Moisés Galinari Tôrres

Pedro Henrique S. Martins

Introdução

Dentre as pertinentes reflexões ao longo da história da filosofia, uma delas, sem dúvidas, trata-se da reflexão ética, isto é, no modo como o homem se comporta dentro de uma determinada sociedade. Tais discussões perpassam todas as civilizações, e ao longo de toda a cronologia histórica, sofreram alterações e foram pensadas a partir de discussões filosóficas em diversos contextos. Muitos são os nomes que colaboraram para as discussões éticas, e não poderíamos deixar de citar as contribuições socráticas, aristotélicas, platônicas, bem como as reflexões da Patrística e da Escolástica, e é claro, todo o universo moderno e contemporâneo – em suas diversas facetas com as divergentes e ricas reflexões. Contudo, neste trabalho, faremos um corte cronológico nas reflexões de Immanuel Kant, sobretudo no que diz respeito à ética do dever e nas reflexões niilistas de Nietzsche, de estrita importância para assimilarmos sua crítica à metafísica tradicional e aos sistemas éticos heterônomos, bem como sua crítica à ética do dever proposta por Kant. Além do mais, não é de nosso interesse e nem está ao nosso alcance, apresentar todo o universo ético de Kant e Nietzsche, uma vez que reconhecemos a limitação desta pesquisa frente ao complexo arcabouço filosófico do pensamento destes dois importantes pilares da reflexão moderna e contemporânea dos últimos séculos.

O aufklärung kantiano e a valorização da razão

Ao fazermos alusão a Immanuel Kant, é impossível fazermos referência às suas reflexões desconsiderando o contexto em que se insere, e do mesmo modo, sem levar em consideração todo o movimento histórico das reflexões filosóficas. De antemão, é válido salientar que Kant se insere dentro do movimento iluminista, e que, a sua resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?, torna-se uma importante referência para adentrarmos na Era das Luzes, e do mesmo modo, entendermos brevemente a perspectiva kantiana de valorização do uso da razão.

Em 1783 o famoso jornal de Berlin Berlinische Monastschrift, apresentou a pergunta “Was ist Aufklärung?” – “O que a Ilustração?”, e dentre os vários comentários em resposta à questão, floresceu no germe da filosofia prussiana a resposta de Immanuel Kant. A resposta kantiana lança luzes à necessidade do homem moderno de buscar o esclarecimento, fruto de seu próprio mandamento: Sapere Aude, isto é, ouse saber! Nesse sentido, a exortação que Kant faz aos homens de seu contexto, remete à necessidade de uma emancipação do homem na perspectiva de fazer uso do próprio entendimento, como pode-se observar nas linhas introdutórias de sua resposta, discriminadas no fragmento abaixo:

Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer o uso de teu próprio entendimento, tal é o lema esclarecimento [Aufklärung] (KANT, 1985, p. 100).

Como se observa no fragmento acima, Immanuel Kant apresenta algumas importantes novidades neste movimento emancipatório que ele compreende como saída do homem da menoridade para a maioridade. A primeira consideração, é esclarecer que o homem “maior” é o homem que faz pleno uso do seu entendimento, sendo desse modo o homem esclarecido. Parágrafos depois, ainda em sua resposta à pergunta o que é o esclarecimento, Kant considera que apesar de nem todos os homens serem esclarecidos, esse tempo trata-se, contudo, da época oportuna para a emancipação, isto é, para a passagem da menoridade à maioridade. A segunda consideração é observarmos que a “culpa” do homem de sua menoridade é exclusivamente sua, e aqui, Kant rompe com essa responsabilidade dos tutores, apresentando o “homem menor” como culpado devido sua falta de coragem e covardia, e movidos por uma preguiça, sendo “causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituem tutores deles” (KANT, 1980, p. 100).

Agora, poderíamos nos perguntar: Qual a importância da Aufklärung para a assimilação da Ética do Dever kantiana? Para respondermos essa pergunta, tomaremos a consideração de que a própria proposta ética de Immanuel Kant possui a pretensão de romper com uma cosmovisão ética heterônoma, isto é, uma doutrina ética em que os hábitos, costumes e leis sejam impostos aos homens externamente, como fora observado em tempos antigos. Por consequência disso, chegamos à reflexão de que não somente no âmbito do entendimento, mas também no âmbito prático, o filósofo de Königsberg assimila a emancipação do homem também em seu agir prático, pois entendemos aqui toda a emancipação do homem, ou seja, do sujeito moderno.

Toda essa reflexão acerca do homem, o uso do seu entendimento e a sua condução prática da vida, são asseguradas dentro de um universo de reflexões modernas. Para a história da filosofia sabemos da importante contribuição de Descartes ao fundar o cógito, inaugurando de certa forma as reflexões acerca do sujeito moderno. Para chegar ao subjetivismo, Descartes apresenta um caminho permeado pela dúvida metódica a fim de buscar um conhecimento seguro acerca dos conhecimentos adquiridos, e diante de si, se encontra com a única certeza de que se o homem pensa, logo existe. Obviamente, embora não adentremos nesse movimento proposto por René Descartes, aqui assimilamos a res cogitans como a natureza pensante do homem, e “estamos diante da humanização radical do conhecimento, reconduzido à sua fonte primogênita” (REALE; ANTISERI, 2004, p. 294).  Tal universo inaugurado por Descartes será posteriormente assimilado por Kant e, obviamente, reformulado em suas reflexões acerca do que é o homem e como o homem pode conhecer, respondendo perguntas fundamentais na antropologia moderna. Em vista das exposições anteriores, embora compreendamos Kant dentro de um universo de valorização da razão, aqui pensando de modo particular no Iluminismo Alemão, sabemos que Kant não assume uma posição racionalista dogmática, uma vez em que o mesmo “leva a razão ao tribunal”. Contrapondo toda a perspectiva que abordava o entendimento humano como capaz de conhecer toda a realidade, as reflexões criticistas de Kant – que fugiam de todo o empirismo e racionalismo dogmáticos – propunham um limite quanto ao alcance da própria razão, além de fortalecer o sujeito moderno como o construtor da realidade, com a faculdade transcendental de organizar o mundo.

Para clarificar a exposição anterior, embora não seja o objetivo dessa discussão, apresentarei ainda que brevemente o criticismo, no qual Immanuel Kant, como comenta Pascal (1980, p. 32) tenta discernir àquilo que a razão consegue ou não fazer. Em suas abordagens acerca da possibilidade do conhecimento, encontramos a consideração de que o conhecimento é adquirido por meio da experiência e da razão, uma tentativa de conciliar as duas perspectivas, a empirista e a racionalista, e por isso classificando-o como criticista, que por sua vez, “examina todas as afirmações da razão humana e não aceita nada despreocupadamente” (HESSEN, 1987, p. 54). Outrossim, podemos concluir, que o uso do entendimento para o “homem maior” não se trata de um entendimento fundamentalista dogmático, caindo nos erros da posição empirista ou racionalista, mas um uso crítico da própria razão no âmbito do conhecimento, e como já afirmamos, também em sua perspectiva prática.

A passagem da heteronomia para a autonomia como determinação da razão

Uma vez que consideramos a Aufklärung e a emancipação do homem dentro do universo da modernidade filosófica a partir de Immanuel Kant, é válido continuarmos as discussões, agora, adentrando em sua perspectiva ética. Para tal análise, faremos o uso da obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes[1], delimitando algumas importantes considerações expostas pelo “filósofo do dever” em sua obra. Para início de conversa, ainda no universo de emancipação proposto na reflexão sobre a Aufklärung, faz-se necessário observar que o “homem servil”, isto é, o homem que vive na comodidade em “ser menor”, se deixa prender à preguiça e covardia o que favorece para que tutores “controlem” seu entendimento e suas ações. Essa servidão é exemplificada claramente em exemplos cotidianos, desde a orientação espiritual com o sacerdote à submissão das restrições alimentares estabelecidas pelo médico.

Em sua obra FMC, Immanuel Kant apresenta que o juízo para considerarmos uma ação como justa, isto é, como moralmente aceita ou não, deve ser o fundamento da boa vontade. Já na Primeira Seção de seus escritos lê-se que “nada é possível pensar que possa ser considerado como bom sem limitação a não ser uma só coisa: a boa vontade” (FMC, 1980, p. 109). E a boa vontade, para Kant não pode ser julgada sob seus efeitos, mas simplesmente por aquilo que ela é, ou seja, pela boa vontade ser “boa em si mesma”. De antemão, podemos ratificar que a moralidade kantiana deseja romper com toda a fundamentação moral que se fundamenta nas empirias, e aqui, há a tentativa kantiana de examinar as motivações internas do homem, e é por esse motivo que o filósofo apresenta suas reflexões pela ética do dever.

Mas, na construção de nosso raciocínio poderíamos nos interpelar: por que Kant associa sua reflexão ética ao dever?  Primeiro, é oportuno recordarmos que o homem é integrante da natureza, isto é, do mundo sensível – e por pertencer à natureza sofre interferência da realidade que o circunda. Entretanto, diferentemente dos animais, o homem é dotado de racionalidade, que o faz integrante de um mundo racional, inteligível, o que o permite formular leis para a sua auto legislação, fazendo que com o homem não seja determinado pela realidade empírica, sensível. E, nesse ponto, encontramos o cerne da reflexão ética de Kant, uma vez que as crenças morais “não devem se fundamentar no costume ou nas preferências subjetivas, nem mesmo nas ideias teleológicas, mas na racionalidade prática, tendo em vista que se trata de um critério intersubjetivo e impessoal, aplicável a qualquer agente” (CHAGAS, 2019, p. 126-127).

A motivação moral para a filosofia kantiana toma grande parte de sua atenção para as discussões acerca da moralidade, é o que pode ser observado nos exemplos introdutórios da FMC na distinção de uma ação contrária ao dever, uma ação conforme ao dever e uma ação por dever. Em tais discussões, encontra-se em jogo a motivação interior do homem em realizar a ação sem a interferência de inclinações internas que podem associar a boa vontade à algum efeito imediato ou futuro, pois como foi salientado anteriormente, a boa vontade deve ser pura em si mesma. Dessa forma, como constata Chagas (2019, p. 129) para o filósofo prussiano, o reconhecimento da lei moral, ou seja, a consciência do que deve ser feito não é satisfatório para uma razão pura prática, e é aí que encontramos o respeito à lei moral, colaborando para que haja uma consonância entre a vontade e a lei moral, uma vez que somente “um ser racional tem a capacidade de agir segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios, ou: só ele tem uma vontade” (FMC, 1980, p. 123).

Na tentativa de apresentar uma moral a priori marcada pela universalidade, isto é, sem a particularidade das inclinações naturais e concomitantemente da empiria, o filósofo de Königsberg expõe uma máxima referente ao imperativo categórico, como menciona: “age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal” (FMC, 1980, p. 129). Diante de tal mandamento, universal a todos os homens dotados de racionalidade, e não somente aos homens mas também para todos os seres racionais, Immanuel Kant acredita que o imperativo categórico pressupõe aos homens uma imparcialidade comportamental, pois “não nos é permitido abrir exceções para nós mesmos ou fazer o que racionalmente não permitiríamos aos outros” (GUYER, 2009, p. 390).

Após apresentarmos tais abordagens, conclui-se que nas discussões acerca de uma fundamentação para os costumes, inclusive, como é de interesse na FMC, Kant apresenta ao mundo moderno uma “lei moral” que ao mesmo tempo obriga a ação humana, quero dizer, acaba por corresponder como dispositivo que regula o comportamento humano, fruto da própria razão do sujeito emancipado. E aqui, podemos assimilar toda a compreensão introdutória acerca do esclarecimento em sua implicação não somente à ordem do conhecimento, mas também ao aspecto da razão prática humana.  Assim, os homens não compreendem tal lei moral como heterônoma a si mesmos, pois é interna ao próprio sujeito, sendo um produto dos próprios homens. Tal autonomia dos homens frente aos princípios morais recorda-nos uma maioridade do homem frente à sua própria legislação moral, rompendo com toda uma perspectiva ordenada heterônoma da moralidade, ou ainda de uma moralidade que torna o homem “servo”, incapaz de pensar e agir por si mesmo na vida prática.

O pensamento ético de Nietzsche

Friedrich Wilheim Nietzsche, critico que era usa seu “martelo” e propõe um repensar diametralmente singular, especialmente no que tange à moral. Sua percepção do mundo, da vida e da filosofia ocidental põe em questão o caminhar estável da razão soberana à vontade de vida expressa na criatividade livre na sociedade. Ora, a razão, com sua determinação e extrema ordem, resultaram numa espécie de castração que resulta na contraditória busca pelo nada. Ao nos lançarmos para um horizonte transcendente de vida superior da que temos presente, se nos embriagamos da ilusão de uma verdade absoluta e de uma liberdade que não aceita o fato da vida agora, nos implicou em fazer uma moral binária que transita entre bem e mal, certo e errado com suas duras punições se encerram no conflito do homem consigo mesmo a realidade por ele produzida. Se levantam diversas interrogações diante da falência de sentido a que nos submeteram a soberania exclusiva da razão transcendental e impediram que o homem se torne o que de fato é.

O filósofo alemão propõe uma reflexão axiológica ainda não vista que estabelece do vazio ético em que se encontrava a Europa de sua época e que se projetara no futuro. Arruinadas os fundamentos da moral sobre bases platônico-socrática assumida pelo cristianismo,  da liberdade, da metafísica e transcendental em que se apoiou a verdade, sobra ao homem o questionar-se a tarefa de refazer-se a partir de novos valores e sair da crise ética que desnudou a humanidade. Aqui se crítica ao dever-ser e ao imperativo atinge, frontalmente, a moral pensada por Kant, ou seja, liberdade, autonomia e dever foram levadas à condenação por Nietzsche porque se estabeleceram em ilusões. Danilo Bilate[2] comentando a obra de Osvaldo Giacoia Júnior, um dos maiores estudiosos de Nietzsche no Brasil, define o pensamento ético nietzscheano como uma “estilística da existência”. E prossegue: “É preciso libertar-se das amarras da ignorância e da opressão, assumindo a responsabilidade por si, com extrema valorização da capacidade de autodeterminação” (GIACOIA, 2013, p. 1). Para compreendê-la e colocá-la em um possível diálogo (seja para refutar, seja para a distinguir do que propôs Kant) consideremos os conceitos expressos na genealogia da moral, na transvaloração dos valores e no eterno retorno do mesmo.

A genealogia da moral

A partir dos estudos dos princípios que firmam a moral quais sejam expressas na religião, na moral, na filosofia, na ciência e na arte.  Como dito anteriormente, a soberania exclusiva da razão deve abrir espaço para os instintos que resultam numa coragem sobre a vida e dos quais se distinguem os senhores e os escravos em relação conflitiva e das quais nascem duas morais rivais. Acontece que de uma terceira casta, a dos sacerdotes, nasce a mobilização dos escravos contra os guerreiros, a classe dominante. Essa moral escrava inicia-se com o povo judeu e é assumida pelo cristianismo.

São três os pilares da moral em sua genealogia donde surgem bom e mau, culpa e má consciência e o ascetismo:

A psicologia do cristianismo; o nascimento do cristianismo do espírito do ressentimento e não, como se crê, do “espírito” […] uma rebelião contra o domínio dos valores “aristocráticos”. […] a psicologia da “consciência moral”, a qual não é, como se crê, “a voz de deus no homem, ela é o instinto de crueldade que se descarrega sobre si quando não pode descarregar-se para fora. […] o poder monstruoso do ideal ascético, do ideal sacerdotal que, apesar de ser um ideal nocivo por excelência, uma vontade de aniquilar-se, um ideal de decadência, […] não é movido por deus, mas porque ele é o único ideal até o presente, uma vez que não teve nenhum concorrente. “Pois o homem ainda prefere querer o nada, a não querer” (NIETZSCHE, Apud LEFRANC, 2005, p. 146-147).

Enquanto Kant parte da dialética da crença na alma, na liberdade e em Deus, Nietzsche parte do ateísmo, da necessidade, do imoralismo. Sua crítica sobre o valor dos valores exige uma retomada à origem e na história da vontade de poder. Com isso, afirma que  o homem é um ser instintivo e que os instintos nada mais são que os aspectos psicofisiológicos da vida que quer existir e que reprimi-la é um processo destrutivo contra a liberdade que não é poder fazer escolhas , mas uma escolha por viver a vida com toda a sua tragicidade e o seu devir.

O eterno retorno do mesmo e transvaloração dos valores

Dadas as raízes do vazio existencial, da contaminação pela ideia de transcendente e, em consequência, do vazio ético, Nietzsche traz à imanência que sempre se recria num movimento eterno. Quer dizer que depois da morte de Deus, para remédio do mal estar niilista tornando a vida não mais sob aspecto atemporal metafísica, mas movimentando-se como imanência pura com suas implicações éticas. Em A Gaia Ciência diz Nietzsche:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? (§341, p.201-202).

Amar a vida (amor fati) e amar a si mesmo estão no cerne da ética nietzscheana, que deve pautar os atos do ser humano para a necessidade de deixar-se guiar no princípio da existência no momento presente usufruindo dos instintos – que são verdadeiros – e da existência com todas as suas imprevisibilidades como um abraçar o destino que se desdobra ciclicamente sobre si mesmo. Para tal, se faz obrigatório transvalorar os valores vigentes de então. E onde reside a autonomia do indivíduo. 

Não há um outro sentido na vida, ela em si mesma já é o seu sentido. Portanto, não há que se lutar por afirmar-se guerreando contra si mesmo a partir dos juízos do bom e mau, ou seja, a partir de preconceitos morais.  A autonomia da pessoa se debruça no compreender que as contingencias da existência devem ser aceitas pelas pulsões que sempre nos lançam para a vida e que ao abraçá-la propositalmente se torna o que de fato se é.

A autonomia: aproximações e distanciamentos das perspectivas de Kant e Nietzsche 

Manter uma compreensão ética e seus projetos sobre máximas pretendentes à validade universal é questão em que o pensamento de Nietzsche se relaciona. A ética nietzscheana se estabelece sobre um agir a partir da própria existência e fidelidade a si mesmo contrariamente ao que propõe Kant. Osvaldo Giacoia Jr., mestre e doutor em filosofia pela PUC-SP, um dos maiores estudiosos de Nietzsche como dito anteriormente, a partir dos modelos éticos e suas bases, Kant em sua ética do dever definido por seu imperativo categórico universal e Nietzsche, em sua ética da vida, da existência, mas sem imperativo categórico e lei da razão determinando valorativamente a práxis, empreende a tarefa de relacioná-los ao que afirma sobre a autonomia nas duas linhas filosóficas:

De forma muito esquemática, pode-se afirmar que para Kant liberdade e autonomia da vontade são termos sinônimos; autonomia da vontade, por sua vez, identifica-se com autolegislação da razão, em sua função de determinar, por meio de valores e normas, a práxis humana nas sociedades e na história. Para Nietzsche, autonomia é um conceito que deve ser entendido em perspectiva histórica e genealógica: como um vir a ser da capacidade (ou poder) humano de autodeterminação, como uma formação tardia da consciência moral, fruto de um desenvolvimento que parte da pré-história do hominídeo pulsional até alcançar, com no domínio ético do animal político, a potência de responsabilizar-se por si e pelo futuro (GIOACOIA JR., 2013, p.1).

O esclarecimento e a crítica são elementos fundantes de ambos os pensadores. Estas atitudes, que em linhas gerais, se aproximam profundamente incidem sobre um processo emancipatório do indivíduo especialmente no que se refere à metafísica. Isto quer dizer, conforme Giacoia apesar do distanciar das propostas éticas, uma existência pautada pelo princípio da liberdade e fidelidade a si e da vontade que se expressa numa ação incondicionada.

Entretanto, Nietzsche paradoxalmente se utiliza do sistema crítico de Kant quando, no campo epistemológico, rejeita o conhecimento imparcial e objetivo da realidade que apreenda as suas estruturas ontológicas partindo das formas a priori da sensibilidade e do entendimento resultantes da crítica da razão pura. Se a linguagem e a própria consciência nascem da necessidade de preservação e são mesmo elementos de utilidade inicialmente citando Nietzsche em A Ciência Gaia (2006, §354, p 221). O seu desenvolvimento é dado nas impressões intuitivas obtidas das experiencias dos sentidos, corporal e fisiológicas.

Os homens criam metáforas para falar sobre o mundo e sobre si mesmos e que não correspondem de fato às coisas já são perspectivas convencionadas sobre as coisas. O ser humano no processo cognoscitivo faz interpretação e o faz por causa da força imaginativa da própria existência e da vida. Isto é, a noção de objetividade assume o significado e deslocamento de perspectivas. Nietzsche em Sobre verdade e mentira no sentido extramoral sobre este aspecto, diz:

As verdades são ilusões cuja origem está esquecida, metáforas que foram usadas e que perderam a sua força sensível, moedas nas quais se apagou a impressão e que desde agora não são mais consideradas como moedas de valor, mas como metal (NIETZSCHE, Apud, SANTOS, 2010, p.2).

Já no campo moral, segundo a perspectiva nietzscheana, esta não possui fundamentos absolutos. Em qualquer proposta moral sob uma pretensão de validade absoluta e incondicional, há sempre uma parcialidade, uma perspectiva que suprime as condições reais de existência como um devir e legitima uma forma de exclusão ajuizada pelos preconceitos de bom e mau. Verdadeiro ou falso não estão no fundamento do pensamento, são o declínio de formações de domínio e que configuram os indivíduos e as sociedades. Então, prossegue Giacoia:

A autonomia para Nietzsche, é um conceito que deve ser entendido em perspectiva histórica e genealógica: como um vir a ser da capacidade (ou poder) humano de autodeterminação, como uma formação tardia da consciência moral, fruto de um desenvolvimento que parte da pré-história do hominídeo pulsional até alcançar, com o domínio ético do animal político, a potência de responsabilizar-se por si e pelo futuro (2013, p.2).

Se por um lado esse aspecto das duas linhas de pensamento se opõe. De outro, Giacoia revela cogitar certa “equivalência” entre sujeito kantiano e o nietzschiano:

Está sempre em situação; isso significa que desde sempre se encontra imerso no interior de condicionamentos de diferentes ordens, mas age sob a perspectiva de um como se: como se fosse efetivamente livre, sob a perspectiva do imperativo categórico; como se o instante presente retornasse eternamente, ou seja sub specie aeternitatis, para Nietzsche ( 2013, p.2).

Finalmente, o pensamento kantiano se estabelece sobre uma moral “em si”, uma moral geral que se enraíza na razão comum aos seres e que, por isso, são capazes de uma moral universal e cujos “valores supremos exprimem a essência e a validade de toda moral racional”. Entretanto, essa afirmação não se sustenta na medida que a moralidade é “moralidade de sua própria cultura e história de formação. Fundamentar a moral implica, portanto, em transformar uma moral em absoluta, em detrimento de muitas outras morais, historicamente existentes ou possíveis” (GIACOIA.2013, p. 3), nisto se expressa a força da crítica de Nietzsche.

Referências:

BILATE, D., Nietzschex Kant de Oswaldo Giacoia Jr. In: Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche – 2º semestre de 2012 – Vol. 5 – nº 2. pp. 111-113.UFRJ. Disponível em:<https://revistas.ufrj.br/index.php/tragica/article/view/26910/14694> Consulta em: 12/06/2020.

CHAGAS, Flávia Carvalho. Normatividade moral? Studia Kantiana, Pelotas, v.11, n.15, p. 121-134, dez. 2013. Disponível em: <http://www.sociedadekant.org/studiakantiana/index.php/sk/article/view/151/146>. Acesso em: 26 de nov. 2019.

GIACOIA JR., O. Kant e Nietzsche e a autodeterminação como fundamento da autonomia. In: REVISTA IHU ON-LINE, edição 417, 06/05/2013. Disponível em: < http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/4944-oswaldo-giacoia-4>. Acesso em: 13/06/2020.

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HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. 8. ed. Lisboa: Arménio Amado, 1987.

KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. In: _______________. Textos selecionados. Tradução Paulo Quintela. São Paulo, SP: Abril Cultural, 1980, p. 101-162.

KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é o “Esclarecimento”? In: _______________. Textos seletos. Tradução de Raimundo Vier e Floriano de Souza Fernandes. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985, p. 100-116.

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NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência, Tradução: Antônio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2006.

PASCAL, Georges. O pensamento de Kant. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dário. História da Filosofia: do humanismo a Descartes, v. 3. Tradução Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2004.

SALGADO, Joaquim Carlos. A ideia de justiça em Kant: fundamento na liberdade e igualdade. Belo Horizonte, Editora UFMG, 1995.


[1] Fundamentação da Metafísica dos Costumes, obra publicada por Immanuel Kant em 1785 e que será referida no texto com a sigla FMC.

[2] Doutor em Filosofia pela UFRJ e pela Université de Paris I. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Contato:danilobilate@yahoo.com.br

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