicotomia estabelecida por Plat\u00e3o est\u00e1 presente tamb\u00e9m no cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em S\u00f3crates, o homem \u00e9 definido como ser racional, o que o possibilita racionalizar sua vida, desconsiderando o aspecto tr\u00e1gico da mesma. Aspecto este, que contribuiu para que Nietzsche combatesse a sistematiza\u00e7\u00e3o. Para ele \u201csistematizar \u00e9 querer regular a vida em movimento dentro de esquemas\u201d (MACHADO, 1994: 22). Mas, nem tudo que se apresenta coerente e isento de contradi\u00e7\u00f5es, por isso um dos objetivos da filosofia nietzschiana \u00e9 valorizar o dionis\u00edaco, isto \u00e9, o princ\u00edpio desordem, da espontaneidade, que resgata o vir-a-ser no homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Paulatinamente o homem racionalizado percebe-se em meio ao niilismo, sem ter em que se apoiar, isento de valores e ideais. Assumindo assim a condi\u00e7\u00e3o de um \u201candarilho que h\u00e1 muito caminhar numa \u00e1rea congelada e de repente com o desgelo, se v\u00ea surpreendido pelo ch\u00e3o que come\u00e7a a se partir em mil peda\u00e7os. Rompidos a estabilidade dos valores e os conceitos tradicionais torna-se dif\u00edcil prosseguir o caminho\u201d (VOLPI, 1999: 7). A condi\u00e7\u00e3o deste andarilho representa bem a condi\u00e7\u00e3o concreta que o homem contempor\u00e2neo se encontra, o mesmo homem que tinha sua vida pautada em valores que eram \u201ceternos\u201d agora vive o niilismo, j\u00e1 que junto do niilismo vieram tamb\u00e9m a perda dos sentidos, dos grandes valores que eram tidos como pontos referenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao constatar a morte de Deus, constata-se tamb\u00e9m o niilismo na modernidade. O que concretiza que a \u201cf\u00e9 no Deus Crist\u00e3o deixou de ser plaus\u00edvel\u201d (NIETZSCHE, 2002: \u00a72). Conforme o pr\u00f3prio Nietzsche afirma, \u201c(&#8230;) n\u00e3o ouviram falar daquele homem louco que em plena manh\u00e3 acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e p\u00f4s-se a gritar incessantemente: \u2018Procuro Deus! Procuro Deus!\u2019 (&#8230;) \u2018Para onde foi Deus?\u2019 Gritou ele, j\u00e1 lhes direi! N\u00f3s o matamos. Voc\u00ea e eu somos todos seus assassinos! (&#8230;) Deus est\u00e1 morto (&#8230;)\u201d (SAFRANSKI, 2001: 277). A preocupa\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 epistemol\u00f3gica, mas ao contr\u00e1rio, mostrar como surgiu e porque desapareceu a cren\u00e7a de que havia um Deus. Afirmar a morte de Deus \u00e9 negar os valores mais supremos que se tinham at\u00e9 ent\u00e3o, por isso, \u00e9 cab\u00edvel mencionar o que afirmou Gianni Vattimo, \u201cDeus morreu, mas o homem n\u00e3o vai muito bem\u201d (NIETZSCHE, 2004: \u00a79), ou seja, o homem moderno vive uma situa\u00e7\u00e3o em que perdeu seus fundamentos e refer\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O niilismo \u00e9 apresentado, n\u00e3o por Nietzsche, mas por alguns de seus estudiosos de formas diferentes que merecem ser mencionados, trata-se do niilismo negativo, passivo, reativo e ativo (FINK, 1988: 83-84). \u00c9 do niilismo negativo que todos os outros tipos de niilismos derivam. Tem sua origem na dissolu\u00e7\u00e3o dos valores supremos tradicionais, conforme ocorre ao platonismo e cristianismo, o homem nega o real em detrimento do que \u00e9 v\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 no niilismo passivo h\u00e1 o \u201cdesaparecimento de toda vontade, a aus\u00eancia de todo valor, o fim do amor, da cria\u00e7\u00e3o, do anseio; tudo \u00e9 igual nada vale a pena, o saber nos sufoca\u201d (MACHADO, 1999: 70). Com isso, a vida passa a n\u00e3o ter mais valor e os homens passam a se sentirem sozinhos no mundo. O niilismo reativo \u00e9 o que a modernidade viveu atrav\u00e9s do ocultamento de Deus. \u201cO homem reativo n\u00e3o suporta mais nenhuma testemunha quer estar sozinho com seu triunfo e apenas com as for\u00e7as\u201d (NIETZSCHE, 2002: \u00a72).E, por \u00faltimo, o niilismo ativo que tem a vida regida pelo nada, al\u00e9m de t\u00ea-la como abertura ao tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, o niilismo destr\u00f3i todos os fundamentos, mas ele \u00e9 por sua vez, um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d, caso a transvalora\u00e7\u00e3o dos valores seja levada em considera\u00e7\u00e3o. Pois \u00e9 por meio desta transvalora\u00e7\u00e3o que os valores que s\u00e3o considerados eternos, imut\u00e1veis e inquestion\u00e1veis, passam a ser desconsiderados, resgatando assim, os valores que eram considerados subordinados e secund\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao assumir o niilismo niitzschiano, \u00e9 necess\u00e1rio levar em considera\u00e7\u00e3o as tr\u00eas transforma\u00e7\u00f5es poss\u00edveis ao ser humano, sendo necess\u00e1rio enfatizar o da crian\u00e7a. \u201cTr\u00eas transforma\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito vos menciono: como o esp\u00edrito se muda em camelo, e o camelo em le\u00e3o, e o le\u00e3o finalmente em crian\u00e7a\u201d (REALE, ANTISERI, 1991: 431). O camelo \u00e9 o \u201chomem de grande venera\u00e7\u00e3o, que se inclina diante da hegemonia de Deus, diante da proemin\u00eancia da lei moral que se prosterna e transporta docilmente o seu pesado fardo\u201d (ib.: 436). Ou seja, o homem camelo tem como caracter\u00edstica, o <em>tu deves<\/em>, obedecendo o sentido da vida ao que lhe \u00e9 imposto, ele n\u00e3o \u00e9 capaz de revoltar-se conta os fardos pesados que lhe \u00e9 imposto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Apesar do le\u00e3o descobrir o <em>eu quero<\/em> e por isso lutar contra o <em>tu deves<\/em>, \u201cnesse <em>eu quero<\/em> ainda existe demais desafio e rigidez, ainda n\u00e3o existe a verdadeira liberdade do querer criativo, ainda n\u00e3o chegamos a n\u00f3s mesmos, no tesouro da nossa vida\u201d (NIETZSCHE, 1998: \u00a72). Fazendo assim com que o homem que carregava o peso de uma tradi\u00e7\u00e3o se torne imponente. Portanto, este processo se completa quando o le\u00e3o se transforma em crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cA crian\u00e7a \u00e9 a inoc\u00eancia, e o esquecimento, um novo come\u00e7ar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirma\u00e7\u00e3o\u201d (MACHADO, 1997: 46). Ela \u00e9 inocente por ser incapaz de adequar sua conduta a preconceitos da mente humana, mas ao contr\u00e1rio ela vive e aceita a vida tal como esta lhe \u00e9 apresentada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, diante do niilismo, deve levar em considera\u00e7\u00e3o esses tr\u00eas momentos: camelo, le\u00e3o e crian\u00e7a. Pois, o niilismo nasce paralelamente a estas transforma\u00e7\u00f5es, ele rompe com o peso da tradi\u00e7\u00e3o, com os valores supremos. Por isso, rompe com o <em>tu deves<\/em>, mas ele vai al\u00e9m, rompe tamb\u00e9m com os fundamentos que s\u00e3o criados num dado momento, fazendo assim, com que a espontaneidade esteja presente no homem niilista, que passa a n\u00e3o ter preconceitos, n\u00e3o carregar o peso da tradi\u00e7\u00e3o, nem se imp\u00f5e, mas resgata o aspecto do vir a ser.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">FINK, Eugen. <em>A filosofia de Nietzsche<\/em>. Trad. Joaquim Louren\u00e7o Duarte Peixoto. 2\u00b0 ed. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MACHADO, Roberto Cabral de Melo. Deus, Homem e Super-Homem. In: <em>Revista Kriterion<\/em>, Belo Horizonte, vol. 35, n. 89, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MACHADO, Roberto. <em>Nietzsche e a verdade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">NIETSCHE, Friedrich. <em>Assim Falou Zaratustra<\/em>. S\u00e3o Paulo<em>: <\/em><em>Companhia <\/em>das LetraS, 1998.<em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>Aurora<\/em>. Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>Crep\u00fasculo dos \u00cddolos<\/em>: como se filosofa as marteladas. Trad. Delfim Santos. Lisboa: Guimar\u00e3es Editoras, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">OLIVEIRA, Ibraim Vitor de. <em>A irresist\u00edvel provoca\u00e7\u00e3o do nada<\/em>. Roma: Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana, 1999. (Mestrado em filosofia)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>. Vol III. S\u00e3o Paulo; Paulus, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SAFRANSKI, Rudiger. <em>Nietzsche, Biografia de uma trag\u00e9dia<\/em>. Trad. Lya Luft. S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VOLPI, Franco. <em>O Niilismo<\/em>. Trad. Aldo Vannucchi. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MACHADO, Roberto Cabral de Melo. <em>Zaratustra, trag\u00e9dia nietzschiana<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.<\/p>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"display:none;opacity:1!important;background:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;overflow:visible!important;z-index:999999!important;text-align:left!important;border-color:none!important;margin:0!important;padding:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;overflow:visible!important;background-image:0 color-stop(50%,#EEE), color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;padding:8px!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;margin:0!important;padding:3px 5px 0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evaldo Rosa de Oliveira Reginaldo Pereira In\u00e1cio O niilismo vem do latim nihil que significa nada; \u00e9 uma corrente filos\u00f3fica que, a princ\u00edpio, concebe a exist\u00eancia humana como isenta de qualquer sentido. 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