Carlos Geovane Nunes Magri *

Resumo: O conceito de profecia é bastante caro tanto à tradição grega quanto à tradição judaica. O presente artigo visa analisar a profecia na tradição judaica segundo a concepção de Maimônides –  filósofo judeu que melhor analisou tal questão, desenvolvendo-a dentro de sua obra de maior importância: o “Guia dos Perplexos” – fundamentando-se diretamente em tal autor, apenas realizando algumas alusões à obra de José Luis Sicre, doutor em Sagrada Escritura e exegeta do Antigo Testamento, e assim perceber se há alguma relação entre a concepção desta tradição e da tradição helênica; isto, sobre três pontos bem direcionados: a figura do profeta; a profecia em si; e o caráter do destino assumido nas duas. A estrutura deste artigo se dará em: a. Uma análise da profecia e do profeta na Cultura Grega; b. Uma análise da profecia e da figura do profeta na Cultura Judaica segundo a filosofia de Moisés Maimônides; c. Uma comparação entre a profecia nas culturas grega e judaica.

Palavras chaves: Profetismo. Profecia. Profeta. Cultura Grega. Tradição Judaica.

 

INTRODUÇÃO

 

A influência exercida pela cultura grega dentro do pensamento ocidental é inegável: o modo de se pensar e raciocinar, bem como alguns conceitos definidos da tradição grega permaneceram vivos até os dias atuais. Porém, outra tradição que também exerce grande influência na cultura ocidental – especialmente no Cristianismo, que por sua vez influenciou diretamente a constituição da racionalidade ocidental – e que muitas vezes não é assim identificada, deixando de ser até mesmo analisada, é a judaica. Com seu modo de pensar e compreender a realidade à luz das Sagradas Escrituras, tal tradição criou conceitos e formulações também presentes até hoje.

Um destes conceitos que abas as tradições trabalharam e que está como que cristalizado na mentalidade contemporânea é o de profecia. Muito se diz a respeito da questão da profecia – seja compreendendo o profeta como um adivinho que prevê o futuro, seja compreendendo-o em sua literalidade, como aquele que fala em nome de outrem – por isso, o presente artigo objetiva precisar em que sentido e extensão o conceito de profecia é utilizado dentro das duas tradições, e perceber se há um distanciamento ou uma aproximação entre estes dois conceitos.

Para que tal objetivo seja alcançado, serão analisados três pontos que se constituem como fundantes de uma profecia em si: a figura do profeta; a profecia, propriamente dita, enquanto palavra revelada; e a questão do destino enquanto que cumprimento inalterável ou não da profecia. Cada um destes pontos será analisado separadamente dentro de cada tradição, usando-se por embasamento, no caso da tradição grega, entre outros, textos de autores já consagrados no estudo de tal cultura – como Detienne e Vernant – e textos de autores trágicos clássicos, como Sófocles; e no caso da tradição judaica, exclusivamente a figura ícone de Moisés Maimônides, fazendo-se uso, porém, para um maior embasamento teórico, da Bíblia e de obras do exegeta bíblico José Luis Sicre.

Por fim, após a análise individual dos conceitos, realizar-se-á uma comparação entre a concepção de profecia na cultura judaica e na cultura grega a partir dos pontos analisados separadamente, notando-se as diferenças ou as aproximações entre as duas visões de profecia. Faz-se necessário ressaltar que ambas as tradições estão inseridas em períodos históricos distintos e em diferentes realidades socioculturais, assim, o objetivo único deste artigo é realizar esta breve comparação entre um específico conceito: a profecia; não buscando outros objetivos, como a implicação do conceito de profecia dentro de cada cultura.

 

1 PROFECIA NA TRADIÇÃO GREGA

 

Na cultura grega, a palavra oral possuía um enorme destaque dentro da sociedade. Como mantenedora da ordem, a palavra dita exercia, de fato, um poder de soberania sobre os ouvintes – a palavra possuía um teor de verdade: as relações sociais, o funcionamento da polis, tudo era regido pela palavra.

O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. Torna-se o instrumento político por excelência, a chave de toda a autoridade no Estado, o meio de comando e de domínios sobre outrem. Esse poder da palavra – de que os gregos farão uma divindade: Peithó, a força da persuasão – lembra a eficácia das palavras e das fórmulas em certos rituais religiosos, ou o valor atribuído aos “ditos” do rei quando pronuncia soberanamente a themis. (VERNANT, 2002, p. 54).

Com isso, percebe-se a importância da palavra e sua predominância no sistema da polis grega. Todavia, não era qualquer palavra dita que possuía tal grau de importância, muito menos o exercício da palavra era concedido a todos. A palavra, com seu caráter transcendental, para exercer o seu poder, era revelada a algumas poucas figuras dentro da cultura grega: os mestres desta palavra; então, os mestres da verdade assim chamados por Marcel Detienne. São eles: o poeta, o adivinho e o rei. Dente estas três figuras assim denominadas no período helênico, uma das mais emblemáticas e instigantes certamente é a do adivinho.

Como dito, devido ao seu caráter transcendental, a palavra com força de ordenamento provinha dos deuses. Para que atingisse às pessoas, era necessária uma figura para que, inspirada, acolhesse essa palavra e a transmitisse: o adivinho (compreendido como aquele que fala em nome de alguém, então denominado profeta). Daí então a importância da profecia na tradição grega: repassar aos homens, a vontade dos deuses e os desígnios para a vida.

 

1.1 O profeta grego

 

O primeiro passo a ser dado é compreender como se concebe na cultura grega a figura do profeta. Como um dos mestres da verdade, sabe-se que dentro do ambiente social, o adivinho era um ícone que gozava de respeito e atenção. Seu caráter emblemático e misterioso certamente ressalta aos olhares; e com razão: “o mantis, apanhado nas suas mais altas figuras, tais como Cassandra ou Tirésias, é muito mais um mágico ou um maléfico: é um Vidente, um autêntico inspirado” (ZARADER, 1990, p.71).

Assim, compreende-se o primeiro ponto do profeta grego: não é simplesmente um anunciador de algo. A atenção é colocada sobre a visão, sobre a inspiração. A palavra dos deuses é importante, mas o que mais atrai a atenção para o profeta grego é a sua real inspiração: é o fato de ser um inspirado que o torna algo além dos demais. Essa inspiração do profeta grego é como que estar colado à esfera do sagrado. Ele (o profeta), inspirado pelo deus, recebe a mensagem e é responsável de transmiti-la aos homens.

Esses personagens são mediadores entre a esfera do sagrado – deuses e heróis que habitam o tempo forte das origens – e a esfera profana, humana, da coletividade. Os homens recebem esses relatos e re-efetuam a ordenação do kósmos e de suas vidas, assim como aprendem o que fazer e como fazer as coisas na vida social. (MARQUES, 1994, p.3).

É por esta inspiração que o profeta recebe tanto crédito. Aqui, faz-se importante ressaltar que o destaque não está na palavra a ser transmitida em si, mas sim na visão e na inspiração: assim, diretamente na figura do profeta. O profeta é um inspirado, mas é alguém valoroso, alguém louvável, destacável. Seja qualquer um o modo de seu contato para com os deuses (sonho, revelação, visão), o profeta grego sempre será inspirado: a sua palavra será a da predicação.

Quando pronuncia seus oráculos no santuário de Delfos, Apolo não fala tanto por si mesmo quanto em nome do seu pai, a quem permanece associado e como que submetido em sua função oracular. Apolo é profeta, mas profeta de Zeus; faz apenas dar uma voz à vontade do olimpiano, aos seus decretos, a fim de que, no umbigo do mundo, a palavra do Rei e do Pai ressoe aos ouvidos de quem a souber escutar. (VERNANT, 2006, p. 36).

 

Apolo é um claro exemplo disto. Mesmo sendo um deus da cultura grega, ele não fala por si apenas, fala inspirado pelo grande deus Zeus. O profeta grego é quem realmente é, primeiro por receber a inspiração dos deuses. Expressivamente, o profeta grego é aquela pessoa inspirada que está em contato com o mundo dos deuses e dos espíritos e que, como sábio, se dirige para sua comunidade como fonte de sabedoria prática e espiritual (CORNFORD[1] apud MARQUES, 1994, p. 3).

 

1.2 A profecia

 

Compreendida a figura do profeta grego, agora deve-se atentar para a própria profecia em si. Compreender o teor que esta assume dentro da cultura grega, evidentemente, é mister para se compreender o profetismo grego.

Para se compreender o teor de verdade que a profecia assume dentro da cultura grega, basta um trecho da tragédia “Antígona” de Sófocles (2005, p. 61-62), no qual aparece a figura ímpar de Tirésias, um dos maiores ícones do profetismo grego. Em um diálogo entre o adivinho Tirésias e o rei Creonte, é possível perceber o pensamento incrustado na mentalidade grega acerca da eficácia e da validade das palavras proferidas por um profeta:

Creonte – Que novas me trazes, velho Tirésias?

Tirésias – Vou anunciá-las… Não deixes de crer em meus oráculos.

Creonte – Até agora tenho observado teus conselhos.

Tirésias – Graças a isso, conseguiste encaminhar esta cidade por uma rota segura.

Creonte – E posso assegurar-te que deles muito me tenho valido.

Como atesta o rei Creonte, para os gregos, a palavra de um profeta era completamente crível, digna de atenção. Assim tanto era que, para tomarem importantes decisões, os gregos antes consultavam oráculos. Um ponto marcante do profetismo grego é a eficácia da palavra do profeta. É devido a ela (palavra do profeta) que a cidade prossegue num bom caminho; é graças a observância dos oráculos do profeta pelo rei que o caminho a ser seguido é seguro e beato.

Corifeu – O ancião lá se foi, ó príncipe, depois de te haver predito coisas tremendas! Ora, desde que existem na minha cabeça estes cabelos, que de negros se tornaram alvos, não sei de aviso por ele feito, que não haja sido em absoluto verdadeiro. (SÓFOCLES, 2005, p. 67).

Tal fala de Corifeu, após a saída do adivinho, atesta o grau de verdade que ela assume. É afirmado que tudo o que o profeta diz, de fato, foi verdadeiro; ou seja, em verdade aconteceu.

Esta é uma verdade revelada para o povo, que acredita e que deve acreditar, já que creem ser a palavra do profeta de cunho divino. Contudo, além de anunciar a verdade, a profecia grega possui uma outra característica intrínseca em seu cerne: a ambiguidade de sua valência. O que os oráculos dizem é verdade, todavia não manifestado do modo mais claro possível. O profeta grego, para os homens, é sempre verdadeiro em suas profecias, todavia, deve-se lembrar que ele depende da vontade dos deuses para anunciar algo:

Os deuses conhecem a “Verdade”, mas sabem também enganar pelas aparências e pelas palavras. Suas aparências são armadilhas para os homens, suas palavras são sempre enigmáticas, pois escondem tanto quanto revelam: o oráculo “mostra-se através de um véu, assim como uma jovem desposada”. A ambiguidade do mundo divino corresponde à dualidade do humano. Existem homens […] que sabem entender o sentido oculto das palavras, e depois estão todos os outros que se deixaram levar pelo disfarce, que caem na armadilha do enigma. (DETIENNE, 1988, p. 42).

Não é questionável o grau de verdade da palavra do profeta, todavia, o modo com o qual este enuncia suas palavras pode ser enigmático e até mesmo enganador. Disto, é possível depreender que possuir a verdade é também ser capaz de enganar: o que faz do profeta grego um mestre da verdade, também o faz um mestre do engano (DETIENNE, 1988, p. 43). A falta clareza é uma das maiores marcas da profecia grega: palavras enigmáticas, vagas, confusas e até aparentemente contraditórias inundam o cenário dos oráculos da cultura grega, levando, muitas vezes, mesmo se acreditando serem as palavras do profeta verdadeiras, a questionamentos como: “verdade até que ponto?”

 

1.3 A questão do destino

 

Por fim, outro ponto a se analisar dentro da tradição grega no que se refere a profetismo reside na questão do destino: sua imutabilidade e sua infalibilidade.

A palavra do adivinho e das potências oraculares, tanto quanto o verbo poético, delimita um plano de realidade: quando Apolo profetiza, ele “realiza”. […] A palavra oracular não é o reflexo de um acontecimento pré-formado, é um dos elementos de sua realização. (DETIENNE, 1988, p. 35).

Após se ter notado a eficácia enquanto verdade da palavra do profeta, analisa-se agora sua eficácia enquanto realização plena do destino previsto. Com isto, nota-se que a profecia grega acontece, de fato. Ela realiza, ela acontece queira o alvo de sua previsão ou não. E um dos melhores exemplos para lidar com a questão do destino na cultura grega certamente está figura singular de Édipo, que, para fugir de seu destino, cumpre-o plenamente.

No decorrer da ação de Édipo, o oráculo fala três vezes: primeiro para Laio, depois para seu filho e finalmente para Creonte, que é incumbido por Édipo de consultá-lo. Por três vezes o oráculo faz do saber divino um saber humano, e com isso dirige por três vezes a ação dos homens, fazendo com que eles próprios levem a cabo o que lhes fora imposto. (SZONDI, 2004, p. 89-90, grifo nosso).

Como outrora afirmado, a tragédia representa um pensamento já intrínseco à mentalidade grega da época. O destino revelado pelos oráculos não vem a ser uma opção; ele ocorrerá, seja agradável a aquele que o escuta ou não. No caso de Édipo, por exemplo, o destino ocorreria a Laio e a Édipo; o oráculo, quer fale ou não, não irá influenciar em nada sobre os acontecimentos. O que o profeta diz, neste caso, não é para prevenir ou advertir.

Assim, nos três destinos que compõem ao mesmo tempo um só destino, os oráculos marcam uma gradação trágica, em que os elementos antagônicos ficam cada vez mais ligados, a duplicidade sendo reduzida à unidade de modo cada vez mais inexorável: Laio foge de seu assassino pelo caminho que o leva ao encontro dele – o jovem Édipo tenta escapar do ato mortal anunciado e comete esse ato em sua fuga – o rei Édipo busca os assassinos de Laio, temendo que eles se tornem seus assassinos, e encontra a si mesmo. (SZONDI, 2004, p. 94).

Fugir de seu destino, na tragédia grega e, assim, na cultura grega, é levá-lo a sua plena realização, ao seu cumprimento: não há como escapar, como evitar, apenas esperar e aceitar.

 

2 PROFECIA NA TRADIÇÃO JUDAICA

 

Dentro da tradição judaica, é impossível falar de profecia de modo desvinculado das Sagradas Escrituras e das personagens bíblicas. Neste contexto bíblico, a verdade a ser revelada é a Palavra de Deus, revelada ao seu povo por meio de um profeta. A verdade revelada – os ensinamentos de Deus – está contida nos cinco primeiros livros da Bíblia (Gênesis, Êxodo, Levítico, Deuteronômio e Números), conhecida pelos judeus por Torá. Além de revelar a verdade ao povo, como foi o caso de Moisés, muitos profetas bíblicos têm por missão reconduzir o povo de Deus ao pleno cumprimento de sua lei, contida na Torá.

A profecia, assim, constitui-se como uma das questões mais importantes da cultura judaica, pois é o meio pelo qual Deus se comunica com a humanidade e transmite suas vontades, ensinamentos e suas leis a serem cumpridas. A Palavra de Deus foi recebida, transmitida e está acessível a todos, possível de ser assimilada por aqueles que desejarem e passada para as gerações posteriores – tudo graças aos profetas.

Moisés Maimônides deu grande atenção a questão da profecia em sua filosofia, a ponto de dedicar oito capítulos de sua obra de maior destaque para tratar essa questão. Esta obra, a qual servirá de base para a reflexão seguinte, é o “Guia dos Perplexos”, uma obra que incide tanto sobre a filosofia quanto sobre a teologia, não sendo uma obra puramente filosófica.

 

2.1 O profeta judeu

 

Na perspectiva da profecia judaica, o primeiro passo a ser dado está em compreender a figura do profeta dentro desta tradição. Numa concepção popular, o profeta é aquele que tem por função prever o futuro, que pré-diz, simplesmente um adivinho; uma posição, certamente, em dissonância com a maioria dos teólogos judeus, incluindo Maimônides. (HADDAD, 2003, p. 83).

Para a tradição judaica, o profeta não é qualquer um. Em sua sublime concepção, Maimônides (2003, p. 195-196, grifo nosso) apresenta as três possíveis opiniões acerca da figura do profeta:

Primeira Opinião: É pertinente àquelas pessoas pagãs que admitem a Profecia, o que coincide com a de certos setores dentro do povo de nossa religião. Deus (Exaltado Seja!), dizem, elege a quem lhe agrada entre os homens, faz dele Profeta e lhe confere uma missão. Não há diferença, segundo eles, se este é sábio ou ignorante, velho ou jovem. Todavia, é condição que seja homem de bem e de bons costumes, pois ninguém até agora afirmou, que Deus tenha outorgado o dom profético a um homem perverso, a menos que, antes, o tenha transformado em um homem bom.

Segunda Opinião: E a dos filósofos. A Profecia implica certa perfeição na natureza da pessoa, mas nenhum homem pode alcançá-la senão por meio do estudo, transformando em ato o que está em potência, salvo apareça um obstáculo proveniente do temperamento ou de alguma causa exterior — como ocorre em toda perfeição possível em determinada espécie, mas não de maneira uniforme para todos os indivíduos desta espécie, até sua conclusão e último grau.

Terceira Opinião: Pertence à Nossa Lei e é fundamento de nossa religião. É idêntica à opinião filosófica, exceto em um ponto: nós acreditamos que o indivíduo, ainda que seja apto e tenha se preparado para a Profecia, pode, todavia, não chegar a ser Profeta, pois isso depende da Vontade Divina.

Estas três opiniões se fazem importantes, pois é a partir delas que é possível se conceber a real imagem do profeta da tradição judaica. A primeira opinião apresentada representa uma visão popular: o profeta pode ser qualquer pessoa, independente de quaisquer características suas – sejam elas físicas, morais ou intelectuais. O único critério para que exista um profeta é ele ser chamado por Deus; além disso, o profeta não necessita de mais nada para ser tal.

A segunda opinião apresentada refere-se a opinião dos filósofos árabes seguidores do pensamento aristotélico. Nesta perspectiva, a profecia, para ocorrer, exige muito estudo, visto que anteriormente foram cumpridas as qualificações físicas, morais e intelectuais. É permitido depreender, a partir desta segunda opinião, uma independência do profeta em relação a graça divina: não é mais uma questão de escolha, como na primeira opinião, mas sim é o esforço do próprio homem que o conduz ao alcance da revelação divina. É como que se conceber um Deus estático, que espera que algum homem (certamente, o homem virtuoso) venha até Ele para buscar uma revelação profética para transmiti-la aos demais: Deus não escolhe, não depende da vontade d’Ele.

A terceira opinião refere-se diretamente a opinião da tradição judaica e é seu fundamento. Nela, o profeta é como que a conjunção parcial entre as duas opiniões anteriores: além de retidão moral, perfeição física, boas condições intelectuais; ou seja, além do homem virtuoso, é necessária a vontade de Deus para que a profecia seja revelada a alguém.

Deus faz Profeta a quem e quando quer, contanto que seja um homem decididamente íntegro e sábio. Aos ignorantes, parece uma coisa tão impossível que Deus constitua algum deles profeta quanto seria para um asno ou para uma rã. Este é o nosso princípio: o treinamento e o aperfeiçoamento são indispensáveis, e somente aí se fundamenta a possibilidade, desde que venha unida à Vontade Divina.  (MAIMÔNIDES, 2003, p. 197).

Nesta concepção judaica de profecia, o profeta é aquele que atinge um certo conhecimento de Deus através de suas virtudes, mais ou menos aprofundado segundo sua posição na hierarquia dos profetas (HADDAD, 2003, p. 83). Além disso, com a conjunção das duas outras opiniões – em especial, a segunda que se embasa na teoria aristotélica – é possível também se conceber a profecia como sendo algo pertencente a todos os indivíduos, ao menos em potência – uma qualidade do homem.

O profeta, aqui, não é simplesmente um homem virtuoso que atinge sozinho a profecia divina, tampouco é simplesmente um inspirado; ele é o mediador de algo que não lhe pertence: a Palavra de Deus. Não é simplesmente por um exercício próprio que se alcança a profecia, mas acrescido a isto está também a vontade de Deus. O texto de Sicre (1995, p. 198) auxilia nesta reflexão, ao definir o profeta não como alguém que faz a profecia de per si, mas a faz por obra divina:

Quando fala ou escreve, o profeta não recorre a arquivos e documentos, como os historiadores; tampouco se baseia na experiência humana geral, como os sábios de Israel. Seu único ponto de apoio, sua força e sua fraqueza, é a palavra que o Senhor lhe comunica pessoalmente, quando quer, sem que ele se possa negar a proclamá-la. Palavra que às vezes se assemelha ao rugido de um leão (Am 1, 2), e em outras ocasiões é “gozo e alegria íntima” (Jr 15, 16). Palavra com frequência imprevista e imediata, mas que em momentos decisivos chega muito tarde (Jr 42, 1-7). Palavra dura e exigente em muitos casos, que se converte em “fogo ardente e devorador, encerrado nos ossos” (Jr 20, 9), que é preciso suportar e proclamar. Palavra de que muitos gostariam de fugir, como Jonas, mas que termina impondo-se e triunfando.

A partir disto, nota-se: a centralidade é a Palavra de Deus, não a figura do profeta, pelo modo como ele recebe a visão ou a inspiração. O profeta é o mediador, não é primeiramente aquele que recebe a inspiração divina ou o espírito de Deus – é aquele que empresta sua boca para, de fato, “falar em nome de”, aquele que formula uma palavra da qual não é o gerador. (ZARADER, 1990, p. 71). O profeta judeu é aquele que acolhe a revelação de Deus e manifesta a verdade – o intermediário: recebe algo que exige uma transmissão.

 

2.2 A profecia

 

Compreendida a figura do profeta, cabe agora analisar a questão da profecia em si. Primeiro, porém, se faz necessário compreender de que modo a profecia chega até o profeta. Quando, na tradição bíblica, se diz respeito a alguém que se comunicou com Deus ou com um anjo, tal comunicação se deu por meio de um sonho ou de uma visão profética. A profecia na tradição judaica está intimamente ligada ao sonho ou a visão. Sonho é compreendido em seu sentido ordinário, dispensando-se explicações; quanto a visão, esta é compreendida por um estado de agitação e terror que se apodera do profeta, no qual “os sentidos se paralisam e a emanação se derrama sobre a faculdade racional, e dela para a imaginativa, de tal maneira que esta se aperfeiçoa e entra em atividade” (MAIMÔNIDES, 2003, p. 231). À luz das Sagradas Escrituras, Moisés Maimônides desenvolve 4 modos de se receber a visão profética:

Primeiro Modo: Quando o Profeta afirma taxativamente que a palavra veio de um anjo em Sonho ou em Visão.

Segundo Modo: Quando o Profeta narra as palavras do anjo, sem esclarecer se foi um Sonho ou Visão, pois ele confia no que já é conhecido — só há Profecia por uma destas duas maneiras: “Em Visão Eu me revelarei a ele, e por Sonho Lhe falarei.” (Números 12:6).

Terceiro Modo: Sem se referir de modo algum a um anjo, o Profeta atribui a palavra a Deus (Exaltado Seja!) que teria se dirigido a ele em Pessoa, mas menciona que esta palavra veio a ele em Visão ou Sonho.

Quarto Modo: Quando o Profeta assegura simplesmente que Deus lhe falou ou lhe ordenou: Faça isto ou Diga isto, sem esclarecer se foi por mediação de um anjo ou de um sonho, fiando-se no conhecido e estabelecido: que nenhuma Profecia nem Revelação ocorre senão em Sonho ou Visão e por intermédio de um anjo. (MAIMÔNIDES, 2003, p. 232, grifo nosso).

A respeito disto, tudo é profecia, e quem a transmite, profetas. Mesmo que dentro do contexto bíblico, em muitos casos, não se especifique se foi sonho ou visão, se foi transmitida por anjo ou não; todas são profecias, pois se tem a certeza de que a mensagem foi transmitida por Deus através de um anjo, com exceção de Moisés: “qualquer Profeta, exceto Moshé Rabênu [Moisés], chegava-lhe a Profecia pelas mãos de um anjo. Saibam!” (MAIMÔNIDES, 2003, p. 204).

Dito isto, agora passa-se para a própria profecia em si. Dentro da cultura judaica, o que era dito pelos profetas tinha um teor de verdade absoluto, já que era a palavra do próprio Deus. Era a lei transmitida para conduzir e orientar a vida do povo de Deus nesta terra. Profecia, dentro da cultura judaica, é sinônimo de verdade e de lei, mesmo que pareça estranho se afirmar algo com tamanha garantia:

A segurança com que o profeta afirma “palavra de Deus”, “oráculo do Senhor”, incomoda o homem contemporâneo. Infere-se uma comunicação direta, quase física, entre o profeta e o Senhor. Mas, se evitarmos o literalismo, suas fórmulas expressam uma verdade profunda e bastante compreensível. […] O homem moderno poderá duvidar desta certeza do profeta. Dirá que tudo provém de seus desejos ou fantasias. O profeta, porém, sabe que não é assim, e age de acordo com sua convicção. (SICRE, 1994, p. 198).

A partir disto, compreende-se o porquê de a palavra do profeta – mesmo que para muitos seja considerada a verdade, lei e a palavra de Deus – pode, em muitos casos ser também rejeitada. Não se deve crer, de modo idealizado, que, só por ser dita palavra de Deus, a profecia será escutada por todos com admirável respeito.

A maioria das vezes, acontecerá ao profeta o que Deus diz a Ezequiel: “Acodem a ti em bando e o meu povo senta-se diante de ti; ouvem as tuas palavras, mas não as praticam (…). Tu és para eles como uma canção suave, bem cantada ao som de instrumentos de corda. Ouvem as tuas palavras, mas não as praticam” (Ez 33, 30-33). Este desprezo para com a palavra de Deus é uma das características mais enfatizadas pela tradição bíblica em Israel, o povo que não quer escutar a palavra do Senhor, seu Deus. (SICRE, 1996, p. 104).

Todavia, apesar de poder ser desprezada, deve-se lembrar que a palavra do profeta, dentro desta tradição, provém de Deus, e é por isso que não deve ser rejeitada. O próprio Deus comunicou que assim seria. Segundo Maimônides, o próprio Deus assim deseja:

Deus (Exaltado Seja!) preveniu ao povo de Israel que haveria, entre eles, um Profeta, a quem um anjo se manifestaria e lhe falaria, comunicando-lhe ordens e interdições. Assim, Deus nos proíbe de desobedecer a este anjo, cuja palavra nos transmitirá o Profeta, como se afirma em Deuteronômio 18:15: “A ele ouvirás”; e também: “A quem não escutar as palavras que ele dirá em Meu Nome (…)”. (MAIMÔNIDES, 2003, p. 203).

Assim, compreende-se que, como palavra de Deus, a profecia na tradição judaica é sempre a correta, é verdade sempre – mesmo que assuma diferentes caráteres, como a verdade aparecendo em visões tanto de condenação quanto de salvação; mesmo que não seja seguida, que seja desprezada por muitos.

E para que seja considerada como esta verdade de Deus, para que a lei transmitida seja seguida, a palavra deve ser compreendida pelos ouvintes. Não podem ser proferidos discursos complexos ou densos, vagos ou carregados de ambiguidades; o discurso do profeta deve ser claro e direto: deve transmitir a mensagem de Deus com a finalidade de ser cumprida. Para que a lei seja cumprida e para que o povo retorne à esta lei, o profeta deve falar de acordo com seu contexto, dentro da realidade local de um modo com que o que for dito seja compreendido.

A palavra do profeta bíblico, em diversos casos, pode parecer obscura, difícil e até indecifrável, todavia, deve-se levar em conta a distância temporal que separa tal palavra da contemporaneidade. Como dito, o profeta deve transmitir a palavra de modo claro, de acordo com a realidade; sendo assim, no contexto em que tal palavra foi proferida, eram outros os pressupostos históricos, econômicos, políticos e culturais que são, em parte, desconhecidos para o hoje, enquanto que, para os contemporâneos do profeta, não haviam dúvidas quanto ao que era dito – não havia uma possibilidade de revisão: a palavra de Deus era irrevogável, agradasse ou não (SICRE, 1996, p. 105).

 

2.3 A questão do destino

 

O próprio Maimônides não fez uma referência direta a tal tema em sua obra. Todavia, analisando-se minuciosamente tal autor, compreendendo sua influência e centralidade na palavra bíblica e analisando-se as figuras bíblicas proféticas usadas por ele em sua obra, é possível dar um passo além no profetismo judeu, e analisar também a questão do destino, compreendendo o modo com o qual tal conceito se relaciona com a profecia judaica e sua influência na vida desta cultura.

No que diz respeito a situação do destino no profetismo da tradição judaica, um primeiro passo a ser dado é analisar a visão profética de um ponto de vista temporal. Sicre (1996, p. 97), em sua obra afirma:

A visão pode referir-se ao futuro imediato, como a de Eliseu, quando diz que Deus lhe fez ver Hazael como rei da Síria e Benadad assassinado por este (2Rs 8, 10.13), e Jr 38, 21-23, onde o profeta contempla o que acontecerá em caso de o rei desobedecer. Também pode referir-se a futuro mais ou menos próximo (restauração de Jerusalém, etc.), ou a um futuro remoto, “aos últimos tempos” (a esplêndida visão da paz internacional em Is 2, 1-4).

Com isso, percebe-se que nem todas as profecias na cultura judaica se restringem a um mesmo espaço temporal: há diferenças quanto ao tempo a que as profecias se referem. Em alguns casos, a palavra do profeta pode aludir a um futuro; todavia, esta não é sua tarefa essencial – o profeta bíblico decifra o invisível do visível (ZARADER, 1990, p. 71). Não só prevê um futuro, mas também analisa a realidade e interpreta-a corretamente aos olhos de Deus: o profeta da tradição judaica é um hermeneuta (ZARADER, 1990, p. 71).

Compreendido isto, no que se refere à previsão do futuro a profecia da tradição bíblica vem como um alerta – pode ou não ocorrer. A palavra do profeta serve para orientar o povo e reconduzi-lo à lei; em muitos casos, é uma palavra de conversão que implica uma mudança de atitude, gerando consequências no destino. Nota-se aqui, um destino não inalterável, mas suscetível a mudanças. A profecia, na tradição judaica, serve em muitos casos de um alerta para uma possível situação. O caso de Ezequiel, por exemplo, representa o poder de mudança do destino que a palavra do profeta pode causar:

Filho do homem, eu te constituí atalaia para a casa de Israel. Quando ouvires uma palavra da minha boca, adverti-los-ás de minha parte. Se digo ao ímpio: “Tu morrerás” e tu não o advertires, se não lhe falares a fim de desviá-lo do seu caminho mau, para que viva, ele morrerá, mas o seu sangue, requerê-lo-ei da tua mão. Por outro lado, se tu advertires o ímpio, mas ele não se arrepender do seu caminho mau, morrerá na sua iniquidade, mas tu terás salvo a tua vida. (Ez 3, 17 – 20).

Deus dirige a palavra ao profeta a fim de que este possa advertir o povo sobre algo que está para acontecer. Assim, com a palavra transmitida, o futuro previsto ao povo pode ser alterado – no caso citado acima, o futuro do ímpio pode ser alterado se este se ater a palavra do profeta; se for afastado, pelas palavras do profeta, do caminho mau. A profecia, neste caso, não vem para revelar um destino inalterável, goste a pessoa ou não; ao contrário, ela vem para que a figura central a quem ela se refere tome consciência de que, se for de seu desejo (da pessoa a quem se refere a profecia), o destino previsto pode ser alterado. Como visto anteriormente, o fato da palavra do profeta poder ser rejeitada atesta claramente este ponto.

 

3 UMA COMPARAÇÃO ENTRE A PROFECIA NAS CULTURAS GREGA E JUDAICA

 

Sabe-se que, como distintas, as culturas grega e judaica possuem contextos históricos, geográficos e sociopolíticos completamente diferentes. O intuito de se realizar esta breve comparação é notar quais pontos se distinguem ou se aproximam em tais culturas num assunto muito caro às duas tradições: a profecia. Como visto, a figura do profeta e a própria profecia em si adquirem enorme importância dentro destas tradições como figuras reguladoras da ordem social e dos costumes e atitudes do povo. Além disso, tal comparação se faz interessante, pois, embora diferentes, as duas tradições exerceram e exercem até hoje grande influência no modo de pensar ocidental. Após se realizar uma breve análise de como as duas culturas concebem a figura do profeta, a profecia e o destino, resta agora analisar se estes pontos se distanciam ou se aproximam em ambas tradições.

Na tradição helênica, a figura do profeta assume uma importância enorme na esfera social, isto porque todo o enfoque e atenção são postos em sua visão e em sua inspiração. O profeta grego é um verdadeiro vidente, como que um mágico: sua figura é de tal modo destacável, que é reconhecido como um dos mestres da verdade na vida social. Toda a centralidade da figura do profeta está em ser este, um verdadeiro inspirado.

Em contrapartida, no profetismo judeu, toda a atenção, todo o enfoque não é colocado na visão do profeta, tampouco em sua inspiração, mas sim é na Palavra de Deus –

mais precisamente ainda, na função mediadora da palavra. […]. Isso quer dizer, que aquilo que define a sua essência específica, é a ordem da linguagem, e que dentro desta ordem, tem função de intermediário: receptor de uma palavra que exige a transmissão. Enquanto o profeta grego é antes um inspirado, e só é acessoriamente mediador de uma palavra, o seu intérprete (prophètès). (ZARADER, 1990, p. 71).

No que diz respeito a profecia realizada, a principal distinção entre ambas as tradições reside no quesito “clareza” da palavra revelada. Na tradição grega, a palavra revelada pelo profeta é verdade, tanto quanto na tradição judaica, todavia, o modo com o qual essa palavra é transmitida às pessoas não se dá do modo mais simples possível. A palavra do profeta grego é ambígua, obscura, enigmática e, de início, até mesmo contraditória. O que torna o profeta um mestre da verdade na Grécia antiga – a palavra do deus que ele acolhe e deve transmitir – é o mesmo que o torna um mestre do engano, ocasionando muitas vezes confusões e equívocos com sua palavra.

Por sua vez, na tradição semita, a palavra revelada, como palavra de Deus, é e deve obrigatoriamente ser clara, pois o povo deve compreender a mensagem transmitida pelo profeta a fim de cumprir a lei de Deus. Se a palavra vem com força de lei e é a verdade manifestada de Deus, não pode ser transmitida de modo complexo ou vago: deve ser clara e direta, tendo o profeta, até mesmo de adaptá-la ao contexto no qual está inserido.

[Este ponto da clareza] diferencia radicalmente o profetismo bíblico do profetismo grego. O oráculo de Delfos tinha uma vantagem enorme. Falava de modo tão ambíguo e obscuro, que cada um podia interpretar o que queria. Se fosse claro, e não agradasse, havia a possibilidade de pedir um novo oráculo, mais benévolo e otimista. Nada disso tem cabimento no caso da palavra de Deus aos profetas. […]. Para os contemporâneos do profeta, não havia dúvida quanto ao que ele dizia. (SICRE, 1996, p. 105).

Ainda sobre a palavra revelada, outro aspecto interessante de se analisar é que, dentro da perspectiva judaica de profecia, a palavra revelada por Deus pode ser desprezada. Não se deve crer inocentemente que aqueles que ouvem as palavras dos profetas as cumprem plenamente: eles possuem a liberdade de optar por aquilo que devem ou não fazer. Este é um detalhe que abre caminho para o último aspecto a se analisar entre as duas culturas: a questão do destino.

Dentro da mentalidade grega, o destino revelado pelos oráculos não é uma opção: ele ocorrerá, quer agrade ou não a quem ouvi-lo. Não há, nesta perspectiva grega, uma interferência da figura do profeta na vida das pessoas: se o profeta falar, nada poderá fazer aquele a quem diz respeito a profecia sobre o futuro, pois o que foi dito ocorrerá. Por isso, falar ou não o profeta nada mudará no destino das pessoas. Enquanto que, dentro da perspectiva judaica, aquilo que o profeta fala tem poder de transformação: a profecia não vem como algo inalterável, mas sim como um alerta, com o intuito de que quem acolhê-la possa buscar uma mudança e assim alterar seu destino previsto.

Enquanto o profeta bíblico prevê o futuro, este só é pre-visto para ser pre-venido. Inspiro-me aqui da oposição Cassandra-Isaías tal como é desenvolvida por A. Nether. Cassandra, quer fale ou não, não irá influir sobre os acontecimentos, ao passo que haverá ou não acontecimentos se Isaías falar ou se calar. […]. Assim, o profeta bíblico faz mais do que pertencer à história: é o seu fundador. É com ele que se inicia a histórias que toma sentido, é ele quem anuncia a esperança messiânica. (ZARADER, 1990, p. 71-72).

 

CONCLUSÃO

 

O conceito de profecia presente nas duas culturas já de início revela que o profeta não é aquele que simplesmente diz o futuro, que prediz algo; mas sim alguém diferente dos demais, alguém que, por alguma virtude – quer física, intelectual ou moral – se destaca dos demais e é escolhido para este múnus. Dentro das duas tradições, o profeta é alguém sábio, emissor de oráculos e que ensina a viver. Tal fato é importante, pois para abas as tradições a profecia possui uma enorme importância: é o modo com o qual a divindade se manifesta.

Nas duas culturas aqui abordadas, a figura do profeta, como transmissor de uma palavra que não é sua, que recebe de algum modo, seja por visões ou sonhos, é um inspirado. Todavia, dentro da tradição grega este é o ponto que mais chama a atenção: todo o enfoque é colocado no profeta em si, no modo como recebeu sua visão ou sua inspiração. Algo que não se percebe na tradição judaica, já que o enfoque é colocado na palavra revelada em si: o profeta é apenas um instrumento, um mediador – o sujeito de maior destaque é a palavra de Deus a se manifestar.

No que se refere a profecia enquanto palavra revelada, esta possui como diferença central entre as duas tradições a questão da clareza. A profecia grega é obscura, confusa e ambígua, enquanto que a profecia da tradição judaica é clara e objetiva, já que deve ser cumprida como força de lei. Além disso, a palavra revelada na tradição judaica pode ser rejeitada; há uma escolha do sujeito a quem ela se refere, o que conduz ao último ponto, a diferença da questão do destino. Enquanto que na tradição grega o destino é inalterável e ocorrerá de qualquer modo, quer seja profetizado ou não, na tradição judaica o destino pode ser mudado, pois a profecia vem como um alerta.

Diante disso, nota-se que ambas as tradições, apesar de lidarem de modo semelhante com um mesmo tema – o conceito geral da profecia enquanto palavra divina revelada que ensina a viver – abordam seus aspectos intrínsecos de modo diferente. A profecia na tradição judaica vem como uma forma de legislação que pode ou não ocorrer, ao passo que na tradição grega é uma revelação de um fato futuro que certamente ocorrerá. Assim sendo, percebe-se que a profecia, em ambas as tradições – apesar de suas diferenças – é um sustentáculo para o ordenamento social e união de culturas. A profecia é fruto do homem que se eleva a uma contemplação divina e tenta, de certa maneira, levar aquilo por ele contemplado a todos os outros.

 

REFERÊNCIAS

 

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2010.

DETIENNE, Marcel. Os mestres da verdade na Grécia arcaica. Tradução de Andréa Daher. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

HADDAD, Gérard. Maimônides. Tradução Guilherme João de Freitas Teixeira. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

MAIMÔNIDES, Moisés. O guia dos perplexos: Parte 2. Tradução de Uri Lam. São Paulo: Landy, 2003.

MARQUES, Marcelo P. Mito e Filosofia. In: ANDRADE, Mônica (Org.) Mito. Belo Horizonte: Núcleo de Filosofia Sonia Viegas, 1994.

SICRE, José Luis. Profetismo em Israel. O profeta. Os profetas. A mensagem. Tradução João Luís Baraúna. Petrópolis: Vozes, 1996.

______. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução de Wagner de Oliveira Brandão. Petrópolis: Vozes, 1995.

SÓFOCLES. Antígona. Tradução. J. B. de Mello e Souza. [S.l.: s.n.], 2005. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/antigone.pdf>. Acesso em 15 nov. 2016.

SZONDI, Peter. Ensaio sobre o trágico. Tradução de Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca. 12. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002.

______. Mito e religião na Grécia antiga. Tradução Joana Angélica D’ Ávila Melo. – São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.

ZARADER, Marlène. A dívida impensada: Heidegger e a Herança Hebraica. Tradução Sílvia Meneses. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.

 

* Graduando em Filosofia na FAM

 

[1] Principium Sapientiae – As Origens do Pensamento Filosófico Grego. Trad. M. M. R. Santos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981.

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