Ihudison de Paula Coelho

Graduação, aulas, estudos de obras da filosofia, trabalhos, entre outros. Será que tudo o que se aprende faz com que se formem filósofos ou historiadores da filosofia? Questionamento intrigante. Este é problema desenvolvido pelo filósofo Oswaldo Porchat Pereira em seu texto intitulado Discurso aos estudantes sobre pesquisa em Filosofia.

O problema e as formas de interpretá-lo

Mas, o referido problema baseia-se, segundo o autor, no método como é ensinada a filosofia nas salas de aula. Muito influencia o método estruturalista francês de leitura, o qual “impõe-se seguramente a necessidade metodológica de deixar de lado as posições pessoais, os pontos de vista filosóficos que eventualmente se tenham” (PORCHAT, 2006, p. 20).

Ou seja, no caminho de formação do estudante é como que “imposto” a deixar de lado suas posições e opiniões para que possa fazer uma boa leitura e análise das obras filosóficas. Porém, de outro lado, corre-se também um certo risco de preconceito contra este método, ao se anunciar uma argumentação superficial dos problemas que surgem (p. 20), procurando interpretá-lo com base nos posicionamentos pessoais.

A partir daí, toma tônica no problema o fato de, no curso de filosofia, os professores estarem apagando as motivações e opiniões filosóficas dos estudantes, de modo a se centrar diretamente na questão filosófica a qual estão estudando, por meio das obras (estruturalismo) e da erudição do docente, com sua “autoridade magistral” (p. 31).

A saída “porchatiana” para o problema

Segundo o autor, o modo para se resolver essa problemática seria uma nova forma de se ensinar e aprender filosofia, na qual uma iniciação historiográfica se faz, sim, necessária, nas principais temáticas da filosofia. Além disso, o autor propõe que:

Se deve dar maior atenção […], aos autores contemporâneos, às tendências principais do pensamento filosófico de nossos dias, às suas várias linhas de força, incentivando nossos alunos a se interessarem por elas e a trabalhá-las. Porque é infelizmente possível, entre nós, terminar a Graduação em Filosofia não tendo lido nem trabalho nenhum, ou quase nenhum, dos temas de que se ocupam os filósofos que neste mesmo momento estão em nosso mundo propondo seus filosofemas. (PORCHAT, 2006, p. 25-26).

Assim, os estudantes de filosofia, por meio de seminários, aulas, trabalhos, se confrontariam com o novo, com as realidades e problemas que os cercam, sem medo de questionarem e exporem suas questões.

A História da Filosofia – Bases para o pensamento

Torna-se agora necessário afirmar, por outro lado, a importância da História da Filosofia para o pensamento. Parece, cabível, ressaltar a origem grega da filosofia, de modo a se tornar o baluarte para o pensamento ocidental. Foram os pensamentos dos primeiros filósofos, a necessidade de entender o cosmos e as origens das coisas, que fizeram com que a filosofia se tornasse esse espaço de perguntas, problemas e de uma sede incrível pelo saber.

O pensamento grego também traz consigo a atualidade de questões ainda hoje inquietantes como o sentido da vida, o sentido do ser humano, entre outras.  Por isso, não podemos desconsiderar, ou mesmo tratá-lo sem sua importância para a filosofia pois, “é o encontro entre o pensamento dos filósofos antigos e o nosso próprio horizonte cultural que faz surgir um ditado novo e original” (BOTTER, 2013, p. 30).

Riscos: arcaísmo e atualismo

Todavia, há de se considerar alguns riscos os quais, o problema, se a história da filosofia é filosófica ou não, pode gerar. Primeiro, o arcaísmo, ou seja, o perigo de se ficar preso aos filósofos antigos, fazendo com que os problemas atuais, aqueles que vão surgindo, tenham a análise, ou mesmo todas as respostas na filosofia antiga. Isso constitui uma recusa dogmática ao novo, aos pensadores que foram desenvolvendo o pensamento filosófico ao longo da história.

Em segundo lugar, corre-se o risco de um certo atualismo, ou seja, o enfoque desmedido e cego aos filósofos da atualidade, bem como suas filosofias para os problemas contemporâneos, desprezando todos os outros pensamentos anteriores, e concebendo, assim, a figura central de uma filosofia da atualidade como resposta única para os problemas que nos cercam.

Conclusão

Afinal, a história da filosofia é filosófica ou não? Depende. Ela não é, a partir do momento em que prende-se na história, reduzindo o status questionis aos dados historiográficos, sendo em vez de uma pensadora, uma historiadora, ou mesmo ao propor a filosofia contemporânea como única resposta a todos os problemas.

Ela, porém, é, na medida em que não se prende ao simples fator histórico, mas procura dar atenção às questões e aos problemas que lhe aparecem, discutindo-os continuamente. Realiza-se, portanto, uma desconstrução e autoconstrução quotidiana, possibilitando um confronto entre as diversas fases da filosofia, contribuindo, desse modo, para o movimento do pensar rumo ao conhecimento.

Referências Bibliográficas

PORCHAT, Oswaldo Pereira. Discurso aos estudantes sobre pesquisa em Filosofia. Fundamento, Ouro Preto, v. 1, n. 1, p. 18-33, set./dez. 2010. Disponível em: <http://www.revistafundamento.ufop.br/index.php/fundamento/article/view/13/4> Acesso em: 13 ago. 2019.

BOTTER, Bárbara. Fazer filosofia: aprendendo a pensar com os primeiros filósofos. São Paulo: Paulus, 2013

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