José Victor Ferreira Santos

Mateus Lopes de Carvalho

INTRODUÇÃO

No decorrer da história, a quebra de paradigmas, desconstrução e construção de conceitos, mudanças de metodologia, sempre fizeram parte da constituição da sociedade em todos os seus âmbitos. Com o findar do século XIX e a chegada do século XX não poderia ser diferente: díspares transformações políticas, sociais e técno-científicas atingiram a Europa e demais países do mundo, colocando “em cheque” o modo de se pensar, organizar e relacionar vigentes até então.

Não obstante, no âmbito artístico, uma nova perspectiva estética surgiu perante as diversas releituras desse século, com os denominados movimentos de vanguarda. A ruptura com a construção estilística denominada orgânica, predominante até o momento, e a construção de um novo viés estético, marcado pela emancipação artística, pelas alegorias e a subjetividade das obras, são marcas que caracterizam a metodologia inovadora trazida pelo movimento.

Visto isso, entre as principais vanguardas, pode-se citar o expressionismo, movimento que ganhou proporção na Alemanha em meados do século XX. Por meio de seus traços e cores fortes, distorções das formas, iconografias impactantes, ao mesmo tempo em que expressa a subjetividade dos artistas, essa vanguarda busca causar uma experiência subjetiva, certo estranhamento, choque, um turbilhão de sentimentos, em seu receptor.

As inovações estéticas trazidas pelo expressionismo, enquanto movimento de vanguarda, podem ser observadas na obra O Grito (1893), de Edvard Munch. Suas variadas formas e cores tendem a chamar fortemente a atenção do receptor, impactando-o. Além disso, possui uma curiosidade máxima, um ser que não se sabe ao certo se é homem ou se é uma mulher, mas que com os olhos e boca bem arregalados demonstra seu sentimento de angústia. 

Diante disso, inicialmente, buscar-se-á demonstrar como as rupturas trazidas pelas vanguardas se manifestam na arte produzida no período. Para isso, tomar-se-á as características estéticas do expressionismo, enquanto movimento de vanguarda, presentes na obra O Grito de Edvard Munch.

AS VANGUARDAS EUROPEIAS: UMA NOVA ABORDAGEM ESTÉTICA

Pode-se dizer que com a chegada do século XX, tornou-se ainda mais claro à Europa e, posteriormente, ao mundo, que uma gama de transformações e, principalmente, fragmentações políticas, sociais, econômicas e metodológicas tomava o mundo e trazia consequências em todas as esferas de sua organização.  A economia, geopolítica, a gnosiologia, as relações de trabalho, o contato intrapessoal, entre outros aspectos passaram por drásticas revisões.

A população que era principalmente rural, começa a se deslocar para os centros urbanos, a fim de trabalhar nas indústrias surgidas na revolução industrial. A produção e o consumo em longa escala, a ascensão da burguesia na economia, entre outros fatores, causaram inúmeras transformações nos modelos econômicos. A reorganização geopolítica, o fortalecimento de diversas nações, os conflitos entre países, levaram a uma tensão mundial que culminou na Grande Guerra e abriu as portas a uma crise que permaneceu por todo o século. O conhecimento adquirido até o momento passa a ser abordado sob um novo olhar crítico e metodológico. Além disso, as inúmeras inovações técno-científicas, como o surgimento da luz elétrica e os avanços da medicina, fizeram desse período um “borbulhar” de pensamentos, visões críticas e movimentos.

Essas rupturas, releituras, transformações, que se davam em todos os setores da sociedade, não distantemente adentraram na construção estética vigente até o momento, trazendo novos olhares e metodologias, através dos chamados movimentos de Vanguarda. Segundo Fernando Sepe, dentro da análise do pensador estético Peter Bürger, importante nome na análise das Vanguardas, o surgimento do movimento é tido como uma ruptura no âmbito artístico presente até então, uma vez que  até o surgimento dessa a arte era produzida em vista de um sentido pleno extrínseco a si, o qual era expresso pelo autor de forma totalizante nas obras, e passa agora a se afastar ou, até mesmo, excluir das obras um sentido transcendente, um horizonte de significação (SEPE, 2013, p.47).

Para compreender como se dava a abordagem estética até o surgimento dos movimentos de vanguarda, um conceito muito caro à análise é o de “arte orgânica”, que são as “obras marcadas pela relação e unidade entre a totalidade e as partes constituintes” (SEPE, 2013, p.47). As produções do período se comportavam como um organismo harmonioso, no qual há uma relação de cumplicidade e correlação entre as partes constituintes, através de um horizonte de significação. A consonância, o significado, a relação entre os componentes da produção eram conferidos por meio de valores cívico, religioso, histórico, político, entre outros horizontes extrínsecos às produções. A obra não tinha em si sua significação. O autor não apresentava de si, de seus sentimentos na obra. A obra era uma reprodução de algo externo, sem abertura para livre interpretação e expressão. A quebra desse paradigma, uma diferente abordagem estética teve inicio com os movimentos de vanguarda.

Principalmente após advento da modernidade, há uma grande fragmentação da realidade, a aparente unidade, a ideia de universais, é questionada e abre espaço para novas análises. Diante disso, no âmbito artístico, a unidade e totalidade trazidas pelo horizonte transcendente de significado às obras dá lugar a uma experiência imanente, subjetiva, intrínseca à obra, ao pintor e ao receptor (SEPE, 2013, p.47).

Segundo Lennor Noleto, retomando o pensamento de Adorno, características fragmentárias marcantes na literatura, cultura e na política, presentes naquele período histórico no qual as vanguardas estão inseridas, vão trazendo à arte um novo sentido, uma nova forma de abordagem. A arte que até então apresentava um objetivo meramente representativo de algo que lhe é transcendente passa por uma clivagem perdendo seu caráter extrínseco passando a ter referência em si mesma, um valor intrínseco, um valor em-si (NOLETO, 2013, p. 143). Vê-se, a partir da análise de Noleto, que a arte passa por um processo emancipatório, pelo qual deixa de ser uma materialização de algo transcendente a si e passa a uma identidade estética própria.  

Para melhor apresentar a abordagem vanguardista, segundo Sepe, Peter Bürger apresenta como central, o conceito “alegoria”. Enquanto na obra de arte orgânica, há uma unidade entre todos os aspectos que a compõem, unidade essa de origem transcendental, o que lhe garante o sentido totalizante, nas alegorias, há uma fragmentação desse significado e, através desses fragmentos, se dá a criação de uma nova realidade: trata-se de criar uma nova gramática, uma nova linguagem, a partir da reorganização de fragmentos. Os arabescos, as ruínas dos horizontes de significação das artes orgânicas são associados e dão origem a uma arte nova, com novos significados (SEPE, 2013, p.48). 

Outro ponto a se destacar é o fato de que a arte, com o surgimento das vanguardas, deixa de ter sua técnica ensebada na forma, na metodologia utilizada, nos pressupostos históricos e sociais, e passa a apresentar novas linguagens, novas manifestações. A inserção do receptor na interpretação da obra é um exemplo dessa manifestação de novas linguagens. A obra que até então, como já foi dito, apresentava um valor intrínseco, seja religioso, civil ou histórico, passa a ter valor em si, e através de sua expressão causa um valor no receptor, um estranhamento, denominado choque:

A obra vanguardista não cria uma impressão total, condição para uma interpretação de seu sentido, nem confere clareza à impressão que, porventura, venha se produzir o retorno às partes individuais, uma vez que estas não se encontram mais subordinadas a uma intenção de obra (BÜRGER, 2008, p. 131).

Segundo Peter Bürger, a unidade entre as partes, o caráter totalizante, marcado anteriormente pelo horizonte transcendente de significação, passa a ser produzido na subjetividade do receptor (BÜRGER, 2008, p.118). O indivíduo se apresenta diante da obra, observa os fragmentos nela presentes, vivencia o choque, o que gera nele uma experiência subjetiva, repleta de sentimentos e impressões, e a partir daí forma o seu retorno interpretativo. Além disso, segundo Bürger, tem-se que:

O receptor experimenta essa recusa de sentido como choque. Este choque é intencionado pelo artista de vanguarda, que mantém a esperança de, graças a essa privação de sentido, alertar o receptor para o fato de sua própria práxis vital ser questionável e para a necessidade de transformá-la. O choque é ambicionado como estimulante, no sentido de uma mudança de atitude; e com o meio com o qual se pode romper a imanência estética e introduzir uma mudança na práxis vital do receptor (BÜRGER, 2008, p. 131).

Nesse trecho, um fato importante a se observar é como, diante da fala de Bürger, o choque proveniente das obras vanguardistas causa no receptor um “turbilhão” de sentimentos, uma experiência subjetiva, que o impulsiona a uma autocrítica. A produção artística, até então relacionada apenas a uma imanência estética causada por uma transcendência de significação, relaciona-se com a tomada de consciência, de conhecimento, do próprio sujeito que se depara com a obra.  O indivíduo tomado pelo choque se volta para sua subjetividade, sendo fomentado até mesmo a modificar sua práxis vital.  

Perante as diversas características dos movimentos de vanguarda, cabe apresentar como se dá a manifestação estética através de um movimento característico da época, o expressionismo. Com seu grande apelo às experiências subjetivas causadas pelo choque, o movimento se apresenta como uma das principais correntes vanguardistas, prezando expor a autonomia artística, através da expressão de seus sentimentos. 

O EXPRESSIONISMO COMO UM MOVIMENTO DE VANGUARDA

Dentre os inúmeros movimentos retratados ao longo das vanguardas europeias, destaca-se o movimento expressionista, cujo auge se deu no século XX, trazendo novas concepções de artes visuais, cinematográficas, literárias, musicais, arquitetônicas e fotográficas. Analisando as manifestações expressionistas na arte, buscar-se-á apresentar as características subjetivas presentes nas obras que as classificam como um movimento de vanguarda.  

Tomando inicialmente a crítica produzida por Herbert Kühn em 1919, no jornal Neue Blätter für Kunst und Dichtung (Novos Jornais de Arte e Poesia), sobre o advento do expressionismo, fica claro como a experiência subjetiva é uma das principais marcas do movimento. Segundo o crítico alemão: “O expressionismo é um só grito contra o materialismo, contra o não-espiritual, contra as máquinas, contra a centralização, e a favor do espírito, a favor de Deus, a favor da humanidade no homem” (KÜHN apud BEHR, 2000, p.7).

Ao se caracterizar o movimento expressionista como um grito em favor de uma abertura ao subjetivo, o autor alemão evidencia a abertura ao imanente na produção da arte. Por meio de uma catarse, termo grego corriqueiramente utilizado nas artes como uma descarga de sentimentos, o artista expressa o eu interior, ao mesmo tempo em que, na maioria das vezes, provoca um “choque” uma experiência subjetiva no receptor. Ao entrar-se em contato com a obra, o apreciador, normalmente, capta as experiências emotivas presentes nas obras e as traduzem em uma experiência própria.

Diante da nova abordagem trazida pela vanguarda, segundo Bezerra, podemos definir como fundamento para a estética do movimento a arte pensada como comunicações. Por meio dos quadros, pinturas, se expressa, se comunica, com clareza e nitidez, os sentimentos e as sensações que estão presentes no artista, havendo a comunicação entre aquilo que lhe é subjetivo e a expressão causada pela sua obra. Com isso, o pensador apresenta que com esse movimento:

Os autores poderiam expressar em sua arte toda a grandiosidade dos sentimentos humanos sem se preocupar com o perfeccionismo e o realismo das formas retratadas, uma vez que o material serviria apenas como pano de fundo para o transcendental (BEZERRA,          2009, p. 3).

Essa valorização da subjetividade ao invés da objetividade, a retratação dos sentimentos e emoções em detrimento da realidade “nua e crua”, se faz presente nas manifestações expressionistas. O contexto do período, marcado pela guerra, se traduziu por meio de temas sombrios, trágicos e mórbidos, concomitantemente relacionados com a realidade vivida e sofrida pelo artista. 

Com isso, ao apresentarmos a expressão subjetiva proposta por essa vanguarda, vemos que entre as características marcantes de sua pintura estão as vibrantes cores e formas. As cores e formas tidas, muitas vezes, como irreais, davam “forma plástica ao amor, ao ciúme, ao medo, à solidão, à miséria humana, à prostituição” (MARTINS; IMBROISI[1]). Por meio de sua sensibilidade artística os expressionistas de sentimentos[2] escolhiam cores e formas eloquentes e resplandecentes, o que possibilitava um melhor resultado final, uma melhor demonstração do drama e da subjetividade.

Junto com as cores, são perceptíveis também as deformações presentes nas formas, figuras e gestos. Além disso, a brutalidade com que o artista pintava seus quadros, utilizando-se de pinceis e espátulas, através de um inesperado dinamismo de fazer e refazer, de passar e repassar os instrumentos, a pintura ganhava um relevo mais evidente, gerando assim certa dificuldade de compreensão do que se encontra exposto.

Percebe-se também que o expressionismo veio como uma forma de libertação, um libertar-se do artista, visto que ele se expressava em sua arte. Mesmo possuindo temas tão polêmicos, os artistas não temiam e seguiam avante, desejosos de se exporem por meio do que melhor faziam. O expressar liberta e liberdade garante um alívio interior.

Dado o exposto, devido à expressão subjetiva, através da materialização dos sentimentos, seja por meio das cores, das formas e gravuras e a liberdade artística, expressando sentimentos oriundos das vivências pessoais dos artistas, o expressionismo torna-se um marco entre as vanguardas europeias. Muitos artistas se destacaram no movimento, entre eles o norueguês Edvard Munch com sua grande obra, O grito, tratada a seguir.

A OBRA O GRITO

Para abordar e compreender melhor sua obra, é preciso antes rever a vida de Edvard Munch, pois elas sofrem grandes influências do contexto vivido por ele. Munch que nasceu em Loten, na Noruega, aos doze de dezembro de mil oitocentos e sessenta e três. Teve três irmãs, sendo elas: Sophie, Laura e Inger, e um irmão, Andreas. Quando completou seu primeiro ano, a família mudou-se para Christiania, atualmente Oslo. Desde cedo, aos seus sete anos, já manifesta talento e interesse pela arte. Em seu próprio diário, ele manifesta essa paixão pelos desenhos que costumava fazer nas receitas médicas de seu pai, utilizando o carvão como instrumento.

Eu ainda me lembro de estar deitado no chão, quando tinha sete anos de idade, e desenhar com um pedaço de carvão pessoas cegas […] desenhos de grande formato. Lembro o prazer que tinha no trabalho e como sentia de longe mais energia na minha mão do que quando desenhava no verso das receitas de meu pai. (MUNCH apud BISCHOFF, 2006, p. 8)

Não obstante às adversidades que a vida oferece a todas as famílias, a de Munch sofreu a perda de sua mãe e sua irmã Sophie de tuberculose quando ele ainda era jovem. Além disso, problemas de saúde, como a depressão, se fizeram presentes durante toda a vida do pintor. Esses sentimentos não o impediram de seguir o caminho das artes, pelo contrário, serviram de “pontapé”, de impulso, uma vez que esses sentimentos são expressos em sua arte (BEZERRA, 2009, p. 3).

Em sua obra mais conhecida, O grito, cujo primeiro exemplar data do ano de 1893, a expressão dos sentimentos do artista pode ser facilmente evidenciada. Possuindo em torno de 91 x 74 cm, o primeiro exemplar é feito em óleo. Percebe-se na gravura a existência de um ser em primeiro plano e outros dois seres, os quais não podem ser definidos sendo homens ou mulheres, em uma ponte, e ao fundo um pôr do sol em que as cores muito chamam a atenção.

A obra é retratada sobre uma ponte que se “mantém reta, numa linha diagonal que começa no canto inferior direito e segue até a parte superior esquerda do quadro” (BEZERRA, 2009, p. 3). Nesse local se encontram três seres, sendo um em uma maior dimensão, dando a ideia de proximidade, e dois de tamanho menor, aparentando certo distanciamento. O posicionamento dos seres dá à obra, de certo modo, a impressão de profundidade criada com a perspectiva.

O primeiro ser encontra-se em destaque na obra. Com o olhar fixo no expectador, com os olhos e boca bem arregalados, com as mãos em seu rosto, portando vestes largas e de cor bem escura, sendo também calvo e magro, esse ser causa grande estranhamento àqueles que se defrontam com a obra. Ademais, de forma atípica, é perceptível na pintura deformações no corpo.

Vemos no primeiro plano um corpo sinuosamente deformado. Seu rosto em forma de uma pêra invertida e sem cabelos, as duas mãos apertando as faces e tapando as orelhas, apresenta um aspecto cadavérico. Uma elipse mais escura ocupa violentamente o lugar da boca, o nariz são dois pontos escuros enquanto que os olhos são apenas sugeridos em cor um pouco mais clara que o ocre esverdeado que domina o rosto (MENEZES, 1993, p. 81).

Os dois seres presentes sobre a ponte, visíveis pelas costas, portam roupas escuras e encontram-se de forma indiferente em relação ao ser calvo que se encontra à frente. “Nos vários textos e versões de O Grito, Munch expressou sua sensação de isolamento ao enfatizar a distância que o separava de seus dois amigos, que continuavam a andar, não afetados pelo seu distúrbio interno” (TORJUSEN, 1989, p. 39).

Em relação ao panorama de fundo, o céu é retratado com cores avermelhadas, lembrando a cor de sangue e este espaço ganha a vez devido a essa presença forte das cores.

Este céu é vermelho cor de sangue, entremeado por alguns amarelos e verdes, onde a vibração das cores quase puras que se contrastam reforça, ainda mais, a vibração das ondas desenhadas que dominam este espaço. O fiorde, a terra e a vegetação estão pintadas em azuis, verdes e marrons, mais fortes e claros nas têmperas, mais esmaecidos no óleo e no cartão (lápis). (MENEZES, 1993, p. 81)

Diante das descrições da obra, pode-se perceber claramente como o autor expressa seus sentimentos através dos seus traços artísticos. Há claramente uma comunicação entre aquilo que é subjetivo ao autor e a sua produção. Suas obras possuem características singulares, que falam e expressam vários sentimentos e temas existenciais como vida, morte, desespero. Sabe-se que para ele “[…] uma obra de arte só pode provir do interior do homem” (MUNCH, 1988 apud MENEZES, 1993, p.73)

As cores fortes, os traços robustos e as distorções nas formas, além do como são apresentadas as figurações, causam no receptor uma experiência subjetiva, através de um turbilhão de sentimentos. Em um primeiro momento, o receptor choca-se com a expressão do ser que toma destaque na ilustração. A constante vibração e tensão produzida, diz muito sobre o que também pode estar presente no interior desse ser identificável: “Tudo vibra como em consonância com um grito abissal que pareceria provir das profundezas do homem” (MENEZES, 1993, p. 81).

Em seu diário, Edvard Munch, apresenta aquilo que poderia ter, segundo Bischoff (2006), impulsionado a produção dessa obra:

Estava a passear cá fora com dois amigos, e o sol começava a pôr-se – de repente o céu ficou vermelho, cor de sangue – parei, sentia-me exausto e apoiei-me em uma cerca – havia um sangue e línguas de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade – os meus amigos continuaram a andar e ali fiquei, de pé, a tremer de medo – e senti um grito infindável a atravessar a Natureza (MUNCH, apud  BISCHOFF, 2006, p. 53).

Deste modo, com a obra O Grito, percebe-se fortemente como a influência do movimento expressionista se encontra presente na elaboração da obra, uma vez que há certa materialização dos sentimentos do autor e fomenta uma visão subjetiva a partir do choque causado ao receptor. Ao deixar vir à tona seus sentimentos e expressar sua liberdade artística, o artista, de forma clara, evidencia sua autonomia estética.

CONCLUSÃO

Por meio da abordagem do presente trabalho, percebe-se que as rupturas, as diversas transformações e fragmentações políticas, sociais, econômicas e metodológicas que tomaram o mundo e principalmente a Europa no findar do séc. XIX e inicio do séc. XX tiveram grande influência no surgimento e na caracterização dos movimentos de vanguarda. Além disso, percebe-se essas modificações expressas nas produções expressionistas, incluindo a obra “O Grito” de Edvard Munch.

O estranhamento e choque produzidos pela obra, principal impulso para a elaboração da pesquisa, podem ser diretamente relacionados ao movimento artístico no qual o criador e sua obra se inserem. Ver o modo com que as problemáticas históricas, principalmente a fragmentação, influenciam em todos os âmbitos de produção, inclusive artístico, foi de grande relevância. Ademais, perceber certa valorização das experiências presentes em cada sujeito, seja o artista e ou receptor, na significação da obra é um importante passo na criação de uma autonomia estética e emancipação artística desvinculada de valores e signos transcendentes a obra e seu idealizador.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS:

Referências primárias:

BEZERRA, Alessandro Paciello de Castro. O grito e o mundo contemporâneo: de Munch aos Emos. 2009. 15 f. Comunicação – X Congresso de Ciências das Comunicação na Região Sul   Blumenau. 28 a 30 de maio de 2009.  Disponivel em: <http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2009/resumos/R16-0649-1.pdf> Acesso em 06 de jun. 2020.

BÜRGER, Peter. Teoria da Vanguarda. Trad. José Pedro Antunes. São Paulo: Cosac Naify, 2008;

MENEZES, Paulo Roberto Arruda de. A pintura trágica de Edvard Munch: um ensaio sobre a pintura e as marteladas de Nietzsche. Tempo Social, v.5, n 1 e 2, p. 67-111, São Paulo. Nov 1993. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/ts/v5n1-2/0103-2070-ts-05-02-0067.pdf> Acesso em 04 de jun. 2020.

NOLETO, L. Diálogos com o Expressionismo a partir de Adorno e Benjamin. Pólemos,  Brasília, v. 1, n. 2, p. 142-158, dez. 2012.  Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/polemos/article/view/11534/10150> Acesso em 14 de abr. 2020. 

Referências Secundárias:

BEHR, Shulamith. Expressionismo. São Paulo: Cosac e Naify. 2000

BISCHOFF. Ulrich. Edvard Munch: Imagens de vida e de morte. São Paulo:  Paisagem, 2006.

MARTINS, Simone R.; IMBROISI, Margaret H. Impressionismo. Disponível em: <http://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-seculo-19/impressionismo/>. Acesso em 02 de jun. 2020.

O GRITO- Edvard Munch. In: Arte e Artistas. Jan. 2019. Disponível em:<https://arteeartistas.com.br/o-grito-edvard-munch/>  Acesso em 04 de jun. 2020

SEPE, Fernando. A teoria da vanguarda de Peter Bürger. Exagium,Ouro Preto, 11 ed., p. 45-55, Jun. 2013. Disponivel em <www.revistaexagium.ufop.br>  Acesso em 14 de abr. 2020. 

TORJUSEN, Bente. (1989) Words and images of Edvard Munch. London, Thames and Hudson, Ltda. (BEHR, 2000:7).

VANGUARDAS EUROPÉIAS. In: Mundo da Educação. Disponível em: < https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/vanguardas-europeias.htm>. Acesso em 02 de jun. 2020. 


[1] MARTINS, Simone R.; IMBROISI, Margaret H. Impressionismo. Disponível em: <http://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-seculo-19/impressionismo/>. Acesso em 02 de jun. 2020.

[2] Refere-se propriamente aos artistas desse período da vanguarda.

O Grito, Edvard Munch (1893).

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