Geovane Macedo da Costa*

Resumo: O presente artigo tem a intenção de abordar o surgimento da pólis e quais foram as contribuições deste acontecimento para a organização das civilizações arcaicas. Dessa forma, é preciso perpassar também os antecedentes da cidade grega para melhor analisar os efeitos desse acontecimento, visto que acaba por influenciar em outros âmbitos e inaugura uma nova forma de pensar e reger a sociedade. Tal estudo é importante, porque ajuda a remontar o período de surgimento da Filosofia e colabora no entendimento do mecanismo das cidades que herdam da cultura grega sua forma de organização e sua maneira de pensar a sociedade.
Palavras-chave: Pólis. Acontecimento. Grécia. Pensamento. Civilização.

INTRODUÇÃO

Entender o sistema da cidade onde vivemos, sua estrutura política, econômica e social é algo cada vez mais necessário para sobreviver à era da globalização. Compreender os conceitos de isonomia e isegoria se faz extremamente útil, devido à má experiência com escândalos políticos e corrupções. Por essas e outras razões, é relevante tratar sobre o tema da pólis e como ela influenciou diretamente no pensamento grego.
Ao contrário do que se pode pensar, é uma temática que se faz atual devido ao fato de que, guardadas as proporções, muitos aspectos do mundo contemporâneo foram herdados da Grécia Antiga.
O advento da filosofia, a sistematização da linguagem, a pluralidade do conhecimento e a desmistificação dos mistérios da religião são apenas algumas mudanças ocorridas do sistema tribal para a pólis. Todos esses aspectos, em conjunto, montam um panorama do que representou o aparecimento da cidade-estado como nova forma de organização social na Grécia Antiga.
O presente artigo aborda a temática através da análise de escritos de autores de referência no assunto e ainda divide o desenvolvimento em três tópicos que ajudam a entender um pouco da diversidade dos fatos que ajudaram no processo de consolidação da pólis.

1.OS ANTECEDENTES DA PÓLIS

Reconhecer o pano de fundo da polis é importante para esboçar os motivos pelos quais ela foi um acontecimento decisivo no pensamento grego, mas não se trata de apenas fazer um “antes e depois”, mas de uma apresentação do contexto em que se dá o “aparecimento da polis” . Segundo (VOEGELIN, 2009), as migrações fazem parte dessa época pré-pólis, em que novas unidades sociais iam surgindo conforme os deslocamentos populacionais.
Na leitura desse mesmo autor, é possível identificar que existe um processo denominado sinecismo pelo qual a polis foi fundada. Tal mecanismo ocorre no contexto da era tribal e o autor deixa isso bem claro no seguinte excerto:
[…] a era tribal deixou uma marca na estrutura da polis, profunda o bastante para se tornar um fator decisivo na conformação de sua história interna e externa até o fim no triunfo macedônio, na medida em que a polis preservou a ordem do parentesco sanguíneo em suas subdivisões, por mais fictício que tal parentesco tenha se tornado ao longo do tempo. (VOEGELIN, 2009, p. 189)
Com isso, o autor se refere também a um contexto de diferenças entre duas ocasiões: Esparta e Atenas. A primeira na emergência da revolta messênia; a segunda em paralisia social e econômica resultante da escravidão. Sólon descrevia as dificuldades da polis em seus poemas e, assim, estimulava a preservação de sua unidade através da denúncia de uma Atenas em crise. Por meio do ethos e do seu pensamento, construiu a base do universo espiritual da pólis, pois antes de ocorrer na prática, ela deveria ser pensada para evitar os equívocos de uma sociedade em crise .
Eric Voegelin ainda fala de outro processo dentro da polis, que é a simpoliteia, ou seja, “a extensão da cidadania à população da área campestre circundante ou das outras pólis” (VOEGELIN, 2009, p. 195). É como se fosse um embrião de democracia aliado também às atividades que dizem respeito ao cidadão, isto é, a cidade começava a ganhar forma através de algumas idéias que organizavam as estruturas políticas e econômicas. Porém, esta análise não deve ser feita de modo atemporal, já que os conceitos de cidadania e democracia nas civilizações arcaicas não são correspondentes aos do mundo moderno.
Outro fator antecedente à pólis, e que se faz importante citar, é o fracasso das ligas. Tal movimento de defesa das tribos ganhou força durante as Guerras Persas, formando, até mesmo, grandes confederações entre as pólis. No entanto, as ligas fracassaram devido à diminuição do perigo e da degeneração em uniões sustentadas apenas pela força.
Sob este aspecto, encontramos pensamentos de Sólon que dizem respeito ao destino da pólis, que, na ausência do respeito aos fundamentos da dike, acabam por corromper o sistema de uma pólis justa. Analogamente, Tirteu propõe o conceito de bravura impetuosa que seria portada pelo chefe a fim de guiar a cidade-estado de forma a manter a ordem:
A bravura cantada por Tirteu manterá a polis em existência numa crise nefasta, mas não consiste numa virtude da ordem cívica. Certamente, não é inteiramente desprovida de conteúdo ordenador, pois a bravura do cidadão-soldado já pressupõe uma democratização da sociedade em comparação com a aristocracia homérica. (VOEGELIN, 2009, p. 269)
Essa bravura seria então parte constituinte da arete de um bom homem para estar no comando da pólis. Tais ideais são encontrados na elegia de Sólon, que faz uma exortação ao fortalecimento interno da pólis e uma crítica aos cidadãos e “chefes do povo” .
Em suma, temos aqui um novo pensamento: o rei não muda só de nome, mas também de natureza, visto que a realeza “cede de fato o lugar a um estado aristocrático” e “a basiléia não era mais, desde então, a realeza micênica”, de acordo com o pensamento de Jean Pierre Vernant, no terceiro capítulo de As origens do pensamento grego. Com essa mudança, tudo estava consolidado para o surgimento da pólis. O próximo passo é analisar como a pólis se sustentou através desse novo contexto e nesse novo modo de organizar as cidades.

2. O PROCESSO DE CONSOLIDAÇÃO DA PÓLIS

Derrubar o muro das tribos, sair do privado para o coletivo, certamente não foi um processo repentino e muito menos fácil de aceitar, principalmente no âmbito ideológico em que um grupo de iguais é privilegiado dentro da pólis. Dessa forma, o surgimento da pólis causou um impacto muito grande na mentalidade da aristocracia guerreira da Grécia, pois “o Estado é precisamente o que se despojou de todo caráter privado, particular, o que, escapando da alçada dos gene, já aparece como a questão de todos.” (VERNANT, 1977, p. 50)
Não bastaria, porém, a pólis ficar apenas no âmbito discursivo. Era preciso que ela florescesse e trouxesse novo sentido à civilização grega. Dessa forma:
As construções urbanas não são mais, com efeito, agrupadas como antes em torno de um palácio real, cercado de fortificações. A cidade está agora centralizada na Ágora, espaço comum, sede da Hestia Koiné, espaço público em que são debatidos os problemas de interesse geral. É a própria cidade que se cerca de muralhas, protegendo e delimitando em sua totalidade o grupo humano que a constitui. (VERNANT, 1977, p. 51)
Com isso, podemos perceber um importante elemento de sustentação da pólis: a praça pública, e que a partir da sua existência, a pólis já existe no sentido pleno do termo.
Cabe agora também destacar aspectos culturais e religiosos que contribuem muito para a formação da identidade da pólis emergente. No âmbito cultural, por exemplo, os conhecimentos, os valores e as técnicas mentais são levados à praça pública, estando todos eles sujeitos à crítica e à controvérsia, ou seja, essas dimensões não estariam mais subordinadas à lógica do poder. No âmbito religioso, tem-se a presença das religiões secretas, que se caracterizam por seitas, confrarias e mistério; na prática, são grupos fechados e hierarquizados, comportando escalas e graus. O objetivo delas era selecionar um grupo de eleitos com privilégios não acessíveis ao comum.
A polis proporcionou uma nova forma para a vida social e para as relações entre os homens. Com o advento da cidade-estado, o homem recebe o bios politikos, além de sua vida privada. Dessa forma, passa a conduzir a pólis de acordo com o seguinte esquema proposto por Sônia Maria Viegas Andrade, em artigo publicado na revista Kriterion:
13140741_999852073397628_1581925273_nA ciência política e da natureza produzida pela pólis estão voltadas para a harmonia que pertence ao micro e ao macrocosmo. A primeira tentará justificar a legalidade da pólis, ou seja, descobrir o lugar de cada elemento dentro da cidade-estado e fazer com que o todo seja refletido em cada elemento. Já a ciência da natureza fará o sistema racional da physis na medida em que se efetiva o logos fundador.
Em outras palavras, o processo de consolidação da pólis vai se dar a partir do momento em que ela se valer da força dialogante da palavra. A individualidade do homem causada pelos muros da era tribal entra, então, em extinção para dar lugar à pedagogia do diálogo que fomentará uma cidade-estado cada vez mais aberta aos valores, conhecimentos e técnicas mentais, rompendo também com o sistema patriarcal que era subsidiado pelas guerras e conflitos e valorizava o individualismo como modelo de vida.
É preciso ainda reiterar que é a natureza de microcosmo interligado ao macrocosmo que deu à pólis um tom de comunidade universal e não a grandiosidade e fantasias das formas de poder. Quando se diz em natureza microcósmica da pólis, volta-se na época pré-pólis em que as tribos se organizavam em famílias. Aliando isso ao macrocosmo, desponta na Grécia uma cidade-estado que emanciparia a esfera política do domínio religioso-familiar. Dessa forma, tem-se então a consolidação da pólis a partir dos diversos elementos apontados neste tópico.

3.PÓLIS: UM ACONTECIMENTO DECISIVO

Todos esses fatores apontados até agora constituem fatores decisivos que designaram o surgimento da pólis, que influenciou diretamente o pensamento grego em diversos âmbitos. “A vida e as relações entre os homens tomam uma forma nova, cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos.” (VERNANT, 1977, p. 53)
A pólis é acontecimento decisivo, porque distinguiu um domínio público em dois sentidos: um setor de interesse comum que se opôs a processos secretos (e nesse contexto surge a Filosofia). Se a pólis nasce entre os séculos VII e VIII a.C., é nesse tempo também que temos os primeiros filósofos que debatem a origem das coisas na physis, perante uma posição ambígua tanto em seus métodos quanto em sua inspiração: fica entre as iniciações dos mistérios e as controvérsias da ágora; entre o espírito de segredo próprio das seitas e a publicidade do debate contraditório da atividade política .
A pólis é ainda o lugar do filósofo, o ambiente da oscilação de atitudes. Isso é descrito por Vernant:
O filósofo não deixará de oscilar entre duas atitudes, de hesitar entre duas tentações contrárias. Ora afirmará ser o único qualificado para dirigir o Estado e, tomando orgulhosamente a posição do rei-divino, pretenderá em nome desse “saber” que o leva acima dos homens, reformar toda a vida social e ordenar soberanamente a cidade. Ora ele se retirará do mundo para recolher-se numa sabedoria puramente privada; agrupando em torno de si alguns discípulos desejará com eles instaurar na cidade, uma cidade diferente, à margem da primeira e, renunciando à vida pública, buscará sua salvação no conhecimento e na contemplação. (VERNANT, 1977, p.64)
A partir da consolidação da pólis, temos também a formação de um mundo humano marcado pela separação entre legalidade e justiça a partir dos basileus, enquanto o patriarcado enxergava esses dois conceitos de forma única. A dike (justiça) seria decidida através dos debates; o conhecimento ganharia um âmbito mais público e até mesmo a religião abandona os mistérios através dos cultos oficiais. Nas práticas políticas, é importante destacar o início da isonomia (igualdade de direitos e deveres) e da isegoria (direito à voz na assembleia dos cidadãos) .

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, diante de todos os pensamentos apontados, é possível afirmar que a pólis foi um acontecimento decisivo no pensamento grego na medida em que contribuiu para a inauguração de uma nova forma de pensar toda a estrutura de uma sociedade que, até então, era marcada pelo isolamento e pela privacidade.
A praça pública é prova concreta que, desde o início, a pólis apontava para uma nova forma de organizar a vida política, social e econômica. No entanto, é importante ressaltar que a pólis não expandiu até formar uma sociedade de cidadãos individuais, assim como aconteceu nos Estados ocidentais. De fato, o ocidente tem muitas heranças da Grécia Antiga nas diversas formas de organização social, porém o individualismo não advém do surgimento da pólis, mas sim da modernidade, marcada pelas Revoluções Industriais e Divisões Internacionais do Trabalho fundadas no Capitalismo.
É possível ainda citar a independência e autonomia das pólis gregas como uma nova forma de se pensar as estruturas, pois ao derrubar as muralhas da era tribal do período Homérico, inaugura-se também um jeito novo de pensar a política e a economia.
Em síntese, a abertura para novas experiências no universo espiritual da pólis é o ponto culminante para que o seu surgimento tenha se tornado um acontecimento decisivo no pensamento grego, pois essa abertura possibilitou que a sociedade daquele período vivenciasse os vários avanços nos seguintes âmbitos: cultural, político, econômico, lingüístico e social, formando assim a Grécia clássica como origem de grandes civilizações.

REFERÊNCIAS
ANDRADE, Sônia Maria Viegas. A cidade grega. Belo Horizonte: Kriterion, 1978.
FERNANDES, Frederico Augusto Garcia. De Tirteu e Sólon a Mano Brow: contrapontos entre os elementos discursivos da poesia oral. 2005. 8f. Artigo Científico. Doutor em Letras – Universidade Estadual de Londrina.
HYPNOS, São Paulo, número 26, 1º semestre 2011.
TAVARES, Roberto Ramalho. A evolução da pólis e da educação como conseqüência da evolução da ética grega, da fase arcaica à clássica. 2006. 10f. Artigo Científico. AEI – Organização de Ensino Superior de Itapetininga.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. 2.ed. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.
VOEGELIN, Eric. O mundo da pólis. Vol. II. São Paulo. Edições Loyola, 2009, 477p.

NOTAS
*Graduando em Filosofia na FAM
1 Termo usado por Jean Pierre Vernant em O Universo espiritual da polis.
2 Em sua obra O mundo da polis, Eric Voegelin trata do sinecismo e da estrutura gentílica no primeiro tópico do quarto capítulo, em que ele trata exclusivamente da polis helênica.
3 HYPNOS, São Paulo, número 26, 1º semestre 2011, p. 36-47
4 FERNANDES, 2005, p. 4.
5 Ideia retirada de: TAVARES, Roberto Ramalho. A evolução da pólis e da educação como conseqüência da evolução ética grega da fase arcaica à clássica. s/d. 10f. Artigo Científico. Professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e Especialista em Educação pela AEI-Organização Superior de Ensino de Itapetininga.
6 ANDRADE, Sônia Maria Viegas. A cidade grega. Belo Horizonte: Kriterion,1978.
7 VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. 2.ed. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca. p. 64. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.
8 Informações retiradas das anotações das aulas da disciplina de Cultura Grega (FIL 100), lecionada pelo Prof. Ms. Maurício de Assis Reis, na Faculdade Arquidiocesana de Mariana “Dom Luciano Mendes de Almeida

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *