Antônio Marcos Maciel Ferreira [*] Resumo: Este artigo objetiva analisar a problemática do mal nas obras no notável pensador, Santo Agostinho – Bispo de Hipona. Para tal, valer-nos-emos, sobretudo, da obra “De Líbero Arbítrio” e “De Civitate Dei” restringindo-nos, nesta última, apenas nos capítulos XIII e XIV. Todo o pano de fundo presente, sobretudo na obra agostiniana sobre o Livre Arbítrio, quer nos mostrar que Deus não é autor do mal; o mal moral não é culpa de Deus, e sim do próprio homem. Deus criou o homem para ser bom, como todas as outras coisas no mundo, e ainda mais, dotou o homem da liberdade, mas o mau uso dessa liberdade concedida ao homem o conduziu para o pecado. Dentre os bens criados, o fato de o homem ter a vontade livre é um bem, mesmo sendo fraco e se deixando guiar pelas paixões. “O pecado não vem da presciência Divina”, nos diz Agostinho, não é Deus o autor do pecado, mas é o próprio homem que, fazendo mal-uso da sua liberdade, acabou por cair no pecado. Para bem articularmos este artigo, faremos o seguinte caminho: 1) – Preliminares históricas sobre a problemática do mal em Santo Agostinho; 2)- A desobediência do homem e a graça divina como pressuposto para o agir bem.

Palavras-chave: Agostinho. Pecado. Livre-Arbítrio. Graça. Razão.

INTRODUÇÃO

Dentre as mais renomadas obras do notável bispo hiponense e doutor da Igreja, Agostinho de Cantuária, bispo de Hipona, destaca-se o De Líbero Arbítrio (Sobre o Livre Arbítrio), na qual encontramos sua argumentativa acerca do problema da liberdade humana, apontando, assim, para questões relevantes que dizem respeito à causa da existência do mal no mundo tendo como pano de fundo a questão se Deus é o criador do mal.

Para analisarmos as questões anunciadas por Agostinho em sua célebre obra, De Líbero Arbítrio, valer-nos-emos, também, de mais uma outra obra, esta também de sua autoria, De Civitate Dei, entretanto, observando a exequibilidade desta pesquisa, restringir-nos-emos, sobretudo, ao De Líbero Arbítrio. A obra De Civitate Dei (A cidade de Deus) fala-nos de duas cidades distintas, Cidade de Deus que vive de acordo com a graça divina, e a Cidades dos Homens que é fundada em si mesmo; essa obra aborda consideráveis temas que dizem respeito à fé e a doutrina cristã, a saber: a existência do demônio, as causas do mal e do pecado, a cognoscibilidade de Deus, sobre a Santíssima Trindade, etc. Diante dessa vastidão de tão preciosos temas que, sem sombras de dúvidas, merecem ser aprofundados, analisaremos os trechos em que o mesmo se dedica em fazer suas considerações sobre a queda do homem e do pecado original.

Na abordagem deste tema, faz-se necessário nos reportamos para as figuras daqueles que representam toda a humanidade: Adão e Eva. O homem, criatura de Deus, também foi criado para ser bom, como todas as outras obras da criação o são; há no homem, imagem e semelhança de Deus, uma especificidade que torna diferente das demais criaturas, o Livre Arbítrio, a capacidade de escolher entre o bem e o mal. Na narrativa presente no Livro do Gênesis, Eva busca o alimento que, no momento, não tem; o Senhor Deus havia dito que poderiam comer de todos os frutos presentes no jardim, exceto daquela que se encontrava no centro do jardim, mas por sedução da serpente, Adão e Eva come do fruto da árvore do centro do jardim com a promessa de que, caso comessem, seriam capazes de conhecer tudo e serem como Deus. Quando o homem desobedece a Deus, ele rompe, por livre vontade, a perfeita amizade com Deus, tornando, com isso, uma criatura manchada pelo pecado. O mal, por sua vez, surge quando o homem, livremente, se afasta de Deus pelo desejo de serem, também, como Deus.

A obra agostiniana De Civitate Dei nos oferece aspectos basilares para entendermos a origem do mal e quais foram as suas consequências para o homem; no De Líbero Arbítrio vemos que Deus cria o homem para o bem, pois, tendo criado todas as coisas, “Deus viu que tudo era muito bom”. É Deus o autor do mal? Ou é o homem que fez um mal-uso da liberdade concedida pelo criador? Os infortúnios, as desgraças, a fome e a miséria são, de fato, culpa de Deus? São essas as questões que desejamos abordar nesta breve pesquisa sobre a problema do mal em Santo Agostinho.

1- PRELIMIRARES HISTÓRICAS SOBRE A PROBLEMÁTICA DO MAL EM SANTO AGOSTINHO.

O cristianismo nascente, sobretudo nos seus primeiros séculos, era marcado por heresias que, de certo modo, ameaçavam a fé e a moral, além de demonstrarem cada vez mais a decadência do mundo; neste sentido, para preservar a fé, os pais da Igreja, os notáveis patrólogos do medievo, pelo amor que tinham pela Igreja de Cristo, dedicaram vários estudos que foram capazes de não só defender a fé, mas de mostrar a beleza encantadora da doutrina cristã. É importante perceber em Agostinho que, além desse amor por Cristo e pela Igreja suscitados logo após a sua conversão, o mesmo era portador de um notável espírito especulativo com o qual encontrou motivações para responder contra as heresias vigentes na época, como o Pelagianismo, Maniqueísmo, Gnosticismo e o Montanismo.

A heresia do Maniqueísmo, presente num contexto onde as questões metafísicas do mundo e da moral eram respondidas à luz da fé, consiste na defesa de um princípio para o bem e um princípio para o mal, ambos no mesmo pé de igualde; mas em Agostinho, o que existe de fato, é o bem, e o mal nada mais é do que ausência do bem; em suma,  em Agostinho não existe um princípio para o bem e para o mal, pois, o que existe é apenas o bem. Quando Agostinho responde contra a fragilidade teórica do Maniqueísmo logo após a sua primeira conversão, vemos o “início da reflexão agostiniana sobre os costumes, a lei divina, a lei moral, a natureza como norma e as faltas morais” (Cf. LIMA VAZ, 1999, p. 183). Quanto ao pelagianismo, precisa e sinteticamente respondemos que é o esforço de alcançar a Salvação sem Deus.

“A partir do séc. I a formação Ética cristã segue um caminho traçado pela fidelidade ao ethos do querigma primitivo, sobretudo à Norma absoluta, fidelidade manifestada exemplarmente na espiritualidade do martírio e no confronto com as tendências heréticas, sobretudo do Gnosticismo e do Montanismo” (LIMA VAZ, 1999, p. 175).

Além do mais, nas narrativas da Igreja nascente, várias são as perseguições por parte do Império Romano, perseguições estas muitas vezes sangrentas, cuja finalidade era o impedimento da pregação e da profissão de fé da Mensagem Divina e da pessoa de Cristo. Não obstante, nesse contexto de heresias encontramos vários argumentos que colocam em xeque a divindade do Espírito Santo, a figura de Cristo e as várias especulações sobre a Santíssima Trindade. Os santos padres defensores da fé, cuja eficácia de seus ensinos é reconhecida até os dias atuais, lutaram pela ortodoxia e pelos valores cristãos; neste contexto, várias outras figuras importantes como Orígenes, Agostinho, Gregório de Nissa, Tomás de Aquino, dentre outros, surgiram como o objetivo de defender à fé, sua doutrina e a clareza da Mensagem Salvadora.

Agostinho de Cantuária, cuja figura propomos analisar nesta pesquisa, possui uma vida que o torna um tanto quanto diferente de outros grandes doutores da Igreja. Enquanto alguns possuíam a oportunidade de viverem em contextos e localidades diferentes, Agostinho nunca abandonou a sua pátria. “Nascido na África, em Tagaste, morto na África, em Hipona, o maior talvez dos doutores da Igreja Universal não deixou nunca sua pátria, fora os cinco anos em que ele passou na Itália, em Roma e Milão” (AZZI, 1964, p. 15-16). E para ilustrar ainda mais a excelência de Agostinho e o amor que o mesmo tinha por sua pátria, o historiador G. Bardy afirma que “Santo Agostinho se interessa por todos os problemas do seu tempo. Mas é o general que tudo controla e tudo dirige sem nunca abandonar o posto de comando. E este posto de comando foi a África do Norte” (idem).

“Durante o séc. IV, acompanhando o definitivo triunfo político da Igreja a partir de Constantino, a ética-cristã pré-agostiniana desenvolveu-se em muitas formas, desde a generalizada utilização de conceitos de origem filosófica, sobretudo estoicos, até a proposição de helenística da Ética como pedagogia. O alvo é, de acordo com a mesma tradição, a consecução do fim (telos) da perfeição ou de um eudaimonia ou beata vita, propriamente cristãs, segundo o modelo do Cristo e de seu ensinamento, cuja plena realização, porém, se dará no advento de um novo céu e de uma nova terra, numa nova vida na contemplação face a face de Deus” (LIMA VAZ, 1999, p. 175).

Em suas obras, Agostinho quer dar respostas cristãs aos problemas de seu tempo. No Dizionario dei filosofi, do Centro di studi filosofici di Gallarate encontramos que durante uma fase de sua vida Agostinho se dedicou em pensar sobre o problema da liberdade e da graça, nos mostra a união perfeita que existia entre o criador e a criatura, mas quando o homem peca, a condição de Adão, a condição do homem, se torna a de não mais poder pecar.

“Antes da queda Adão podia não pecar (a liberdade do homem estava em plena relação com o Criador), depois do pecado a situação muda e Adão não pode mais não pecar. O resgate ou o retorno àquela condição de não pecar se tornou possível por bondade e graça de Deus pela encarnação do Verbo Divino em Cristo. A Graça Divina é então sempre necessária para que o homem persista no bem e não se torne escravo, cativo do uso do seu livre arbítrio. É a Graça atual que impulsiona a vontade humana a querer o bem e a cumpri-lo” (DICIONÁRIO DE FILOSOFIA, p. 19, 1976).[1]

A Graça Divina, por sua vez, é o que orienta o homem para escolher o bem depois da queda; sem a Graça o homem seria incapaz de poder agir bem e, segundo Agostinho, a Graça Divina é a luz que ilumina o Livre-arbítrio depois da queda, próprio do homem, para que o mesmo escolha não o mal, mas o bem. “O homem pode cair livremente, isto é, por sua própria vontade, mas foi incapaz de reerguer-se por suas próprias forças e sem a graça de Deus. Para poder recuperar a justiça perfeita que possuíra no paraíso, foi preciso que Deus o restituísse ao estado de liberdade com seu auxílio gratuito” (GILSON apud AGOSTINHO, p. 192, 1991).

Em Agostinho, vemos neste primeiro momento que a liberdade que Deus concede ao homem é vista como algo bastante positivo, porém, o mal se encontra quando o homem faz um mau uso dessa mesma liberdade que lhe é dada, como já dito, por Deus; em outras palavras, quando o homem age não segundo à razão iluminada pela fé, pela graça de Deus, mas age segundo as suas paixões, ele age mal, abusa da liberdade que lhe foi dada; logo, o pecado provém de uma atitude fundamentada não na razão, mas nas paixões.

“Para Agostinho, a existência da vontade livre (ou do ‘liberum arbitrium’) jamais chegou a ser um problema. Trata-se, a seu ver, de uma verdade primária e evidente, e portanto, incontestável. Temos consciência de nos determinarmos a nós mesmos e de sermos responsáveis por nossos atos. O problema propriamente agostiniano diz respeito ao uso desta vontade livre, bem como ao seu valor e à sua bondade. Qual é a razão de ser da vontade, e como conquista ela a sua perfeição na liberdade?” (BOEHNER; GILSON, p. 191, 1991). 

 Para Agostinho, a vida beata, a vida feliz, é a capacidade de conformar o nosso agir às leis eternas que são, também, leis da razão, porém, nessas leis da razão devem estar impressas as leis do divino. Diante dessa consideração apresentamos aqui uma diferença, por exemplo, entre Agostinho e a Aristóteles, pois ambos fundamentam o agir humano na razão, porém, a razão em Agostinho é impressa pelo divino, não se tratando de uma razão qualquer, mas uma razão iluminada pelo divino. Esta questão é o que encontramos como pano de fundo no tópico seguinte, pois, sendo o homem livre, o mesmo é incapaz de viver sem a graça de Deus.

2. A DESOBEDIÊNCIA DO HOMEM E A GRAÇA DIVINA COMO PRESSUPOSTO PARA AGIR BEM

Em Agostinho, virtuoso é aquele que se deixa guiar não pelas paixões, mas pela razão que é iluminada pelo divino. O pecado é a ruptura da amizade com Deus, é o que os primeiros pais escolheram livremente quando, desobedecendo a lei divina, desejaram ser como o próprio Deus naquele infeliz momento em que os mesmos, dominados pela paixão, optam em comer o fruto da árvore do centro do jardim, desobedecendo a lei divina com o objetivo, se assim podemos dizer, de se tornarem divinos, se tornarem como Deus.

“O conceito do pecado no Antigo Testamento não foca primeiramente a falta moral, mas a relação entre Deus e o homem. Embora uma das palavras para o pecado em hebraico, chatah/hata, signifique ‘errar o alvo’, a mesma é usada para dizer ‘pecar’, especificamente no sentido de falhar diante de Deus. As duas outras palavras para o pecado mostram claramente a concepção relacional. Em hebraico, passa/ pesa, significa ‘culpa’, ‘ofensa’ contra alguém e, o mais amplo, sendo utilizado para designar ‘transgressão’, ‘pecado’, ‘culpa’, ‘punição’” (HILL, 2014, p. 16).

 Antes da queda o homem poderia contemplar Deus sem experimentar corrupção e a morte, mas a partir do momento em que o homem peca, é preciso experimentar a morte, é preciso passar pela purificação da alma outrora marcada pela pureza e que agora está manchada pelo pecado, para depois contemplar a face misericordiosa de Deus. O pecado dos primeiros pais respinga em toda humanidade; por causa dos primeiros pais, a mancha do pecado, a vergonha diante da grandeza da presença de Deus, se fazem presentes em nós.

“Para Agostinho (1961b), o pecado original se passa na concepção da morte. A morte é passada a todos os homens pelo pecado do primeiro homem por causa de sua desobediência e por Deus não ter feito o homem semelhante aos anjos quanto à semelhança substancial e os anjos não morrerem, assim o homem que obedecesse a Deus poderia alcançar a imortalidade sem passar pelo processo da morte” (TEIXEIRA, 2016, p. 123).

Em outras palavras, o homem é criado de forma boa, segundo vimos no tópico anterior; o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, sem conhecer a corrupção do pecado e da morte. Deus concedeu aos primeiros pais a faculdade de escolher entre o bem e o mal e, por livre vontade, o homem opta pelo mal; o homem faz uma escolha errônea, desobedece a Deus e é condenado à morte, tinha a capacidade de não experimentar a morte, mas a desobediência o conduziu juntamente com toda a humanidade a este suplício.

“A liberdade humana operava desimpedida antes da Queda: essa é uma razão para a gravidade do pecado de Adão. Mas com a queda de Adão seu pecado trouxe consigo não só a sujeição à morte, a doença e a dor, mas também a debilitação moral maciça. Nós, filhos de Adão, herdamos não apenas a mortalidade como também a pecabilidade. Seres humanos corruptos maculados com o pecado original não dispõem de liberdade para viver bem sem auxílio: podemos ser livres para resistir a cada tentação, à medida que chega, mas nossa resistência não pode ser prolongada dia-a-dia. Necessitamos da graça de Deus não somente para conquistar o céu, mas também para evitar uma vida de contínuo pecado” (KENNY, p. 317, 2008).

No capítulo XV do De Civitate Dei encontramos que “pecando, Adão abandonou a Deus antes de Deus abandoná-lo. A primeira morte da alma consistiu em apartar-se de Deus”. Este trecho, de certa forma, mostra-nos que Deus não se afasta do homem, mas o próprio homem se afasta de Deus pela liberdade concedida pelo próprio Deus; e afastar-se da presença de Deus, eis o verdadeiro inferno. A causa da primeira morte à qual toda a humanidade ficou submetida, consiste no consciente afastamento de Deus; contudo, Deus acolhe a escolha do homem, mas o mesmo foi alertado de que caso comesse do fruto da árvore que estava no centro do jardim, eles haveriam de morrer; Deus respeita a escolha do homem:

“Contudo, embora entendamos haver Deus querido significar essa morte nas seguintes palavras: No dia em que comerdes morrereis de morte, como se dissesse: No dia em que me abandonardes pela desobediência abandonar-vos-ei por justiça, indubitável é que em tal morte se anunciariam também as demais que haviam de suceder” (AGOSTINHO, 1964, p. 213).

A teoria pelagianista à qual Agostinho evidentemente se opõe, consiste em dizer que a morte do homem não foi provocada pelo pecado de Adão, pois todo o homem já nasce com essa natureza; o pecado de Adão afetou ele mesmo, logo, neste sentido, a teoria nos diz, segundo ainda apontado por estudiosos, que o pecado original não existiria e a humanidade não carrega sobre os seus ombros o erro do primeiro homem. Para Agostinho, o pecado dos primeiros pais que resultou do afastamento da graça divina e, consequentemente em sua morte, afeta, sim, toda a humanidade. No que diz respeito à teoria pelagiana, novamente, Deus cria o homem para ser bom, jamais depositaria nele a natureza de ser mal e pecador, o mal existente no mundo é, pois, quando o homem deixa de guiar o seu agir segundo à razão iluminada pela graça divina submetendo-se às paixões. David Silva, licenciado em Filosofia, considera o seguinte:

 “A morte corpórea não é consequência do pecado, mas uma realidade própria da natureza humana dada por Deus desde o início. Sendo assim, a condenação do homem por causa do pecado de Adão é injusta, pois o mesmo não teve nenhuma ligação com esse pecado. Agostinho, em seu livro A natureza e a graça, expõe o pensamento de Pelágio sobre a incorruptibilidade da natureza provavelmente em seu livro De natura” (SILVA, 2009, p.74).

No livro das Confissões de Santo Agostinho, ele nos transmite a mensagem de que também as paixões e os prazeres deste mundo são capazes de provocar o pecado. Segundo Agostinho, o apego demasiado a bens mundanos faz com que nos afastemos do bem maior que é Deus, quando nos afastamos desse bem maior, caímos no pecado. Quando Agostinho trata sobre a causa do pecado no Livro II das Confissões, ele não nega que esses bens podem nos trazer certa satisfação, mas não nos sacia como Deus. “A vida neste mundo seduz por sua própria beleza e pela harmonia que mantém com todas as pequenas coisas belas que nos cercam”. (AGOSTINHO, 1997, p. 56).

O homem vive numa constante busca pela felicidade, mas nem sempre os meios pelos quais o mesmo visa alcançar essa felicidade são os mais satisfatórios; Agostinho considera que os homens eram livres das perturbações antes de cometem o pecado; os primeiros homens vivam em total harmonia, viviam felizes entre si e inquietude nenhuma fazia parte de suas vidas. “Ali reinava o imperturbável amor a Deus, os cônjuges viviam entre si em familiaridade sincera e fiel e desse amor fluía grande gozo, sem faltar objeto de amor digno de desfrute”. (AGOSTINHO, 1964, p. 197)

Esses são alguns efeitos provocados pelo pecado na história do gênero humano. Deus criou o ser humano livre, o livre arbítrio colocou no coração do homem o desejo de ultrapassar todos os limites estabelecidos por Deus, mas isso não foi possível. O pecado entra no mundo por livre e espontânea vontade do homem; sozinho o homem decidiu por se afastar de Deus, mas sozinho ele não pode retornar à graça.

“Tão logo o homem desprezou o mandato de Deus, desse Deus que o criara, que o fizera à sua imagem e o antepusera aos restantes animais, que o estabelecera no paraíso e lhe dera abundância de todas as coisas e de toda saúde, que , longe de impor-lhe muitos preceitos graves e difíceis, o provera, para encarecer a obediência, de um muito leve e breve, com que advertia a criatura ser Ele seu Senhor e convir-lhe servi-lo livremente, sobreveio-lhe justa condenação”. (AGOSTINHO, 1964, p.266)

Chegando ao final desta apreciação filosófica acerca do problema do mal em Santo Agostinho, queremos nos reportar à indagação presente logo no início deste artigo: Deus é autor do mal? Valendo-nos aqui de uma exposição de Eulália Bueno, a mesma conta-nos que, certo dia, um aluno perguntou ao seu professor se o mal existia, e o professor assim respondeu: “Claro que existe o mal, olhe para fora e veja quanta maldade existe no mundo”. Diante dessa resposta o aluno respondeu que todos os infortúnios que observamos no mundo é a maldade, mas a ausência do bem. Deus é autor do mal? Deus criou o homem bem como todas as outras coisas para serem boas, porém, o homem, fazendo mau uso dessa liberdade concedida por Deus, optou pelo mal, logo, Deus não é o autor do mal. O agir mal não tem nada haver com Deus. Para salvaguardar a Bondade de Deus, Agostinho atribui ao livre-arbítrio o aspecto principal para a presença do mal no mundo.

CONCLUSÃO

Ao concluirmos esta pesquisa, baseados nas considerações agostinianas sobre o pecado, consideramos que a culpa da presença do mal no mundo é do próprio homem. Deus criou todas as coisas para serem boas, criou o homem para ser bom e a ele confiou a responsabilidade de preservar a obra da criação. O homem é dotado de liberdade, mas a partir do momento em que homem age segundo as paixões, deixando de se guiar pelas razões que são impressas pelo divino, o homem peca. Agindo guiado pela paixão, os primeiros pais pecaram fazendo com que toda a humanidade ficasse também manchada pelo pecado, e como se não bastasse tantos infortúnios e misérias provindos a partir dessa ruptura consciente da amizade com Deus, também o agir moral do homem sai prejudicado, pois antes o homem podia não pecar, depois da queda ele não pode mais não pecar. Pelo livre-arbítrio o homem escolheu por se afastar de Deus, e a presunção de ultrapassar os limites impostos pelo Transcendente tomou todo o coração dos primeiros homens; e é por meio dessa mesma liberdade que os infortúnios do mundo sustentam toda essa maldade que não passa da ausência do bem.

                                     REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO. “A cidade de Deus”. vol. 1 & 2 Tradução Oscar Paes Leme. Editora das Américas S.A: São Paulo, 1964. 

_______. O Livre Arbítrio. Tradução Nair de Assis Oliveira. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1995.

BOEHNER, Philotheu; GILSON, Étienne. História da Filosofia cristã: desde as origens até Nicolau de Cusa. Tradução Raimundo Vier. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 1991.

CENTRO DI STUDI FILOSOFICI DI GALLARATE. Dizionario dei filosofi. Sanzoni: Firenze 1976.

GONÇALVES, Eladir Laine. Deus existe? – por Eulália Bueno. (3min.26s.). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jsPDEYQEQrI. Acesso em: 31 mai. 2019.

HILL, Joseph Murray. “A doutrina do pecado original à luz da teoria da evolução em Teilhard de Chardin e Karl Rahner. 13/10/2014. Mestrado em TEOLOGIA Instituição de Ensino: FACULDADE JESUÍTA DE FILOSOFIA E TEOLOGIA DE BELO HORIZONTE (FAJE). Disponível em: http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/070115-ztpI89bqtloq.pdf

SILVA, David da. O PECADO ORIGINAL: RAÍZES HISTÓRICO-TEOLÓGICAS DE UMA CONTROVÉRSIA. Revista de Cultura Teológica. ISSN (impresso) 0104-0529 (eletrônico) 2317-4307, [S.l.], n. 66, p. 71-91, jun. 2013. ISSN 2317-4307. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/15492>. Acesso em: 02 out. 2017. doi:http://dx.doi.org/10.19176/rct.v0i66.15492.

TEIXEIRA, Rodrigo Lima. “Santo Agostinho e o pecado original como consequências do distanciamento do sumo bem para o próprio bem” Maio/2016. 144 f. Licenciando em Filosofia Instituição de Ensino: Centro Universitário Filadélfia. Disponível em:http://www.fatadc.com.br/site/revista/6_edicao/8%20%20SANTO%20AGOSTINHO%20E%20O%20PECADO%20ORIGINAL.pdf

KENNY, Anthony. Uma nova história da filosofia ocidental. Vol. II. Tradução Edson Bini. Edições Loyola: São Paulo, 2008.


[*]Graduando em Filosofia na Faculdade Dom Luciano Mendes

[1] Prima della caduta, Adamo poteva non peccare (‘posse non peccare’, come ‘posse non mori’: cfr. De civ. D., XII, 30, n.3; dopo il peccato la situazione cambia, e Adamo non può, una volta o l’altra, non peccare (‘non posse non peccare; non posse recta agere’: Opus imperf. contra Iul., VI, 12). Il riscato è stato possibile, per bontà e grazia di Dio, con I’incarnazione del Verbo Divino in Cristo. La grazia divina è dumque sempre necessaria, perché l’uomo persista nel bene e nos faccia cattivo uso del suo libero arbitrio. È la grazia attuale, che spinge la volontà umana a volere il bene e a compierlo. (DIZIONARIO DEI FILOSOFI, p. 19,1976)

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