Leandro Marcos Costa

 

“Falar um com o outro significa: dizer algo para o outro, mostrar um para o outro alguma coisa e confiar-se mutuamente ao que se mostra”. Martin Heidegger

O homem é dotado de um atributo que o faz se destacar entre tantos seres que existem na face da terra. Há nele uma capacidade que o especifica, que faz dele um ser social, de relação e interação. Esta especificidade é a linguagem, atributo que faz do homem um ser vivo notável, que o qualifica enquanto tal.

Heidegger dissertou sobre a linguagem, debruçou sobre o tema e trouxe contribuições significativas para a filosofia. É a respeito destas contribuições que iremos tratar neste artigo, em especial o conceito de linguagem e suas implicações, buscando perceber a linguagem como algo característico da nossa humanidade.

No início da obra A caminho da Linguagem, Heidegger diz:

O homem fala. Falamos quando acordados e em sonho. Falamos continuamente. Falamos mesmo quando não deixamos soar nenhuma palavra. Falamos quando ouvimos e lemos. Falamos igualmente quando não ouvimos e não lemos e, ao invés, realizamos um trabalho ou ficamos à toa. Falamos sempre de um jeito ou de outro (HEIDEGGER, 2003, p.7)

Tal citação ajuda-nos a ter uma compreensão mais totalizante acerca da linguagem humana e entendermos o quanto o ser humano é próximo da linguagem. A linguagem é algo muito próximo do ser humano, algo que o encanta e que o faz participante do mundo.

É na linguagem que Heidegger vai encontrar a forma de interpretar o homem enquanto partícipe deste mundo. “A linguagem é a casa do ser. É nessa morada que habita o homem” (HEIDEGGER apud REALE; ANTISERI, 1991, p.591).

A forma que a linguagem no pensamento de Heidegger toma é de uma rede de fala e discurso, uma linguagem que não necessita sumariamente de um discurso gramaticalmente completo, é uma emissão verbal boa, que em si contém elementos chaves para a correta compreensão dos enunciados da fala. (INWOOD, 2004, p.61). O discurso é a base da linguagem, é visto como uma interação de sujeitos, de duas pessoas que vão evidenciando no discurso sua temporalidade e a experiência do seu ser-no-mundo.

Pela humanidade do homem é que ele se comunica, possui uma linguagem, o que o distancia dos demais seres presentes na natureza. “Heidegger afirma que falamos porque somos homens e, por conseguinte, falamos quando estamos acordados ou em sonhos, falamos quando não deixamos soar nenhuma palavra” (ASSIS JÚNIOR, 2004, p.388).

Heidegger nos propõe que conheçamos a linguagem por ela mesma, nada mais além da linguagem. A linguagem fala, a fala é o que vigora a linguagem enquanto linguagem. É preciso explorar a fala para podermos morar na linguagem.

O falar do homem não é apenas uma de suas inúmeras capacidades, mas é algo que marca o ser humano de forma profunda, a capacidade do falar nos distingue dos demais seres da natureza e nos faz sermos verdadeiramente homens. “O ser humano não seria homem se lhe fosse recusado falar necessariamente” (HEIDEGGER, 2003, p.191).

A fala se expressa no dito e também no silêncio. Isto se dá pelo fato de em determinas situações, diante de uma admiração profunda ou de um terror atroz o homem perder a fala, mas ele não se emudece, pois continua a dizer, pois ele se sente tocado. Ou pode acontecer, por meio de um acidente ou deficiência, perdemos a capacidade de falar, mas mesmo nesta situação o homem não se silencia. “Falar implica em articular sons, seja falando ou calando, e mesmo na mudez, quando não podemos falar” (HEIDEGGER, 2003, p.193).

A fala da linguagem se dá também por meio da poesia, que é a forma mais autêntica de manifestação da linguagem, segundo Heidegger.

A linguagem possui uma autonomia em relação ao homem, não é o homem que produz a linguagem, ela não é obra humana, é totalmente autônoma. A palavra é fundamental no papel de compreensão humana, mas em dado momento, podemos compreender algo sem mesmo possuir palavras para tal.  Mas o uso da palavra dentro da compreensão humana é um fator condicionante em relação às coisas, é um fator primordial. “O nomear é crucial. Ele conecta o nome com o conhecimento” (ASSIS JÚNIOR, 2004, p.401).

Heidegger considera a linguagem como sendo um elemento muito característico da nossa humanidade, a partir dela é que se desvela a verdade do ser. A linguagem é a base da nossa realidade, pois clarifica os fenômenos e é lugar privilegiado para respondermos como ser-aí (Dasein), enquanto seres no mundo.

Quando o homem fala…ele só fala após ter consentido em ouvir a língua. Mesmo não saber entender a língua é uma forma de escuta. O homem fala a partir da língua […] Na verdade, é a língua que fala e não o homem. O homem fala na medida em que corresponde à língua (BEAINI, 1986, p.92)

Diante das perspectivas acerca da linguagem lançadas por Heidegger, podemos perceber o quanto há de esforço em conceituar algo tão primordial para nossa comunicação. A linguagem constitui no pensamento de Heidegger uma fonte de produção filosófica, devido a sua riqueza e complexidade.

Heidegger nos apresenta vieses para adentrar acerca do universo da linguagem, constrói todo um caminho a ser percorrido, desde a conceituação até a essência da linguagem. Ele apresenta o discurso e a poesia como sendo este caminho crucial, pelo qual somos chamados a perceber a manifestação mais sublime e real da língua, a escutar a voz da linguagem, a perceber que na fala se esconde algo intrínseco a nós. É, portanto, na linguagem que se desvela quem verdadeiramente somos, as potencialidades que temos, a manifestação autêntica do ser.

 

Referências

ASSIS ASSIS JÚNIOR, Benjamim M. de. A linguagem como desvelamento do ser em Martin Heidegger. In: VVAA. Provocações: ensaios filosóficos – Monografias 2004. Mariana: Dom Viçoso, 2004.

BEAINI, Thais Curi. Heidegger: arte como cultivo do inaparente. São Paulo: Nova Stella, 1986.

HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes, 2003.

INWOOD, Michael. Heidegger. São Paulo: Loyola, 2004.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: do romantismo até nossos dias. 2 ed. São Paulo: Paulus, 1991. (Filosofia, v.3)

1 comentário


  1. Homem e linguagem:
    A linguagem não expressa somente pensamentos e ideias, mas em primeiro lugar, sentimentos e afectos.
    a linguagem é o meio segundo o qual determina as fronteiras do grau de relacionamento entre os seres humanos.
    Os homens chegam a estabelecer as suas relações por meio da linguagem, isto significa que se não somos capazes de dominar uma língua, não seremos capzes de manter um relacionamento com o nosso semelhante.
    A linguagem como meio que engloba a língua, tem um factor preponderante para a demarcação de limites, num determinado meio.

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