Hércules Amorim Werneck¹

Resumo: O presente artigo falará de forma atenuada sobre alguns conceitos da psicanálise freudiana, seu pensamento a respeito da religião bem como suas justificativas sobre o surgimento e seu funcionamento na vida humana. Para falar da questão religiosa, Freud se vale justamente de sua teoria do desenvolvimento e aponta fatores desde a infância que culminam na criação de Deus e no surgimento da religião como meio de se esconder dos perigos e se iludir em uma farsa que seja protetora. Daremos atenção especial ao Complexo de Édipo, que fala do relacionamento da criança com os pais e, depois, alude ao relacionamento com a figura de Deus, e trataremos também do entendimento freudiano da cultura e da religião entendida de forma análoga como uma neurose.

Palavras chaves: Freud. Complexo de Édipo. Cultura. Religião. Deus.

INTRODUÇÃO

Quais as influencias que a religião pode ter na vida de um indivíduo? O psicanalista Carl Gustav Jung afirma sua importância e diz que a perda da fé pode significar até mesmo origem de doenças mentais, enquanto na autenticidade resulta em equilíbrio. Mas, a perspectiva freudiana dentro da discussão acerca da religião e de Deus é justamente outra. Podemos destacar Sigmund Freud como um combatente de tais perspectivas, afinal, sabemos que para ele a religião é vista como uma ilusão e uma farsa.

Mas com que base Freud afirma isso? A partir de pesquisas sobre alguns temas de sua teoria psicanalítica como o Complexo de Édipo e as neuroses conseguimos entender a base de sua crítica. Escrevemos, pois, este artigo a fim de explicar qual é e seus fundamentos. Tomamos por base o ensaio “Futuro de uma ilusão” de autoria do próprio autor estudado, e de comentadores, além do próprio conteúdo desenvolvido em sala de aula para tal trabalho.

O presente artigo se desenvolve então em três tópicos: no primeiro escreveremos sobre a cultura em Freud, no segundo trataremos sobre a religião observando-a sobre alguns aspectos como neurose universal e medida repressiva e, enfim, no terceiro tópico falaremos sobre o Complexo de Édipo, a religião e Deus, abordando a análise de Freud sobre o conflito primordial e o Deus judeu-cristão, a fim de compreendermos de modo mais amplo a religião e Deus no pensamento de Sigmund Freud.

1. A cultura segundo Freud

Iniciamos primeiramente falando das questões culturais em Freud, uma vez que, a partir deste ponto, ele entenderá e explicará o funcionamento da religião na vida do ser humano. Ele deixa bem claro que não diferencia cultura e civilização quando diz “me refiro a tudo aquilo que em vida humana se elevou acima de suas condições animais e se distingue da vida dos bichos” (FREUD. 2010, p. 23) e ainda “[…] e eu me recuso a separar cultura e civilização” (FREUD. 2010, p. 23).

Há dentro desse processo cultural dois caminhos que se cruzam. O primeiro é a capacidade de dominar as forças da natureza para sua satisfação e o segundo se dá nas instituições que regularizam as relações dos homens entre si. Essa interdependência se dá por três motivos, a saber: a satisfação dos impulsos, a contemplação do relacionamento com o outro como um bem, seja através de sua força de trabalho ou a nível sexual e, em terceiro lugar, porque toda e qualquer pessoa é inimiga da cultura.

Freud considera que, por mais que os indivíduos não sobrevivam sós, lhes é penosa a cultura e a vida social. Na verdade, cada pessoa tem seus desejos próprios que, vivendo em comum, devem ser reprimidos a fim de não causar repúdio e rebeliões no âmbito social. Segundo ele, parece que a cultura é dada como algo imposto a todos os homens por uma minoria, e que, por isso, é difícil de ser aniquilada; e, se a cultura é de difícil assimilação, a culpa está nas imperfeições dos vários tipos culturais existentes.

Havemos de concordar com ele quando diz que “é preciso contar com o fato de que em todos os homens há tendências destrutivas, ou seja, antissociais e anti culturais, e que num grande número de pessoas elas são fortes o bastante para determinar o seu comportamento na sociedade humana” (FREUD. 2010, p. 23-24). Ele afirma ainda que toda cultura sai de uma coerção ao trabalho e do aprisionamento dos impulsos.

Ela, então, tira o homem de seu estado natural que é egoísta e impulsivo a fim de privá-lo de seu estágio primário e o moldar em vista à vivência social – seu maior desafio. Todos nascem com desejos como canibalismo, incesto ou desejo de matar, o que, para os neuróticos é associável e para a sociedade é repudiável. Então, já admitimos que houve um avanço moral através da cultura no sentido de preservação da vida. Quanto a isso, Freud dirá que até um tirano que recuse de toda maneira a cultura haveria de concordar com pelo menos uma lei: Não matarás!

Segundo Freud, “como é ingrato, como é míope, sobretudo, aspirar a uma abolição da cultura!” (FREUD. 2010, p. 33), porque, se assim se procede, o ser humano voltaria ao estado de natureza no qual a regra seria apenas seguir seus próprios extintos egoístas e sexuais. Neste sentido, ele falará do papel da religião, não como algo transcendente, mas como um meio de garantir à sociedade, no discurso de algo divino que para ele é uma grande farsa a ordem e a vivência social. Sobre isso, veremos no tópico a seguir.

2. A religião segundo Freud

Observando as religiões, Freud destaca um aspecto importante a ser considerado: a Religião como uma neurose. Para ele, a experiência da repressão acontece a partir da perversão daquilo que é visto como instinto natural no homem, entendido como pulsões sexuais, em vista de fazê-lo se expressar de outras formas menos primárias ou reprimir seus desejos mais íntimos, muitas vezes reprováveis, o que pode ocasionar neuroses, devido ao aprisionamento das emoções.

“Nela a dissociação da consciência (fenômeno fundamental que abriu as portas da psicanálise) possibilitou deparar-se com o processo denominado por Freud perversão da vontade. Isto é, um querer inconsciente, proveniente do recalcado, impõe-se ao querer e à vontade conscientes do sujeito” (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 35).

Entendemos isso quando retomamos o princípio de redução-tensão pelo qual funciona a mente humana. A mente tem pulsões que precisam ser de alguma forma saciadas, por exemplo a fome, a sede e o sono. Mas também existem pulsões chamadas primárias que, caso fossem realizadas poderiam se tornar alvo de repúdio pelo resto da sociedade. Para que isso não ocorra, devem ser sublimadas, ou seja, canalizadas para outras atividades mais úteis e que também servirão para reduzir a tensão da mente do indivíduo. Constatou-se também que essas atitudes repudiáveis se evidenciam ao longo da cultura que se desenvolveu na humanidade e culminará no fato religioso, dando base ao pensamento freudiano de que a religião foi criada pelo homem em uma espécie de pacto que assegure a vida social, como já dito antes.

Um número imenso de homens aculturados, que recuaria horrorizado diante do assassinato e do incesto, não se priva de satisfazer sua cobiça, seu gosto de agredir e seus apetites sexuais; não deixa de prejudicar os outros por meio da mentira, da fraude e da calúnia caso possa permanecer impune ao fazê-lo; e é possível que tenha sido sempre assim há muitas eras da cultura (FREUD. 2010, p. 29).

Sigmund Freud observou uma semelhança entre a neurose obsessiva e os fenômenos culturais, dos quais o fenômeno religioso entra em uma posição importante, ocasionando uma virada em sua percepção. É importante ressaltar aqui que Freud enxerga as neuroses de duas formas, a saber: neuroses histéricas e neuroses obsessivas, da qual sobre este segundo modo, ele sustenta sua crítica sobre a religião.

Com o estabelecimento da analogia entre religião e neurose obsessiva, a experiência religiosa não figurará mais apenas como fator de oposição às pulsões, como nos Estudos sobre a histeria, mas, sobretudo como expressão camuflada da própria pulsão e dos sentimentos de culpa dela derivados (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 36).

Não obstante, podemos imaginar muitas vezes a religião somente como elemento repressor das pulsões, e, portanto, apenas como um código de conduta moral. Todavia, Freud analisa mais profundamente: a religião é, também, expressão da culpa dos instintos primários, ou seja, ela representa um código de moral que culpa o indivíduo dos seus instintos e pulsões.

Segundo ele, existe uma espécie de compromisso entre pulsão e desejo, “isto é, de uma transação ou pacto estabelecido entre a pulsão, por um lado, e a proibição da satisfação dessa mesma pulsão, por outro” (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 36). Entretanto, tal pacto deixa o sujeito alienado e diante do recalcamento, tanto o neurótico como o religioso são motivados pelas culpas e se escondem mediante cerimoniais.

O indivíduo neurótico cria uma série de defesas devido às pulsões sexuais que as teme e, da mesma forma, acontece com os religiosos quanto a seus instintos antissociais e egoístas. Para Sigmund Freud, por meio da religião, muitas vezes o humano faz o que ela própria proíbe. Deste modo, Freud identifica a religião como uma “neurose obsessiva universal”.

Algo importante a se destacar é que, segundo o próprio Freud, nem todos estão preparados para um ateísmo, uma vez que a religião é um meio de proteção e apoio as neuroses. Vemos isso, por exemplo, no processo de sublimação e também na tentativa de uma resolução harmonia ao conflito entre pai e filhos dado desde o Complexo de Édipo. Mas, se por um lado, Freud reconhecia uma devida importância à religião, por outro, entendida como algo contrário à razão, uma farsa e uma ilusão, segundo ele, o abandono da religião irá se cumprir com a fatalidade implacável de um processo de crescimento.

3. O Complexo de Édipo, a Religião e Deus

Chegamos, enfim, a um ponto importante do nosso trabalho, no qual Sigmund Freud fala da origem das religiões associada a teoria edipiana. Lembramo-nos que o Complexo de Édipo acontece na fase fálica do processo de desenvolvimento da pessoa e é comum a todos. O nome vem do mito grego do Rei Édipo que tem como destino dado pelos deuses matar o próprio pai e desposar a própria mãe.

Segundo o psicanalista, o primeiro amor da criança é a própria mãe, aquela que o sustenta e protege. Diante disso, tendo em vista a percepção do bebê entre a relação de intimidade dos pais, a criança, que ama a mãe, passa a receber seu pai como o principal rival. Mas no desenrolar do processo, a criança percebe o pai rival como um oponente mais forte e sente a chamada ansiedade de castração, passando então a expressar-lhe uma admiração que perdura pelo resto da fase da infância e os conteúdos desse processo são lançados no inconsciente.

Diferentemente do que muitos pensam, nosso autor ao criar o termo do Complexo de Édipo como uma explicação não só de problemas mentais, mas ao explicar a religião a partir dele, Freud faz com que ele seja uma “estrutura básica universal”. A religião então pode ser entendida como uma consequência edipiana, no qual a angústia do homem religioso toma outras proporções, agora, dentro de uma formação cultural e com um novo estilo de pai – todo poderoso.

Analisemos primeiramente as necessidades dos bebês: eles têm dependências narcísicas de objetos que lhe assegurem amparo e proteção, sendo que o primeiro seria a figura materna que oferece alimentação e proteção contra todo tipo de realidade externa e ansiedade. Quando a criança cresce, descobre que a necessidade de se sentir amparado permanece devido a poderes superiores como a morte e os fenômenos naturais. Logo, a relação atribuída à figura paterna passa a ser direcionada a deuses criados pelos próprios homens e aos quais eles (os homens) temem, redirecionando seus sentimentos narcísicos para este divino que deve ser cultuado e adorado.

Com efeito, Freud diz que: “Os deuses conservam a sua tripla tarefa: afastar os pavores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino, em especial como ela se mostra na morte, e recompensá-los pelos sofrimentos e privações que a convivência na cultura lhes impõe” (FREUD. 2010, p. 36). Todavia, os deuses vão se retirando da primeira tarefa, pouco interferindo nela e se apoderando cada vez mais da terceira, “a partir de então, torna-se tarefa divina compensar as falhas e os danos da cultura, atentar para os sofrimentos que os homens se infligem mutuamente na vida em comum e vigiar o cumprimento dos preceitos culturais aos quais eles obedecem tão mal” (FREUD. 2010, p. 37).

Podemos dizer então que para Freud, a religião acontece devido ao reconhecimento do ser humano de que não pode ficar desamparado e que ela seria um tipo de neurose obsessiva das crianças que na vida adulta se manifesta como religião; e a ideia de Deus surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai e no qual a ambivalência entre amor e ódio tem um fundante papel.

Contudo, a ideia elementar de um Ser supremo, de um Deus Pai, segundo Freud, deve se considerar objetivamente infundada. Como a fraqueza infantil faz sentir a necessidade de proteção, que a criança experimenta no amor paterno, assim a visão desta indigência, que a acompanha durante toda a vida, a induz a criar para si um outro pai – mas desta vez muito mais poderoso. Tendo-se tornado adulto, remonta através da recordação à imagem do pai da época infantil, por ele tão sobrestimado, eleva-o à divindade e transporta-o para a realidade do presente. A força afetiva desta imagem nemônica e a permanência da necessidade de proteção são os dois caminhos que conduzem à fé num Deus (DEMPSEY. 1996, p. 42).

É importante analisarmos também, que esse conflito edipiano entre pais e filhos continua na vida adulta, e, se assim podemos dizer, de forma quase inconsciente, a partir da ideia de Deus, na qual Freud pensou uma situação primeira onde o pai ciumento é devorado pelos filhos que queriam ter as mulheres e não podiam devido ao ciúme do pai. Diante desse assassinato, entendido por ele como um pecado originário, surgiria a moral, a religião e o direito.

No entanto, Freud explica que, se algum filho tomasse o lugar do pai, o crime se perpetuaria sempre. É, justamente sobre essa realidade que a religião se firma e dá vida novamente ao pai de diversas formas: “sob a forma do animal totêmico do clã, prosseguindo depois suas metamorfoses em heróis, deuses e demônios, para vir finalmente encontrar sua mais cabal ressurreição na figura do Deus único judeu-cristão” (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 39).

O cristianismo então, segundo Freud, é a religião que melhor expressa esse drama de pai e filho, ao afirmar o pecado original e a morte do filho como meio de livrar do pecado, desta forma, trazendo o pai à tona novamente. Logo depois, o dogma da ressurreição mais uma vez coloca o filho em posição privilegiada em relação ao pai. Para Freud, o judaísmo não soube reconhecer a morte do pai e, por isso foi fadado ao declínio e à perseguição.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, se nosso raciocínio e nossa exposição estiverem articulados de maneira clara e correta, podemos concluir primeiramente que Sigmund Freud analisa o surgimento da religião também como meio de punição das ações antissociais e egoístas do ser humano, vistas por Freud como o mais natural em nós que deve ser sublimado, e a identificar em analogia a uma neurose obsessiva universal.

Destacamos também que a figura de Deus, segundo ele, faz parte de um complexo primordial, sempre existente, entre pais e filhos e do qual a religião tomou posse para se fundar. Nisso consiste sua crítica, no fato de se colocar a religião como algo transcendental, ao passo de que ele a entende como um contrato e uma neurose, ilusão etc.

Dizemos ainda que Freud reconhece que para alguns o abandono da religião não poderia ser avaliado totalmente positivo. Embora seja considerada por ele como uma neurose universal e uma farsa contrária à razão, ela também pode ser um meio de proteção contra as neuroses histéricas.

REFERÊNCIAS

DEMPSEY, Peter J. R. Freud, Psicanálise e Catolicismo. Tradução Pe. José Derntl. São Paulo: Edição Paulinas, 1966.

DOMINGUES MORANO, Carlos. Crer depois de Freud. Tradução Eduardo Dias Gontijo. São Paulo: Loyola, 2003.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Tradução Renato Zwick. Porto Alegre: LePM Editores, 2010.

Notas
¹Graduando em Filosofia – FAM

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