Sandro José Viana Martins

INTRODUÇÃO

O pensamento do filósofo Martin Heidegger consiste em reavaliar a questão epistemológica acerca do conhecimento, acenando para os equívocos dos filósofos precedentes e colocando, para a aquisição de um conhecimento seguro, a analítica existencial. O fundamento, foco da metafísica tradicional, era buscado numa dimensão transcendental o que, segundo a concepção heideggeriana, incidia no abandono do Ser, uma vez que o mesmo deve ser investigado na realidade. A partir disso é possível compreender os porquês de o fundamento do mundo, para esse filósofo, ser “imanente”.  Além disso, dos entes todos, apenas o homem interroga sobre tais questões, portanto, é a partir dele, esse ser-aí, que deve se iniciar a nossa investigação. Heidegger coloca a condição do conhecimento a partir do Dasein como forma de compreender o mundo, desconstruindo o dualismo metafísico que contrapôs o sensível e inteligível, amparado no modelo relacional de sujeito-objeto. Sendo o papel do filósofo problematizar a rede de conceitos que parece responder à questão originária, dentre tantas outras coisas, torna-se pertinente compreender o posicionamento desse filósofo quanto a questão do Ser.

LEITURA HEIDEGGERIANA DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

Somos cônscios de como nasceu a filosofia. Algumas respostas já se apresentam prontamente quando dela procuramos uma definição, tais como: superação das explicações mitológicas, surgimento a partir do espanto e da admiração ou ainda através de uma explicação etimológica que a define como amor ao saber. O empenho dos pré-socráticos, como nos afirmam os historiadores, a começar por Tales de Mileto, é de dar uma explicação racional quanto à origem das coisas. Eles são chamados cosmológicos, justamente por usarem elementos da natureza a fim de apresentar uma solução para a questão do fundamento. Dentre tantos nomes, Parmênides merece referência uma vez que, na questão fundamental da filosofia, foi quem se desprendeu dos elementos naturais, lançando assim as bases metafísicas, com a famosa fórmula de definição do ser com o princípio lógico da não contradição: “o ser é e não-ser não é” (PARMENIDE. Frammenti, n. 6, tradução nossa)[1].

Contudo, neste trabalho, nos interessa a releitura heideggeriana acerca da história da filosofia que questiona sobre o “quê” das coisas, ou seja, a que tem por objeto o próprio Ser. Para tanto, Heidegger considera essencial o retorno aos gregos. Isso porque, no decorrer da história, a filosofia acabou por se confundir com as demais ciências perdendo, juntamente com o seu primado perante elas, o seu objetivo.  No escrito Que isto, a filosofia?, ele já propõe esta questão, não no intuito de fazer uma disciplina da disciplina, mas saber o que de fato significa filosofia. Para tanto, Heidegger recorre a Aristóteles:

Aristóteles então, quase dois séculos depois de Heráclito, caracterizou este passo com a seguinte afirmação: […] “Assim, pois, é aquilo para o qual (a filosofia) está em marcha já desde os primórdios, e também agora e para sempre e para o qual sempre de novo não encontra acesso (e que é por isso questionado): que é o ente? (tí tò ón)” (HEIDEGGER, 1979, p. 17).

Assim sendo, como disse Heidegger, “a palavra philósophos foi presumivelmente criada por Heráclito” (HEIDEGGER, 1979, p. 17), bem como todo o significado que a mesma designa. A filosofia procura aquilo que recolhe o ente, dito de outra maneira, ela tem por objeto o Ser do ente. Entretanto, a contribuição de Aristóteles, neste quesito, foi sintetizar o pensamento dos filósofos precedentes. Para encontrarmos o significado de filosofia devemos rastrear, a partir de seu próprio percurso, aquilo que ela procura. Ou como Heidegger nos indica: “A resposta à questão: Que é isto – a filosofia? consiste no fato de correspondermos àquilo para onde a filosofia está a caminho. E isto é: o ser do ente.” (HEIDEGGER, 1979, p. 20).

A questão do ser, tratada na ótica da metafísica, “deu fôlego às pesquisas de Platão e Aristóteles para depois emudecer como questão temática de uma real investigação. O que ambos conquistaram manteve-se, em muitas distorções e ‘recauchutagens’, até a lógica de Hegel.” (HEIDEGGER, 2004, p. 27). Seja como for, não obstante o contínuo esforço dos filósofos, com suas inspirações particulares e as demandas históricas, ninguém conseguiu superar o alcance desses dois – de forma ainda mais significativa Platão. Faz-se necessário aqui, uma pequena referência do significado do termo Physis para os gregos a fim compreendermos o que faz de Platão alguém tão importante assim. “A physis é o Ser mesmo em virtude do qual o ente se torna e permanece observável” (HEIDEGGER, 1996, p. 52-52). Ou seja, a physis é o lugar do desabrochar da verdade, mas também do ocultamento, é o lugar do ser, do não-ser, do vir-a-ser, é o lugar da luz e das sombras. Quando, porém, Platão contempla a verdade no nível transcendental, no Mundo das Ideias, onde nada mais se obscurece e a luz da verdade não engana a ninguém daqueles que lhe contempla é então que ele inaugura a metafísica e elabora uma definição de Ser inigualável.  

Ou seja, desde então, não obstante a divergência entre os filósofos, o que há em comum é que o Ser passou a ser pensado enquanto um fundamento cuja textura escapole a qualquer devir, a qualquer mácula que possa ameaçar seu estatuto de eternidade, imutabilidade. De certa forma, então, a tradição, em nenhum momento, duvidou de Platão no sentido de discordar deste caráter de permanência do que seja o Ser; consequentemente, a questão do Ser deixou de ser problematizada. Em outras palavras; o Ser caiu no esquecimento. (GUIMARÃES, 2014, p. 68).

A essa altura temos bem esclarecido o papel da filosofia, qual seja: a investigação pelo Ser do ente. Dessa grande incumbência propriamente filosófica diversificados ramos aparecem na tentativa de perscrutar com maior profundidade o que faz o ente ser. Daí resulta a metafísica que se propõe especificamente responder o que seja o Ser. Manifestando, desde já, a posição heideggeriana a respeito da metafísica, é conveniente apresentar a ponderação de Heidegger a uma metáfora usada por Descartes que retrata a filosofia como uma árvore, sendo as raízes a metafísica, o tronco a física e as demais ciências sendo representadas pelos outros ramos (ABDALA, 2017, p.14). No escrito O Retorno ao Fundamento da Metafísica, Heidegger inicia citando essa metáfora de Descartes e levanta os seguintes questionamentos:

Aproveitando esta imagem, perguntamos: Em que solo encontra as raízes da árvore da filosofia o seu apoio? De que chão recebem as raízes e, através delas, toda a árvore as seivas e forças alimentadoras? Qual elemento que percorre oculto no solo, as raízes que dão apoio e alimento à árvore? Em que repousa e se movimenta a metafísica? O que é a metafísica vista desde seu fundamento? O que é, em última instancia, a metafísica? (HEIDEGGER, 1979, p.55).

Ao levantar todas essas questões, Heidegger pretende chegar à mais dura de suas acusações, a de que a metafísica ignorou o Ser, assim como Descartes esqueceu do solo, o fundamento da própria metafísica. Toda a referência que ela faz ao Ser, só o faz em prol do ente e não consegue ultrapassá-lo. Da metafísica, diz-nos: “Ela não problematiza por que é que somente pensa no ser enquanto representa o ente enquanto ente. Ela visa o ente em sua totalidade e fala do ser. Ela nomeia o ser e tem em mira o ente enquanto ente” (HEIDEGGER, 1979, p. 57). Haja vista todas essas pontuações, quem se colocar verdadeiramente a questão do Ser, terá indubitavelmente que superar a metafísica nos moldes em que ela foi colocada.  

Em linguagem sucinta, portanto, a apropriação heideggeriana da metáfora cartesiana declara a metafísica como o pensamento que, de sua origem grega à sua consumação com a inversão nietzschiana do platonismo, efetua o esquecimento do ser em estruturas discursivas vinculadas estritamente ao plano ôntico. Ainda em termos metafóricos, as raízes da árvore da filosofia, com sua aparente autossuficiência, encobrem seu solo originário, mas permanecem nele estabelecidas. Nesse sentido, o pensamento que pretende penetrar nesse solo originário – além da metafísica, então – pergunta-se pelo fundamento da metafísica, ultrapassando o domínio representativo dos entes para o âmbito do pensamento do ser (ABDALA, 2017, p. 15).

Aproveitando que nos referimos a Descartes, Heidegger também é bastante resistente ao racionalismo cartesiano, porque este deposita a certeza do conhecimento do cogito e despreza o sum, ou seja, o Ser. Precisamente, esse desconforto de Heidegger decorre da tendência de separar as realidades, ou mesmo, de eleger uma em detrimento da outra. No intuito de conhecimento seguro o que se alcança são certezas fragmentadas. Além disso, a oposição ao cogito cartesiano se dá por defesa da analítica existencial, pela qual Heidegger acredita ser o caminho apropriado para se aproximar do Ser. A analítica existencial perscruta o Ser através dos sinais emitidos de decorrer histórico. Resume-se no cuidado de não se prender aos entes particulares, mas também não salta para a dimensão transcendental ou subjetiva. Ou seja, qualquer ponto isolado tomado para análise não permite acesso ao Ser.

Orientando historicamente, o propósito da analítica existencial pode ser esclarecido da seguinte maneira: Descartes, a que se atribuiu a descoberta do cogito sum, como ponto de partida básico do questionamento filosófico moderno, só investiga o cogitare do ego dentro de certos limites. Deixa totalmente indiscutido o sum, embora o sum seja proposto de maneira originária quanto o cogito. A analítica coloca a questão ontológica a respeito do ser do sum. Pois somente depois de se determinar o seu ser é que se pode apreender o modo de ser das cogitationes (HEIDEGGER, 2004, § 10, p. 82).

Evidentemente, a partir do exposto até agora, Heidegger não é um filósofo que se compraz somente em dirigir críticas a quem quer que seja. Sua intenção é ultrapassar a investigação do ente enquanto ente, erro do qual incorreu a metafísica tradicional esquecendo o próprio Ser. Com a proposta da analítica existencial ele se propõe investigar o Ser a partir de seu lugar no mundo. “Nessa direção a repetição do sentido do ser não requer mais uma Analítica Transcendental, mas uma Analítica da Existência” (BARRETO, 2012, p.12). Heidegger é influenciado por Kant, quanto ao conhecimento, porém, enquanto o que este acentua é a possibilidade de conhecer a verdade, para aquele o alcance da verdade acontece na medida da abertura à verdade que se revela, trata-se da possibilidade de ser.

A proposta existencialista heideggeriana tem suas bases ainda na fenomenologia de seu mestre, Husserl. Contudo, considera a fenomenologia husserliana no limiar metafísico e, por isso, mantém a necessidade de se desprender daquilo que é prejudicial à apreensão ou rastreamento do Ser. “O sentido do ser daquilo que Husserl entendia como Eu transcendental é determinado por Heidegger como existência fática, em si mesma hermenêutica, a fenomenologia husserliana se converte em fenomenologia hermenêutica em Heidegger” (PAIVA, 1998, p. 20). Ainda é importante salientar que a fenomenologia concerne no método de se fazer ontologia, não podendo associá-la a uma teoria. Esse método é composto por três componentes fundamentais que se articulam dialeticamente: a redução, que atenta para o ser que pergunta – Dasein; a destruição especificamente dos conceitos clássicos; e a reconstrução que é a ontologia propriamente dita, passagem do ente ao Ser, que se dá inclusive pela noção de temporalidade (PAIVA, 1998, p. 21).

Enfim, diante de todos os enganos cometidos, bem como ao afastamento do Ser pela tradição filosófica, do qual Heidegger insistentemente afirma ter incorrido, o posicionamento menos apropriado a essa altura é permanecer no esquecimento do Ser ou dele desistir diante da dificuldade de apreendê-lo. Nietzsche é citado por Heidegger com reverência, diante daquilo que afirmou do Ser, comparando-o com um vapor inapreensível. De fato, o Ser tende naturalmente a se esconder tal como sugere a ideia de physis. Por isso, a tradição metafísica errou não por esquecer o Ser, mas por esquecer que o Ser gosta de se esconder. Contudo, não podemos radicalizar essa afirmação comparando-a a um mero som verbal, um engano ou uma ilusão, compreensão digna de indiferença (HEIDEGGER, 1966, p. 81). Segue, portanto no próximo tópico do nosso artigo os primeiros passos em busca do Ser.

LUGAR PRIVILEGIADO DA BUSCA DO SER

Em primeiro lugar é preciso saber, como no diz Márcio Paiva, (1998, p. 30), que “o verdadeiro tema da filosofia heideggeriana é o Ser, não o homem. Este exerce um papel de porta em direção ao Ser, como aquele lugar em que o Ser ilumina-se enquanto tal”. Por isso, a investigação do ser deve começar pelo homem, que, enquanto animal racional, questiona o mundo desejoso de alcançar a verdade do Ser que, embora indeterminado, se apresenta constantemente ao pensamento. Pois “o ser não é um produto do pensamento. Pelo contrário, o pensamento essencial é um acontecimento provocado pelo ser” (HEIDEGGER, 1979, 49). Na medida em que o ser-aí sai de si, numa postura de abertura, torna-se ativamente metafísico, como diz Kant, citado pelo próprio Heidegger (1979, p.56). Portanto, se o homem mantivesse essa postura, a metafísica tradicional seria superada.

Heidegger, como visto acima, acusa a tradição filosófica de ter se esquecido do Ser, por focar toda a pesquisa nos entes. Isso se torna ainda mais perceptível na modernidade, com o progresso da ciência que investiu na pesquisa dos entes, uma vez que a pretensão era o domínio dos mesmos. Acessando-se somente aquilo que se apresenta facilmente e dando-se por satisfeito, fica ignorado o Ser, que exige mais coragem e empenho por parte daqueles que têm a possibilidade de conhecê-lo fica ignorado. Ora, o que importa a princípio é que, se dedicamos o mínimo de atenção a qualquer coisa, seja as complexas ou mesmo as simples, não se pode duvidar de sua existência. Contudo, das muitas questões que levantamos, uma tem primazia, a do Ser, e o mesmo se dando com os entes. 

Ao refletirmos sobre todo o âmbito que se põe em questão, o ente como tal em seu todo, depara-se-nos facilmente o seguinte: Afastamo-nos inteiramente de qualquer ente particular, enquanto este ou aquele. Intencionamos o ente em seu todo mas sem qualquer preferência. Apenas um dentre eles de novo se insinua estranhamente: o homem, que investiga a questão (HEIDEGGER, 1996, p. 40).

Para compreender o ser-aí, Heidegger propõe a analítica existencial que parte da própria existência entendida como essência do ser-aí. Assim, “Somente o ser humano existe, pois existência, na linguagem filosófica heideggeriana, não concerne a algo que simplesmente se expressa como realidade efetiva, objetiva. Existência é o modo de ser do ente que, disposto na abertura do ser, tem em jogo o seu próprio ser” (ABDALA, 2017, p. 12). Necessário se torna pontuar que a compreensão heideggeriana no uso do termo existência não tem o mesmo sentido tradicional, que entendia a existência como ente simplesmente dado no mundo, restrito apenas à dimensão ôntica. O ser-aí ultrapassa essa dimensão remontando em sua constituição também a dimensão ontológica. Este ente específico compreende a si mesmo a partir da compreensão do Ser contido na sua realidade existencial. Cabe ainda esclarecer que o existencialismo heideggeriano não pode ser reduzido ao âmbito antropológico tal como na perspectiva de Sartre, porque a analítica existencial tem como meta atingir plano ontológico, a verdade do Ser.

A “essência” deste ente está em ter de ser. A quididade (essentia) deste ente, na medida em que se possa falar dela, há de ser concebida a partir de seu ser (existência). Neste propósito, é tarefa ontológica mostrar que, se escolhemos a palavra existência para designar o ser deste ente, esta não tem nem pode ter o significado ontológico do termo tradicional existentia. Para a ontologia tradicional, existentia designa o mesmo que ser simplesmente dado, modo de ser que não pertence à essência do ente dotado de caráter de pre-sença. Evita-se uma confusão usando a interpretação ser simplesmente dado para designar existência e reservando-se existência como determinação ontológica exclusiva da pre-sença (HEIDEGGER, 2004, §9, p. 77).

Como constitutivo existencial do ser-aí, temos também o termo compreensão, que oferece ao Dasein as possibilidades de abertura à sua própria existência, bem como à questão do Ser. Não se entende, neste caso, a compreensão como faculdade cognitiva, mas o próprio dinamismo do ser-aí, que vive em meio a todos os demais entes, abarcando em si o próprio Ser. Antes da compreensão do mundo, o mundo é que compreende o ser-aí como ser-no-mundo. “Como analítica existencial, assim, a compreensão também se dá neste contexto a partir do ser-aí e diz respeito ao seu modo de ser. Isso porque a compreensão é um existencial constitutivo do ser-aí que pode ser descrita em três aspectos: compreensão de ser, de si e de mundo” (WEYH, 2019, p. 57).

A partir do processo fenomenológico hermenêutico, o ser-aí se compreende como projeto inacabado e, diante da possibilidade de ser, própria de sua condição ontológica originária, recebe a opção em assumir a sua abertura para o Ser. Acontece que, em meio a esta tensão, o homem tende naturalmente a se recolher por medo das exigências de se aventurar numa via um tanto quanto insegura e rodeada de mistério. Esse fechamento do Dasein impede-lhe de se compreender e, além disso, como consequência direta, acarreta também no abandono do próprio Ser. Resultante desse conturbado processo Heidegger introduz o tema da angústia como constitutivo ontológico fundamental do Dasein porque o encaminha à totalidade de sua existência como ser-no-mundo. Não se trata de uma angústia entendida simplesmente pela ótica psicológica, mas como nas próprias palavras de Heidegger: “Na pre-sença, a angústia revela o ser para o poder-ser mais próprio, ou seja, o ser-livre para a liberdade de assumir e escolher a si mesmo” (HEIDEGGER, 2004, § 40, p. 252). Para conclusão desse tópico, o comentário seguinte sintetiza bem o propósito de Heidegger,

Uma vez que o que é esquecido é o próprio momento de desabrochamento da vida, propiciado pelo mistério daquilo que, em função do que desabrocha, recua e tende a ser esquecido, isto significa que o fundamento de tudo é o infundado, é aquilo que não pode ser conhecido, daí seu caráter misterioso. Isto significa ser este mistério que perpassa este desabrochar a gênese infundada, porém instauradora do que se pode entender como vida, e a própria gênese do que se pode compreender como homem. Ora, se o que se deve entender como homem é também perpassado por este acontecimento, isto significa que o próprio homem é constitutivo deste mistério, deste desabrochar. Sendo assim, colocar a questão do Ser significa retomar esta experiência, e o próprio homem é constitutivo desta experiência; refletir sobre tal questão significa, necessariamente, refletir sobre o homem. Desta forma, para que a questão do Ser volte à tona, é imprescindível que o próprio homem seja colocado no vórtice do problema. Sendo assim, voltar a colocar a questão do Ser significa, ao mesmo tempo, voltar a colocar em questão o próprio homem (GUIMARÃES, 2014, p. 20).

CONCLUSÃO

Como anunciado desde o início do trabalho a questão fundamental para Heidegger é o Ser. Contudo, antes de quaisquer respostas o essencial é insistir na questão que, por prolongado período, ficou esquecida. Ademais, o primeiro passo desta investigação concerne naquele que coloca a questão, o ser-aí. A partir dele, abrem-se as possibilidades de rastrear o Ser. Assim sendo, “A analítica da pre-sença, porém, não é somente incompleta mas também provisória” (HEIDEGGER, 2004, §5, p. 44).

A partir do que foi abordado neste artigo, vimos que Heidegger faz um retorno aos gregos de onde a filosofia se ocupou sobremaneira com a sua questão fundamental: o Ser. Esse retorno torna-se justificável, pois acusa a filosofia de ter, ao longo da história, se esquecido do Ser. Quem melhor tratou da questão do Ser foi Platão, sem desconsiderar, é claro, a contribuição dos pré-socráticos de maneira especial Heráclito e Parmênides, bem como, ulteriormente, o próprio Aristóteles. O fato é que quando Platão supera a Physis direcionando-se ao transcendente, o Mundo das Ideias, inaugura a metafísica e chega a definição do Ser jamais superada: o Ser é eterno e imutável. No decorrer do tempo, a filosofia não somente se limitou a essa definição platônica, como também abandonou o próprio Ser, depositando toda a atenção nos entes, privando-se no plano do ôntico. Houve também a associação do Ser com o Deus cristão, que nem foi matéria desse artigo, mas a referência é válida. Quando Heidegger usa a metáfora cartesiana da árvore da filosofia e identifica que o erro de Descartes foi desconsiderar o fundamento dessa árvore ou quando o acusa de se contentar com o cogito sem se atentar ao sum, não faz mais do que usar Descartes como exemplo para comprovar a acusação do esquecimento do Ser por parte da filosofia. Com base na fenomenologia de Husserl, Heidegger desenvolve a analítica da existência que coloca a questão ontológica do Ser e o perscruta a partir do seu lugar no mundo.

O lugar inicial da investigação do Ser é o ente que coloca a questão do Ser, ou seja, o homem, o único ente que existe, pois tem consciência de si. Para Heidegger, a existência é a essência do homem, o seu modo de ser que, na abertura constitutiva ao Ser, tem em jogo o seu próprio Ser. Essa abertura constitutiva do homem é representada pelos termos da compreensão e da angústia: a primeira é o dinamismo do Dasein dado como ser-no-mundo que se abre à compreensão de si, do mundo e do próprio Ser; e a segunda, aquela que oferece ao Dasein a possibilidade de ser. Haja vista, que o intuito primeiro de Heidegger é a questão do Ser, para qual se deve depositar toda reflexão, e que a investigação deve começar por aquele que coloca a pergunta, compreendemos porque a questão Dasein é essencial, mas transitória.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABDALA, Amir. A crítica Heideggeriana à Metafísica. Eleutheria, Campo Grande, MS/ junho/2017 – novembro/2017.Disponível em: <https://periodicos.ufms.br/index.php/reveleu/about/contact>. Acesso em: 27 set. 2019.

BARRETO, Sônia. Ontologia e Crítica da metafísica: Kant e Heidegger. Revista Estudos Filosóficos nº 8/2012. UFSJ- São João del-Rei- MG.Disponível em: <https://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistaestudosfil>. Acesso em: 17 set. 2019.

GUIMARÃES, CR. Heidegger e a excelência da questão do ser. In: LIMA, ABM. (Org.). Ensaios sobre fenomenologia: Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty. Ilhéus, BA: Editus, 2014, p. 51-75. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/pcd44/pdf/lima-9788574554440-03.pdf>. Acesso em 07 nov. 2019.

HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica. Tradução Emmanuel Carvalho Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966.

______. Conferências e escritos filosóficos.Tradução Ernildo Stein.São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).

______. Ser e Tempo. Tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback. 13. Rio de Janeiro: Vozes, 2004.

PAIVA, Márcio Antônio de. A liberdade como horizonte da verdade segundo M. Heidegger. 1998. 254f. Tese. (Doutorado em filosofia). Editrice Pontificia Universitá Gregoriana, Roma. 1998.

PARMENIDE. Frammenti. In: REALE, Giovanni (Org.). I presocratici. Milano: Bompiani, 2015, p. 477-503.

WEYH, Katyana Martins. Do cuidado como essência da existência do ser-aí em Heidegger. Porto Alegre, Editora Fi, 2019.  Disponível em: <https://3c290742-53df-4d6f-b12f-6b135a606bc7.filesusr.com/ugd/48d206_a25547d9d4ab44a18fd19e058c637462.pdf>. Acesso em: 12 mar. 2020.


[1] […] l’essere è, il nulla non è.

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