Lucas Germano de Azevedo

No mundo hodierno é comum nos vermos imersos aos modismos, ideologias e até mesmo nos encontrarmos em estado alienado[1]. Encontramos no filósofo e economista Karl Marx (1818-1883), uma abordagem sobre o assunto, pois já em sua época nos descrevia situações similares às contemporâneas.

Quando dizemos sobre a alienação[2] geralmente não aceitamos que nós também fazemos parte da porção de pessoas alienadas. Marx diz que o sistema econômico é quem gera todo tipo de alienação, então uma vez que estamos ligados ao sistema econômico fazemos parte das pessoas alienadas. O sistema econômico em vigor hoje é o capitalismo, é o capital que está movendo as ações do mundo de hoje. É o querer comprar e o querer vender que está cada vez mais facilitando esse sistema. Assim, o presente artigo quer problematizar como está nossa maneira de agir ante o sistema econômico que nos rege, o capitalismo.

Padre Vaz, comentando Marx, diz que o homem é por necessidade um ser que tem que trabalhar, um ser dependente de sua produção, um ser que depende de seu cansaço, de seu esforço para se satisfazer.

Para Marx a especificidade do homem se destaca sobre o fundo das características que ele tem em comum com os animais. Seja o homem, seja o animal se definem pelo tipo de relação que os une à natureza, isto é, pela forma como vivem sua vida. Ora, enquanto o animal é sua própria vida, ao homem cabe produzir a sua (VAZ, 2010, p.119,).

A natureza do homem o implica a ser um ser que produz, um ser que realiza para que sua vida aconteça. Os homens, diferente dos animais, se agregam em comunidades para que haja uma facilitação no seu viver, mas isso os torna dependentes uns dos outros.

Na comunidade a estrutura econômica, também chamada de infraestrutura, é quem determina a superestrutura. “Por superestruturas Marx entende as Instituições (Estado, Igreja, família escola, etc.)” (NOGARE, 1990, p.95). As grandes estruturas é que são as mantenedoras do capitalismo, pois a cultura do comprar está cada vez mais comum entre nós. O consumismo assegura o capitalismo, tornando mais fácil a compra, a venda, a comercialização.

Quando o poder de compra é facilitado, percebemos o quanto os indivíduos se sentem bem, ou pelo menos aparentam estar bem, pois está cada dia mais fácil comprar, há aumento de crédito, agilidade nos financiamentos e um crescente número de cartões de credito que dão segurança ao credor, fazendo-o vender cada vez mais. Isso mostra como o capital está inserido na vida das pessoas e como elas respondem a ele.

Sobre a alienação econômica, Marx diz que

ela é a base e a determinante de todas as outras alienações e se funda na propriedade privada dos meios de produção. Portanto, abolir a propriedade privada é abolir a alienação econômica e consequentemente toda forma de alienação (NOGARE, 1990, p.94).

O que percebemos nos dias atuais é o contraste entre os grandes empresários e os trabalhadores. Como nos mostra a citação acima, o que gera a alienação é a propriedade privada, pois o ganho é apenas de um, ou de um grupo especifico, mas hoje com a facilidade de comprar, os trabalhadores adquirem os produtos que fazem e com isso acrescentam a fortuna dos empresários.

O centro da alienação econômica, evidentemente, é o dinheiro, o capital. E sobre o capital Marx acresce:

A transformação de uma soma de dinheiro em meios de produção e força de trabalho é o primeiro movimento pelo qual passa um quantum de valor que deve funcionar como capital. Ela tem lugar no mercado, na esfera de circulação. A segunda fase do movimento, o processo de produção, está encerrada tão logo os meios de produção estejam transformados em mercadorias cujo valor supera o valor de seus componentes, portanto, que contenha o capital originalmente adiantado mais uma mais-valia. Essas mercadorias a seguir têm de ser lançadas de novo à esfera da circulação. Trata-se de vendê-las, realizar seu valor em dinheiro, transformar esse dinheiro novamente em capital, e assim sempre de novo. Esse ciclo, que percorre sempre as mesmas fases sucessivas, constitui a circulação do capital. (MARX, 1984, p.151)

O percurso do capital é que move as bases da economia e, como sabemos, ela é a causa de todos os sintomas de alienação. “O próprio capital não é senão ‘propriedade privada dos produtos do trabalho de outrem’” (MARX apud ROVIGHI, 1999, p.85). O capital é quem dá o poder de compra, faz parecer que as pessoas se sentem melhores, mas ficar muito preso ao material pode fazer a pessoa se esquecer dela mesma e das verdadeiras relações sociais.

Como vimos, Marx aponta o fim da propriedade privada como a saída da alienação, mas “os marxistas, de hoje, porém, se perguntam se a tese da propriedade privada como fonte de toda a alienação, é, no presente, realidade” (NOGARE, 1990, p.95). Então será que o fim do capitalismo nos livraria da alienação? Na época de Marx os trabalhadores não consumiam os muitos produtos que fabricavam, e tinha-se a ideia de alienação, mas hoje a situação está diferente, pois os empregados têm inúmeras facilidades de crédito, o que os possibilitam a comprar os produtos fabricados por eles, mas será que isso também não é  uma forma de alienação? O empregador que facilita a venda de seus produtos quer que mais pessoas comprem, e dentre essas pessoas estão seus empregados, o que evidencia uma forma de alienação, pois o empregado verá voltar ao empregador parte do salário que recebera por seu trabalho.

Parece-nos que sempre haverá uma forma de os indivíduos ficarem alienados por causa do fator econômico. Vale nos perguntarmos: o que fazer para acabar com a alienação?

Referências

MARX, Karl. O capital: crítica da economia politica. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Volume I)

NOGARE, Pedro Dalle. Humanismo e anti-humanismo: introdução à antropologia filosófica. 12ºed. Petrópolis: Vozes, 1990.

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia contemporânea: do século XIX à neoescolástica. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia filosófica. 10ªed. São Paulo: Edições Loyola, 2010. (Volume I)


[1] Do verbo alienar: 1. Transferir para outrem o domínio de; alhear. 2. Desviar, afastar. 3. Alucinar, perturbar. 4. Manter-se alheio aos acontecimentos. Cf. Dicionário Aurélio.

[2] O termo alienação é de largo uso na filosofia marxista e reveste significações diversas, embora fundamentalmente todas elas possam reconduzir-se ao sentido etimológico (NOGARE, 1990, p.93)

7 Comentários

  1. Bruno Aparecido Nepomuceno

    Sucinto e esclarecedor artigo. Somos alienados sim!!! Em maior ou em menor grau… E a economia é a maior contribuinte deste processo. Lutemos para que retomemos as rédeas de nossas vidas.
    parabéns Germano!

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  2. Thiago Gandra

    Seria possível vivermos sem alienação?? Qual seja o caminho que escolhemos, ele se torna uma alienação para nós… Pois senão nao o escolheriamos e o adotariamos como uma evidencia… Parabéns pelo texto germano

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  3. Paloma Germano

    Faço minhas as palavras Do Bruno!
    Parabens Lucas!!!

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    • Lucas

      Obrigado Paloma

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  4. Lucas

    Obrigado Bruno, Thiago. É bom pensar sobre temas que nos são muito pertinentes.

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  5. Leandro Costa

    Lucas Germano vc desenvolveu seu texto com mta clareza e foi audacioso na afirmação acerca da alienação, ao afirmar que todos nós somos, parabéns pela desenvoltura e pela pertinencia do tema…

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  6. Excelente, muita clareza e concordo plenamente com o Bruno!!!

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