Carlos Heitor Fideles¹

 

Considerações iniciais
A relação entre fé e razão sempre se mostrou protagonista de diversas discussões e obras, sobretudo por trazer consigo o problema dos limites de uma e outra. Na filosofia da Idade Média, esse tema acabou ficando sublinhado, uma vez que diante da influência do cristianismo foram desenvolvidos temas complexos e que por muitas vezes desafiavam a razão. Como falar, por exemplo, de Deus se valendo apenas da razão? Eram com perguntas como essa que os filósofos dessa época se deparavam cotidianamente.

1 Método Anselmiano

No que diz respeito ao método usado por Anselmo para apoiar sua argumentação, vemos no prólogo do Monológio qual é o caminho usado pelo autor. Ele afirma que escreve a pedido dos seus irmãos de hábito que desejam ter por escrito aquilo que Anselmo já os havia dito em conversas informais acerca da essência divina. Contudo, os monges formulam o método que deve ser usado.

O método seguinte: sem, absolutamente, recorrer, em nada, à autoridade das Sagradas Escrituras, tudo aquilo que fosse exposto ficasse demonstrado pelo encadeamento lógico da razão, empregando argumentos simples, com um estilo acessível, para que se tornasse evidente pela própria clareza da verdade. (ANSELMO, 1973,p.11)

Com isso, percebemos o enorme esforço que Anselmo se propõe a realizar em suas obras. Ele precisa selecionar e organizar argumentos convincentes que consigam comprovar a racionalidade da fé, mas ao mesmo tempo, esses argumentos não podem contradizer as Sagradas Escrituras. Justamente por isso, Anselmo busca uma conciliação, um equilíbrio entre a fé e razão. Contudo, nesse esforço por apresentar argumentos que sejam aceitos pela razão, Anselmo não perde de vista a fé, ao contrário, “o ponto de partida intelectual arranca sempre da fé, porém apela para a razão para descobrir nela o significado oculto.” (STREFLING, 1993,p.31)

Já no início do Proslógio, Anselmo acena para uma outra possibilidade. Ele próprio afirma que sua primeira obra (Monológio) se tornara de difícil compreensão, muito em virtude da grande quantidade de argumentos que se desenvolvem no interior da obra. Diante dessa realidade, Anselmo passa a se questionar “se não seria possível encontrar um único argumento que, válido em si e por si, sem nenhum outro, permitisse demonstrar que Deus existe verdadeiramente” (ANSELMO,1973, p.103). É dessa maneira que nasce o Proslógio, que traz consigo o famoso Argumento Ontológico, que até hoje é discutido por diversos filósofos. Esse argumento buscava ser, segundo Anselmo (1973,p.103), “um argumento suficiente, em suma, para fornecer provas adequadas sobre aquilo que cremos acerca da substância divina.”

2 O “Monológio”

O Monológio é a primeira obra sistemática de Anselmo de Cantuária. Nessa obra, como supracitado, Anselmo, fazendo uso do procedimento sola ratione, quer apresentar o conteúdo da fé de forma racional. Segundo Tomatis (2003,p.11) “no Monologion Anselmo […] quer tornar racionalmente aceitáveis as verdades e as razões da fé e da revelação.”

O próprio Anselmo mostra que apresentar o conteúdo da fé de forma racional, pode contribuir para aquele que não crê nas verdades da fé, simplesmente pela fé, mas pode conseguir crer a partir desse esforço racional.

Se houvesse alguém que, pelo fato de nunca ter ouvido falar nisso ou por não acreditar, ignorasse existir uma natureza superior […] penso que tal pessoa, embora de inteligência medíocre, possa chegar a convencer-se, ao menos em grande parte, dessas coisas, usando apenas a razão. (ANSELMO, 1973,p. 13)

Com isso, nota-se que Anselmo, empreende uma busca pela ratio fidei, mas entendida aqui como “a busca da razão da fé não enquanto fé subjetiva, mas entendida objetivamente como fé.” (TOMATIS, 2003, p.11)

No que se refere à estrutura, pode-se perceber no Monológio três momentos, todas em intima sintonia uma com a outra, de modo que “estes momentos não podem, em absoluto, ser compreendidos independentemente uns dos outros.” ( VASCONCELLOS,2005, p. 65) Essa divisão, porém não é proposta pelo autor, que divide sua obra em capítulos, tal divisão é proposta por comentadores de Anselmo, como Vasconcellos (2005,p.65) que diz:

Nos capítulos iniciais, mostra a essência soberana (Deus) por si, apresentando suas propriedades. Depois, na maior parte da obra, fala da estrutura trinitária do ser. Encaminhando-se para o final de seu texto, trata do espírito humano, o qual é imagem do espírito divino.

2.1 As provas da existência de Deus

No Monológio, Anselmo apresenta três provas da existência de Deus, partindo das criaturas para chegar à afirmação da existência do Criador. Como se propôs já no prólogo do Monológio, Anselmo apresenta também essas três provas também se valendo da razão. Na primeira prova, Anselmo argumenta a partir dos bens particulares. A existência de bens particulares e em graus variados atesta a existência de Deus, pois para que esses bens particulares existam é preciso que possuam um principio comum de bondade e esse principio deve necessariamente ser maior que os bens particulares.

A segunda prova se aproxima muita da primeira, porém Anselmo deixa de falar de atributos como a bondade para falar da totalidade das coisas, que é o próprio ser.. Para Anselmo tudo o que existe deriva de um princípio anterior, pois é impossível algo derivar do nada. Com esta prova, Anselmo busca encontrar o princípio de todas as coisas e para ele, esse princípio superior é Deus.

Na terceira prova, Anselmo aponta para os graus de perfeição das coisas. Ele admite que no universo há uma hierarquia onde por exemplo o cavalo é superior a árvore e o homem superior ao cavalo. Nesse sentido, é preciso aceitar que nessa hierarquia exista um ser que seja superior a todos os outros e em Anselmo, esse ser superior é Deus.
Todas essas provas apresentadas por Anselmo devem ser consideradas como a posteriori pois partem das criaturas até chegarem a existência de Deus.

3 O “Proslógio”

O Proslógio, obra na qual se encontra o famoso Argumento Ontológico Anselmiano, foi escrita pouco tempo depois da conclusão do Monológio. Após a conclusão de sua primeira obra, Anselmo percebe que ela havia ficado um pouco confusa em virtude dos muitos argumentos e decide escrever outra obra em que um único argumento pudesse mostrar aquilo que Anselmo procura afirmar. Esse argumento procurado por Anselmo deve ser “muito sólido, que não precise se apoiar em qualquer realidade externa que seja ou em multiplicidade de argumentos, mas evidente na pura interioridade do homem.” (TOMATIS, 2003, p.11)

Outra distinção importante entre o Monológio e o Proslógio é que enquanto no primeiro Anselmo busca a razão da fé, no segundo ele busca encontrar um caminho que conduza a própria fé a se esforçar a encontrar a luz da razão.

No Proslogion ele […] não deseja encontrar apenas a ratio fidei, […] mas quer que seja a própria fé […]na relação direta com Deus realizada pelo intelecto, a procurar uma luz de tal forma transparente e pura que ilumine sem desvanecer a profundidade do colóquio do crente com Deus. (TOMATIS, 2003, p. 11)

Outra novidade do Proslógio em relação ao Monológio é a forma da argumentação. Enquanto no Monológio as provas da existência de Deus são provas a posteriori, no Proslógio o Argumento Ontológico visa ser uma prova a priori da existência de Deus.

No que diz respeito à estrutura, no Proslógio toda a argumentação gira em torno do Argumento Ontológico. Há por parte dos comentadores uma divisão dos capítulos da obra, mas aqui não nos deteremos sobre isso, uma vez que toda obra é concorde em apontar para o Argumento Ontológico.

3.1 O Argumento Ontológico
Já no início do Proslógio, lemos que Deus é o “ser do qual não se pode pensar nada maior.” (ANSELMO 1973, p.108) É justamente acerca desse Deus do qual não se pode pensar nada maior que Anselmo quer tratar em seu Argumento Ontológico e provar via razão sua existência. O Argumento Ontológico assume grande relevo no pensamento de Anselmo, por ser considerado por muitos como a maior contribuição desse pensador para a filosofia, além de que esse argumento é retomado por diversos pensadores ao longo da filosofia. Nosso trabalho aqui, não será o de analisar o argumento a partir da lógica, mas apenas apresentá-lo como mais um dos esforços de Anselmo na conciliação entre fé e razão.

Nos capítulos II e III do Proslógio é possível perceber a essência do Argumento Ontológico. Anselmo busca mostrar que Deus não pode existir somente na inteligência, mas também na realidade. De forma sintética, assim encontramos o Argumento Ontológico de Anselmo no Proslógio

Se, portanto, “o ser do qual não é possível pensar nada maior” existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente é absurdo. […] Com efeito, pode-se pensar na existência de um ser que não admite ser pensado como não existente. Ora, aquilo que não pode ser pensado como não existente, sem dúvida, é maior que aquilo que pode ser pensado como não existente. Por isso, “o ser do qual não é possível pensar nada maior”, não seria “o ser do qual não é possível pensar nada maior”, o que ilógico. Existe, portanto, verdadeiramente “o ser do qual não é possível pensar nada maior”; e existe de tal forma, que nem sequer é admitido pensá-lo como não existente. E esse ser, ó Senhor, nosso Deus, és tu. (ANSELMO, 1973, p. 108-109)

Com isso, percebe-se que também no Argumento Ontológico Anselmo cumpre aquilo que propôs quando estipulou seu método. De forma racional, conduz o argumento até tornar aceitável algo do campo da fé.

4 Considerações finais

Com isso, nota-se a conciliação entre fé e razão proposta por Anselmo. Todo esforço de Anselmo, passa pela via de uma argumentação racional que fale sobre assuntos da fé. Ele não vê uma relação antagônica entre fé e razão, ao contrário, ele busca uma harmonia, um equilíbrio entre essas. Partindo sempre da fé, Anselmo consegue significativos resultados, para mostrar àqueles que ainda não são crentes, matérias próprias do conteúdo da fé. Talvez seja por esse enorme esforço, e mais que esforço, pelo sucesso em conciliar fé e razão que Anselmo seja até hoje lembrado na história da filosofia. Com suas provas da existência de Deus no Monológio e com o Argumento Ontológico no Proslógio, Anselmo pode entrar para o seleto grupo dos que conseguiram conciliar de modo harmônico fé e razão.

Referências
ANSELMO, Santo. Monológio. Proslógio. Verdade. O gramático. Tradução Angelo Ricci. São Paulo: Abril Cultural, 1973. . (Os pensadores).
STREFLING, Sérgio Ricardo. O argumento ontológico de Santo Anselmo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1993. 103p.
TOMATIS, Francisco. O argumento ontológico: A existência de Deus de Anselmo a Schelling. Tradução Sérgio José Schirato. São Paulo: Paulus, 2003.105p.
VASCONCELOS, Manoel Luiz Cardoso. Fides ratio auctoritas: o esforço dialético no Monológion. As relações entre fé, razão e autoridade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005. 264p

NOTAS:
¹ Graduando em filosofia na FAM

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