feita por Hércules Amorim Werneck*

LENOBLE, Robert. História da Ideia de Natureza. Tradução Teresa Louro Pérez. Lisboa: Edições 70, 2002. p. 257-279.

 Robert Lenoble começou a sua carreira ensinando filosofia em colégios secundários, mas em breve começou a dedicar-se a investigações pessoais. Doutorou-se em letras em 1943 com duas teses: uma consagrada a Mersenne, outra à noção de experiência. Em 1947 entrou para o Centre National de la Recherche Scientifique, e passou a consagrar-se totalmente à investigação da história das ciências e reflexão filosófica, tendo escrito artigos para diversas revistas. Desempenhou um papel importante na edição da correspondência de Mersenne. Colaborou na elaboração da Encyclopédie de la Pléiade e da Histoire générale des sciences. Faleceu em janeiro de 1959, deixando uma obra importante como filósofo e historiador das ciências.

Na obra História da Ideia de Natureza, estruturada em dez capítulos, o autor examina as diversas formas que a ideia de natureza assumiu sucessivamente ao longo da história e das várias correntes de pensamento que a caracterizaram, no campo da cultura do ocidente. Todavia, enfocaremos o quarto capítulo que trata do fenômeno mecanicista do século XVII, com particular atenção aos grandes pensadores daquela época: Galileu, Mersenne, Descartes e Pascal.

Segundo o autor, a evolução das ideias do século XVI era sem dúvida impulsionada pelo fascínio do homem pelo estético. No século seguinte a ciência através dos seus relevantes progressos iriam tomar este papel e se tornaria o instrumento humano para a conquista da natureza. Ela [a natureza], até então, tratada como deusa universal, sofrerá a tentativa de ser mecanizada para melhor ser compreendida, ser dominada.

Desde a Grécia antiga um abismo entre a ciência e a técnica ou arte era constatado. Esta, manipulava o acidente, dominava as perspectivas e gerava a opinião. Além de possibilitar que o homem melhorasse sua atuação como um tipo de obreiro e também aperfeiçoasse suas habilidades de criar as suas próprias ferramentas. Já aquela se incumbia de conhecer as coisas eternas: substâncias, essências, movimentos necessários etc.

De fato, o século XVII foi tomado por ações que mudariam de forma crucial a maneira  com a qual o homem se comportaria diante da natureza: Galileu pede aos engenheiros que descobrissem a real estrutura do mundo; a partir daí, a experiência direta  sobre a natureza interromperá definitivamente a contemplação e o respeito que o ser humano tinha perante a mesma. Agora, ele quer tornar-se senhor e dominador. Quer utilizar-se dela e conquistá-la.

Por sua vez, Pascal disse que a verdade sobre a natureza não está na razão sobre as essências, mas nas experiências que se devem realizar sobre a mesma. Com isso, os princípios da física se multiplicaram, seus algozes querem se elevar ao status de Deus para conhecer o segredo do engenheiro divino, e assim compreender como o universo fora criado.

Alguns pensadores, tais como: Mersenne, Roberval, Pascal, Torricelli, Viète, Fermat, Stevin, Beekman, Huygen, Hobbes e Boyle tiveram discurso afinado ao declararem que a Natureza é uma máquina e que a ciência é a técnica de exploração da mesma.

Ao falar sobre a posição da religião diante tal mudança de paradigma ocorrida no século XVII, o autor mostra que esta não concordou com a ciência, no entanto, abriu-se ao  diálogo para com a mesma naquele contexto de grande revolução da física. Para a Igreja, serviu de forma mais emblemática o pensamento baseado nos textos bíblicos em que o próprio Deus, durante o ato da criação do universo, aquele que dá o direito ao homem de dominar todos os seres. Portanto, homem e natureza não estão na equivalência de valores pois o paraíso está sob a administração daquela criatura que foi feita a imagem de Deus.

Para o autor aqui se concluí que uma visão mecanicista da natureza é portanto observada pela primeira vez na dimensão teológica. O homem quer conhecer através da atividade científica o conjunto de fenômenos que existem no universo; quer imitar o criador e entender as engrenagens desta máquina denominada natureza.

O pragmatismo científico daquele século acredita que a física não é uma definição da natureza, mas uma adaptação, em função dos sentidos e dos princípios do homem. Sejam os pragmatistas como Mersenne ou metafísicos como Descartes, todos os mecanicistas idealizam então a natureza como sendo uma obra construída por Deus e a cujo homem é outorgada a faculdade de descobrir as partes distintas deste projeto perfeito e misterioso para depois fabricá-lo ao seu modo na expectativa de produzir os mesmos resultados.

O autor observou que com a chegada da ciência mecanicista é marcada o início da conquista efetiva da natureza e a sua separação radical do destino do homem. Este se sente seguro, emancipado e sai sem medo de angustiar-se, até porque a religião lhe fará companhia e não o deixará se sentir só. Uma vez mecanizada, ela [a natureza] tornara-se um objeto passivo de exploração e do uso da técnica experimental. Com a revolução industrial nascente será então levada ao extremo da sua capacidade de experimento.

O texto muito bem elaborado pelo autor é de fácil leitura e retrata o rompimento de uma relação respeitosa e balanceada entre o homem e a natureza. Esta última, pode se dizer, exercia, até então, um tipo de fascínio e de medo, pelos mistérios que sua complexidade trazia em si mesma. Pelo avanço científico e conjuntamente ao início do processo industrial em série, a divindade da natureza é banalizada, e aquilo que antes era em sua totalidade desconhecida ao homem, passa a ser um produto de sua exploração sem precedentes.  A natureza sofrerá as ofensivas mecanicistas do homem, que tende a humanizar tudo, porque desta maneira, ele, criatura, deseja tomar o papel do criador e decide por si mesmo pôr os limites para as suas ações.

Esta obra é indicada especialmente a todos aqueles que se interessam pelos estudos dos ramos da Cosmologia e da História da Filosofia nas quais são abordados os fatos históricos em que o homem rompe o relacionamento com a natureza, e ao fazer ciência, quer desvendar o mistério que consiste esta máquina. O texto também presta importante colaboração para que se analise o surgimento das variadas correntes de pensamento que justificariam as ações humanas e impulsionariam o progresso científico, cultural e político no ocidente.

*graduando em filosofia na FAM

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