Emanuel Tadeu Dias Teixeira*

Resumo: O presente artigo tem por objetivo discorrer sobre a doutrina das ideias do pensamento de Platão, relatando suas principais características começando pela origem da segunda navegação que possibilitou o surgimento de tal teoria. Depois a explicação do mundo das ideias, também chamado de Hiperurânio, onde essas estão situadas de forma hierárquica e por fim, a definição platônica de ideia e também sua origem a partir do principio superior chamado de Uno nas doutrinas não escritas. Será dada ênfase apenas ao mundo inteligível onde habitam as ideias. O texto desse trabalho acadêmico foi escrito de forma dissertativa com citações que ajudam a confirmar a tese proposta e esclarecer o pensamento acerca do assunto abordado.

Palavras-chave: Inteligível. Hiperurânio. Definição. Hierarquia. Origem.

INTRODUÇÃO

Platão foi um grande filósofo da Grécia antiga e seu pensamento teve grande influência sobre os posteriores pensadores. Uma de suas maiores contribuições foi a criação do mundo das Ideias que mostrou uma visão que difere das anteriores, às quais buscavam a origem do universo no cosmo sensível. Na verdade era mais uma cosmologia do que propriamente filosofia.

Platão, com sua descoberta, criou o mundo inteligível, uma realidade que está além da física e da qual se origina tudo que está no sensível, sendo este cópia daquele. Essa realidade imaterial é causa da material e consiste na verdadeira essência que existe “por si e em si”. Essa conquista foi sem dúvida alguma um grande avanço para a metafísica.

O presente artigo explicará em que consiste a doutrina das Ideias de Platão, começando pelo descobrimento da segunda navegação que permitiu afirmar a existência de uma realidade metafísica, passando pelas provas que levaram o referido filósofo grego à evidência do suprafísico e suas influências. Depois, será feita a explicação do mundo das Ideias ou Hiperurânio a partir de sua constituição e da definição platônica de Ideia, pois, para Platão, ela tem uma diferença em relação a nossa definição hodierna.

Prosseguirá o trabalho com a explicação da forma que é estruturado o mundo das Ideias e como acontece a gênese das mesmas.

O objetivo principal desse trabalho é entender a referida teoria platônica e mostrar a importância dela para o pensamento filosófico. Para isso, foi utilizado o modo dissertativo com citações que enriquecem o artigo.

1. Segunda Navegação

Uma das grandes descobertas de Platão que deu uma enorme contribuição para a metafísica foi a descoberta de uma realidade superior ao mundo sensível, uma dimensão que está além da física. Antes com os filósofos da physis, o princípio originário era pensado apenas como um elemento sensível, físico como é o caso de Tales de Mileto, que atribui ao elemento “água” a arché universal do cosmo. Platão com seu pensamento deu um longo avanço apontando as verdadeiras causas desse mundo como algo além do que se pensava antes, isto é, além do sensível. A essa descoberta o filósofo grego deu o nome de segunda navegação. Essa comparação é referente aos hábitos marítimos; a primeira navegação se refere ao sensível como, por exemplo, o vento que sopra as velas do barco. Quando esses cessam, faz se necessário recorrer à força através dos remos que simbolizam a libertação dos sentidos para um raciocínio puro que irá captar o que é próprio do intelecto e da mente.

Para chegar à conclusão do mundo inteligível, Platão percebeu duas coisas. A primeira é que para se falar de uma ideia era necessário explicar o porquê, um exemplo é o do belo. Para explicar a origem deste é necessário recorrer a elementos da física, tais como, cor, figura e outros. Sendo assim, ele pensou que devia haver uma ideia, em si, que é a causa verdadeira de todas as outras. No caso do exemplo, que é o fundamento de toda a ideia do que é belo e da qual as outras participam, essa ideia que, por isso, deve ser inteligível e uma forma pura.

Não estou a enunciar nenhuma novidade, mas apenas a repetir o que, em outras ocasiões como na pesquisa passada, tenho me fatigado de dizer. Tentarei mostrar-te a espécie de causa que descobri. Volto a uma teoria que já muitas vezes discuti e por ela começo: suponho que há um belo, um bom, e um grande em si, e do mesmo modo as demais coisas. […] Para mim é evidente: quando além do belo em si, existe um outro belo, este é belo porque participa daquele apenas por isso e nenhuma outra causa. (PLATÃO, Fédon, 100b-c.).

O segundo argumento para se chegar ao mundo suprassensível é referente ao mestre de Platão. Sócrates está preso, não por causa de seu corpo que se locomoveu para o cárcere, não é de ordem mecânica e material sua prisão, mas de ordem superior, referente a um valor espiritual e moral. É devido à obediência tanto das leis como dos juízes de Atenas que ele se direcionou para o lugar onde se encontrava cativo.

Depois de descobrir o que está além da física, Platão criou o mundo das ideias que foi a junção do pensamento de Heráclito de Éfeso com o de Parmênides. O primeiro afirmava que tudo estava sujeito ao devir, isto é, Panta Rhei, que significa que tudo flui, move e está em constante mudança. O segundo, que pertencia à escola eleática, afirma o contrário do seu anterior. Ele disse que o ser é eterno, imutável e infinito, não estando sujeito a mudanças. Platão, com sua teoria do suprassensível, une os dois pensamentos e forma o mundo sensível, sujeito à mudança e o inteligível, imutável. “A distinção entre dois planos de ser, o sensível e o inteligível, superava definitivamente a antítese entre Heráclito e Parmênides” (REALE; ANTISERI, 2012, p. 138).

2. O Mundo das Ideias ou Hiperurânio

Como foi dito, Platão divide a realidade em duas: o mundo sensível e o inteligível. O primeiro é o qual se habita atualmente e é acessível pelos sentidos; ao contrário, o segundo só é acessado pelo intelecto, o que exige mais esforço do sujeito cognoscente.

O primeiro passo para se entender o mundo das Ideias, ou seja, o mundo inteligível, é a partir de sua própria constituição. O suprassensível ou Hiperurânio , termo que é utilizado no Fedro, é constituído por um conjunto de Ideias que são a verdadeira causa de todas as coisas e que estão dispostas de forma hierárquica na sua organização. Para compreender então o referido mundo, faz-se necessário entender o que Platão inferia sobre o termo ideia, já que atualmente a definição dessa palavra é vista de forma distinta da sua.

2.1. Definição platônica de Ideia

No pensamento platônico, as ideias são pensadas de forma diferente do modelo que são definidas na modernidade. Para o referido filósofo grego as Ideias são uma realidade inteligível, causas de natureza não físicas. Elas representam, pois, entidades, substâncias, o verdadeiro ser, sendo, por isso, as essências das coisas, pois fazem com que cada uma seja aquilo que é tornando-se, então, o modelo permanente de cada coisa. A tradução mais correta para Ideia seria a de “forma”, pois ela constitui o verdadeiro ser. “Platão (…) com ‘Ideia’ entendia em certo sentido, algo que constitui o objeto específico do pensamento, ou seja, aquilo a que o pensamento se dirige de modo puro, sem o que o pensamento não seria pensamento” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 139).

Uma expressão platônica ímpar para explicar as Ideias é “em si e por si”. Essa expressão significa que as Ideias são estáveis, não relativas, se refere ao caráter absoluto delas. Afirmar isso é dizer que elas se impõem ao homem de modo absoluto, não dependendo de sua percepção e sendo mais verdadeiras do que o próprio indivíduo. No pensamento platônico existe, por exemplo, o belo por si mesmo, o bem em si mesmo, o justo em si mesmo e as realidades sensíveis participam da Ideia de belo, bondade e justiça.

As ideias habitam o Hiperurânio e por isso são dotadas de características que as impossibilitam de qualquer relação com o físico como é afirmado na obra Fedro (1973, 247-c, p. 322), “Esse lugar supraceleste (…). Eis como ele é: o Ser realmente existente, que não tem forma, nem cor, nem se pode tocar, e visível apenas ao piloto da alma, a inteligência, aquele que é objeto do verdadeiro saber, é esse que habita tal lugar”. Desse modo, essa realidade imutável e verdadeira só pode ser alcançada pelo esforço intelectual em um processo de ascese do conhecimento chamado ciência da dialética que ajuda o homem a se elevar das imagens (Eikones) até as Formas ou Ideias (Noetas superiores) num processo ascendente que vai do sensível para o suprassensível.

2.2. Estruturação do Mundo das Ideias

Como já fora dito, o mundo inteligível é composto por inúmeras ideias, a saber: ideias de valores estéticos, morais, realidades corpóreas e outras. Elas são imutáveis e causas de toda realidade sensível. Estão dispostas de forma hierárquica no mundo eterno, das ideias inferiores até a Ideia que ocupa o vértice da hierarquia. A Ideia que ocupa o topo é a de Bem, esse que é princípio supremo e condiciona todas as outras Ideias, as tornam cognoscíveis, faz a mente capaz de conhecer e produz o ser e a substância.

(…) uma vez que já me ouviste afirmar com frequência que a ideia do bem é a mais elevada das ciências, e que para ela é que a justiça e as outras virtudes se tornam úteis e valiosas. E agora já calculas mais ou menos que é isso que vou dizer, e, além disso, que não conhecêssemos suficientemente essa ideia. (PLATÃO, República, VI, 505a).

Platão em sua obra A República faz uma analogia para explicar como a Ideia de Bem age em relação às outras ideias. Ele compara o Bem ao sol. Assim, como no mundo visível o astro rei com sua luz clareia os objetos da visão e os fazem visíveis para o sujeito enxergá-los, a Ideia de Bem com a verdade torna o mundo inteligível cognoscível e o espírito inteligente para o sujeito conhecer os objetos do conhecimento. O Bem é então “a causa do saber e da verdade, na medida em que está é conhecida” (PLATÃO, República, VI, 509a).

Se na República Platão chama o princípio supremo de Bem, nas doutrinas não escritas é nomeado de Uno. A diferença está no fato de o Uno sintetizar o Bem e este ser um aspecto funcional daquele. Abaixo do Uno encontra-se a Díade, que é um princípio originário de ordem inferior podendo ser chamado também de dualidade indefinida ou princípio indeterminado e ilimitado.

2.3. Origem das Ideias

As Ideias, apesar de serem causa de tudo que existe no mundo sensível, tem sua origem na Ideia superior. O nascimento delas acontece a partir da colaboração do Um e da Díade. O processo acontece da seguinte forma: o Um usando do Bem, que é seu aspecto funcional, age sobre a Díade (multiplicidade ilimitada) como princípio limitante e determinante (princípio formal). O resultado dessa ação é a geração da Ideia (Eidos), ou melhor, de todas as Ideias. “cada uma e todas as Ideias surgem como resultado de uma “mistura” dos dois princípios (delimitação de um ilimitado)” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 142).

CONCLUSÃO

Observando a doutrina platônica das Ideias, percebe-se com clareza a densidade do pensamento de Platão. Analisando a realidade que o cercava, ele percebeu que a causa do sensível provavelmente deveria ser algo que não fosse físico, mas que tinha maior valor, o verdadeiro ser que, sendo inteligível, gera tudo que se tem nesse mundo. A dialética foi usada, então, para se partir de uma realidade efêmera para contemplar a eterna, o fundamento do visível, o absoluto através e unicamente pelo intelecto. As Ideias são, pois, seres que existem por si próprios e que dão existência a outras realidades por participação. O Bem é a Ideia Principal na República e, o Uno, nas doutrinas não escritas e este usando daquele e agindo sobre a Díade forma as Ideias. O pensamento platônico constitui um vasto campo a ser aprofundado devido a sua contribuição tão relevante para a filosofia.

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução Alfredo Bosi. 5. ed. rev. ampl. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Disponível em: <http:// charlezine.com.br/wp-content/…/Dicionario-de-Filosofia-Nicola-ABBAGNANO.pdf>Acesso em: 18 de maio 2016.

PLATÃO. A República. Tradução Maria Helena da Rocha Pereira. 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1949.

______. Fédon. Tradução Jorge Paleikat e João Cruz Costa. Os Pensadores. Porto Alegre: Abril Cultural, 1972.

______. Fedro. Tradução Manuel de Oliveira Pulquério et al. Lisboa-São Paulo: Verbo, 1973.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 3.ed. São Paulo: Paulus, 2007.

NOTAS:

* Bacharelando em Filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana- FAM.
1 Hiperurânio: A região “além do céu”, na qual, segundo o mito encontrado em Fedro (247 ss.), residem as substâncias imutáveis que são objetos da ciência. Trata-se de uma região não espacial, já que, para os antigos, o céu encerrava todo o espaço e além do céu não haveria espaço. (Abbagnano, 1998, p.500)

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