Eudvanio Dias Soares*

Resumo: O presente trabalho objetiva apresentar um estudo sobre o tempo, fundamentado na Física de Aristóteles e especialmente na obra Os sentidos do tempo em Aristóteles de Fernando Rey Puente. Objetiva ainda expor algumas considerações sobre a bifacialidade do tempo e, com isso, suas instâncias temporais: passado, presente e futuro, levando em consideração o sentido físico do tempo, assim como de sua dimensão prática para o ser humano. Cada uma destas instâncias temporais será abordada dentro da perspectiva aristotélica nos sentidos anteriormente citados. Vale ressaltar que se abordará neste trabalho o sentido físico e a dimensão prática do tempo para o homem, não tendo, portanto, o objetivo de tratar de seu sentido cosmológico e/ou metafísico.

Palavras-chave: Tempo. Agora. Passado. Futuro. Aristóteles.

                                                                        

Considerações iniciais

 

O ser humano encontra-se imerso na ação do tempo. Todas as suas relações, atividades e movimentos tendem para um fim futuro, são por vezes pautadas em experiências passadas, e obviamente acontecem num tempo presente, mais incisivamente no agora, única instância do tempo em que o movimento pode de fato acontecer. Esta sua referida imersão no tempo torna-o objeto de grandes questionamentos. Parte daí a necessidade de se compreender o tempo.

O presente artigo objetiva apresentar um estudo sobre o tempo, fundamentado na Física de Aristóteles e especialmente na obra Os sentidos do tempo em Aristóteles de Fernando Rey Puente. Objetiva ainda expor algumas considerações sobre a bifacialidade do tempo e suas instâncias temporais, levando em consideração o sentido físico do tempo, assim como de sua dimensão prática para o ser humano.

Em primeiro lugar o passado: o passado como um ser que já foi e não é mais, e neste sentido que não pode tornar a ser; as implicações do passado na ação humana, assim como o porquê da sensação de se poder “presentificar” eventos que já se passaram; a importância do passado na dimensão prática do tempo para o homem também será abordada nesta mesma discussão.

Metodologicamente, por tratar-se da bifacialidade passado-futuro do tempo, em que ambos configuram-se como não ser, em segundo lugar tratar-se-á do futuro: o futuro como instância do tempo que ainda não é, portanto, ser em devir; assim como no que se refere ao passado, propõe-se também explanar sobre as implicações do futuro nas ações humanas e de como o futuro, mesmo ainda não sendo, pode ter tanta influência no agora.

Por fim, o presente: o presente como aquilo que ainda não é e ainda não foi. O presente, neste caso, trata-se do limite que separa esses dois instantes (passado e futuro): o agora. Questionamentos como qual o limite do agora, quando o futuro deixa de ser futuro para ser agora e o agora deixa de ser agora para ser passado serão discutidos neste trabalho, assim como passado e futuro são instâncias cruciais para se bem agir no presente, dentro da dimensão prática do tempo.

Vale ressaltar que se abordará neste trabalho o sentido físico e a dimensão prática do tempo para o homem, não tendo, portanto, o objetivo de tratar de seu sentido cosmológico e metafísico.

 

1 O passado: a instância do tempo que já se passou

 

O passado é uma das faces referentes ao tempo. É “um ser que já foi e que já não é mais.” (BITTAR, 2003, p. 397) Ele é a unidade do tempo que já passou, que não pode mais retornar. Foi enquanto agora, enquanto unidade que se denomina presente. Deixa de ser enquanto passado, enquanto unidade do tempo que já passou. Ele é uma unidade irretornável, pois passou do ser ao não ser, e não retorna do não ser ao ser.

Aristóteles define o tempo na Física: “Porque o tempo é apenas isto: o número do movimento segundo o antes e o depois.” (Phys. 219 b1-2, tradução nossa)[1] É justamente o antes da descrição do tempo de Aristóteles que corresponde ao passado. O anterior que já não é mais. O passado, desta forma, parece tornar-se inacessível. Não pode tornar a ser e gera uma série de problemas na questão do tempo. Enquanto não ser, como pode ele fazer parte do tempo que é ser? É como se o tempo dependesse da destruição do agora para advir um novo agora, e o primeiro agora destruído torna-se passado, enquanto o agora que o procede deixa de ser futuro.

Este é um problema apresentado por Fernando Rey Puente na sua obra Os sentidos do tempo em Aristóteles, em que ele destaca essa aporia da condição deficitária do tempo:

A primeira aporia acerca do tempo aponta para o seu modo deficitário de ser: uma parte dele não é mais, a outra ainda não é; logo, seu modus essendi não é completo. Ele carece de dimensão presente, isto é, daquela parte que é e não foi ou será. Todavia, quer consideremos “o tempo infinito”, que “o tempo que é sempre apreendido”, em ambos os casos ele compõe-se dessas partes que não existem no presente. […] No primeiro caso, considera-se o tempo em sua totalidade, já no segundo leva-se em conta apenas um intervalo desse tempo infinito, em outras palavras, considera-se somente um intervalo de tempo voluntariamente delimitado. (PUENTE, 2001, p. 123)

A presença do passado, assim como do futuro, como instâncias do tempo, que deixou de ser e que ainda não é, respectivamente, pode aparentemente comprometer a existência do tempo enquanto ser. O próprio Aristóteles irá levantar este problema: “Mas parece impossível que o que está composto de não ser tenha parte no ser.” (Phys. 218 a3, tradução nossa.) [2] De fato o problema é aparente, Aristóteles diz que parece ser impossível, não que seja impossível. O passado, sendo o ser que deixa de ser, não impede que o tempo seja considerado ser.

Essa aporia principal exprime-se por meio de duas linhas argumentativas: a primeira assinala a impossibilidade do tempo formado de partes que não são, de “participar de uma substância”; a segunda, que de certa forma complementa a primeira, aponta para uma situação inversa, pois parte da suposição de que o que pode ser dividido em partes, se existe, necessariamente deve possuir ao menos uma, se não todas as partes que o constituem. (PUENTE, 2001, p. 123)

O passado e o futuro, e tão somente eles, destruiriam a noção de ser do tempo. O que assegura a sua existência é sua parte constitutiva que pode ser considerada como ser, “isso nos leva a pensar no agora, pois este, ao contrário do que já foi e do que ainda está por vir, existe efetivamente agora.” (PUENTE, 2001, p. 124)

O tempo, enquanto número do movimento segundo anterior e posterior (Phys. 219 b1-2 ), permite que se identifique o passado como o movimento que já foi executado, que já foi realizado, e que não pode tornar a sê-lo feito uma vez que já não é mais. Pode-se, a partir desta consideração, dizer que o acesso ao passado é impossível no que diz a respeito ao tempo. Em outros termos é impossível atualizá-lo, numa tentativa de refazer o movimento, de executá-lo novamente, de “presentificá-lo.

Entretanto o passado pode ser mensurado, dito, pensado. O que viria a tornar isso possível? Para isto é preciso considerar o tempo não apenas como um ser físico, mas considerar a sua dimensão prática em relação ao homem. (PUENTE, 2001, p. 309) Dimensão prática esta que pode ser considerada a partir da inserção do homem no tempo: o ser humano é temporal.

Para realizar esta consideração, seguir-se-á neste trabalho a leitura de Fernando Rey Puente, que toma como base para a ressignificação do tempo no âmbito da ação humana as obras Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e Categorias.(PUENTE, 2001. P. 318-319) Nestas obras, segundo ele, há uma diferenciação do termo grego referente ao tempo, enquanto na Física predomina o termo Κρόνος (Khrónos), nestas outras obras encontra-se o termo Καιρός (Kairós). E, a saber, ambos utilizados para falar do tempo.

De qualquer modo, o que o Estagirita quer dizer, na verdade, com esses dois termos é o mesmo, a saber, que Καιρός é o tempo visto em sua dimensão qualitativa e não sem sua dimensão quantitativa (como era preferentemente o caso da Física) (PUENTE, 2001, p. 319)

O Καιρός é assim, na categoria do tempo, o momento oportuno para a realização de uma ação. (PUENTE, 2001, p. 319) Este salto do âmbito quantitativo do tempo para o seu qualitativo é essencial para compreender a interrogação anteriormente realizada sobre o passado que se pode mensurar, mesmo enquanto não ser, sobre essa tentativa de “salvar” o passado de sua corrupção e total impossibilidade de mensuração.

Concentremo-nos no ponto que nos interessa, a dimensão temporal de uma ação. Segundo esse critério, uma paixão ou um ato serão considerados virtuosos, se e somente se, ocorrerem no tempo oportuno (Καιρός). O erro no tocante do tempo, portanto, consistirá em que experimentemos uma paixão ou em que atuemos antes ou depois desse momento ideal. Vê-se aqui claramente como também os conceitos meramente quantitativos do anterior e posterior são alterados ao receber uma atribuição valorativa. Assim, o anterior não é simplesmente um agora neutro que antecede o momento oportuno, mas é o momento no qual a ação ou a paixão serão deficientes, lacunares, ou seja, é um momento qualificado negativamente. (PUENTE, 2001, p. 321)

Em outros termos, é no passado que residem as ações humanas já realizadas, quer tenham sido elas boas e significativas, quer tenham sido elas más e infrutíferas. É no passado, neste antes qualitativo, que estão situados os movimentos humanos de suas ações. Ações estas que têm implicações em sua vida, e consequentemente em seu presente. Mas embora se possa compreender a importância do passado para o ser humano, na dimensão prática do tempo, é preciso ainda apontar a forma como esse passado é mensurado pelo ser humano.

Salvaguardado pelo ser humano em um âmbito de relato ou narração dos fatos passados, a história é a responsável pelo registro do passado e seu acesso no presente. (PUENTE, 2001, p. 334-335) Um acesso que se dá como rememoração do movimento realizado, e não como retorno deste mesmo movimento. Puente recorre a Poética para fundamentar este seu pensamento, reitera que o vocábulo “história” possui ainda outro sentido que pode ser traduzido como “investigação preliminar”, assinalando a primeira e fundamental etapa de qualquer ciência. (PUENTE, 2001, p. 334)

[…] o termo ἱστορία assinala uma etapa inicial e necessária de todo conhecimento artístico e científico, pois indica precisamente a articulação da multiplicidade sensorial por meio de relações de inerência entre os predicados encontrados e o sujeito em questão. (PUENTE, 2001, p. 335)

Isso quer dizer que o conhecimento científico depende do que já se foi produzido naquele mesmo assunto para prosseguir com a pesquisa, garantindo assim o seu progresso. Os resultados obtidos no tempo anterior ao presente são necessários para que se dê continuidade ao processo, do contrário nenhum campo do saber progrediria, mas estaria num eterno começo, onde apenas as atitudes do agora seriam consideradas. Sem a ἱστορία seriam apagadas todas as grandes descobertas realizadas e que hoje se encontram no passado. Tais descobertas não precisam mais ser realizadas, desde que se tenha acesso a elas, ainda que o movimento de descobrimento não possa mais ser realizado. Um acesso aos movimentos realizados no passado garante o progresso das descobertas e atitudes humanas.

Segundo essa concepção, da sensação gera-se uma imagem, e quando esta é contemplada como cópia e não em si mesma então estamos diante de uma lembrança cuja evocação denominamos memória. Por fim, da multiplicidade de memórias acerca de uma mesma coisa produz-se a experiência. (PUENTE, 2001, p. 336)

A memória é assim responsável por trazer as experiências do passado para o âmbito do agora, como que fomento necessário para as atitudes humanas serem pautadas no erro ou no acerto, ou ainda na sucessão de eventos já vividos, numa continuidade do processo, num progresso. “[…] é graças a um grande conhecimento acerca dos eventos passados que nos tornamos aptos a criar narrativas verossímeis e até mesmo necessárias acerca de uma determinada ação.” (PUENTE, 2001, p. 337)

 

2 O futuro: a instância do tempo em devir

 

O futuro, assim como o passado, é uma das faces referentes ao tempo. Pode-se caracterizar “o futuro como um ser em devir, uma potência a atualizar-se.” (BITTAR, 2003, p. 397) Considerando o conceito de tempo na Física: “Porque o tempo é apenas isto: o número do movimento segundo o antes e depois,” (Phys. 219 b1-2, tradução nossa)[3] chegamos obviamente à conclusão que o depois do conceito trata-se do futuro.

Ainda na perspectiva de Bittar, pode-se dizer que o futuro ainda não é. Não é enquanto agora, e quando o for, deixa assim de ser futuro, pois passa a ser. A potência atualiza-se e o futuro passa do ainda não é ao ser, torna-se agora, presente. E tomando a discussão anterior sobre o passado, chega-se a conclusão de que ele, o futuro, passará do agora para a instância do passado. Do ser em devir, ele passa pelo agora, e chega àquilo que já foi e não é mais, o passado.

Bertrand Russel afirma em sua História da Filosofia Ocidental que Aristóteles “Parece que pensa no tempo como constituído de tantas horas, dias ou anos.” (RUSSEL, 1957, p. 240) e que “Movimento, diz ele, é a realização do que existe em estado potencial.” (RUSSEL, 1957, p. 239) Destas afirmações de Russel pode-se afirmar que o que existe em estado potencial, em relação ao tempo, é o que se denomina futuro, ou seja, as horas, dias e anos que ainda estão por vir.

Tomando mais uma vez a aporia que Fernando Rey Puente levanta, pode-se através do exposto sobre o futuro chegar a novas conclusões.

A primeira aporia acerca do tempo aponta para o seu modo deficitário de ser: uma parte dele não é mais, a outra ainda não é; logo, seu modus essendi não é completo. Ele carece de dimensão presente, isto é, daquela parte que é e não foi ou será. (PUENTE, 2001, p. 123)

O presente é o que garante o ser do tempo. Ele que é e não foi ou será. Mas o tempo, sendo a realização do que ainda está em potencial, é assegurado pela atualização da potência denominada futuro. Ou seja, sem a instância do futuro, o tempo não existiria, pois é o seu devir que garante a realização do contínuo movimento que é necessário para a concepção do tempo.

Em outros termos, pode-se tomar o que diz Anthony Kenny acerca do tempo na visão aristotélica, em que ele exemplifica o movimento característico do tempo como uma jornada, que pressupõe ponto de partida e fim:

A parte de uma jornada que está mais próxima de seu ponto de partida ocorre antes da parte que está mais próxima de seu fim. Essa relação espacial entre próximo e distante fornece a base para a relação de antes e depois no movimento; e estes são o “antes” e “depois” que aparecem na definição aristotélica de tempo. É o antes e o depois no movimento que possibilitam o antes e o depois no tempo. (KENNY, 2008, p. 224)

Quando se inicia uma jornada pressupõe-se que ela acontece no agora, pois é apenas no presente que se realiza o movimento. O antes deste movimento é passado, não mais pode ser realizado, apenas rememorado, enquanto o futuro é a potência desta jornada que se atualiza. “Dizemos quanto tempo se passou graças à observação do processo de alguma mudança. Nós hoje em dia, sabemos o tempo correto pela identificação dos pontos a que chegaram os ponteiros do relógio em sua jornada em torno da face do relógio.” (KENNY, 2008, p. 224-225) E essa observação do instrumento que mede o tempo transcorrido dá a noção da durabilidade da ação, de quando ela pode ter seu fim realizado. O relógio diz o início e fim de uma ação, mas não do tempo, já que este é contínuo.

O futuro se atualiza, e torna-se presente. Mas é em função do futuro que muitas atitudes humanas são tomadas. Ainda no exemplo de Anthony Kenny, toda jornada pressupõe um fim, e essa finalidade não é imediata. O ser humano a realiza com vistas em algo que é para um depois e não para um agora. O futuro, assim, mesmo ainda não sendo e estando por advir, move as ações humanas realizadas no agora. O que assegura essa importância do futuro para as ações humanas?

Faz-se necessário retomar a diferença entre Κρόνος (Khrónos) e Καιρός (Kairós), onde o tempo não mais é visto apenas no ponto de vista quantitativo, mas qualitativo, respectivamente nos termos.

Puente faz menção a Retórica de Aristóteles, mais precisamente o segundo livro, em que ele “[…] esclarece-nos acerca da estrutura intrinsecamente temporal de algumas emoções.” (PUENTE, 2001, p. 330) Emoções estas que estão pautadas, sobretudo, em um devir. O efeito das emoções ainda não ocorreu, mas pode ser como que pressentido pelo ser humano. “Assim, por exemplo, o medo é descrito como o sofrimento ou um distúrbio originado pela imaginação de um mal destrutivo ou doloroso que possa nos acometer no futuro. (cf. Rhet. 1382 a21-22)” (PUENTE, 2001, p. 330)

Esse pressentimento do que ainda irá acontecer não passa de uma projeção. Diferentemente do passado que se pode acessar pela história, o futuro não permite que o faça, uma vez que o passado (como movimento realizado) pode estar presente na memória, através da captação deste mesmo movimento pelos sentidos e transformados em imagens. (PUENTE, 2001, p. 336) Não cabe, portanto à história esse processo de projeção.

“O Estagirita inicia o nono capítulo de sua obra[4] afirmando não ser função do poeta narrar sobre as coisas ocorridas, mas sobre o que poderia acontecer, isto é, sobre as coisas possíveis segundo verossimilhança ou necessidade.” (PUENTE, 2001, p. 333) Cabe à poesia, à figura do poeta, esse “acesso” ao futuro, um ato que reside no campo da possibilidade, uma vez que do futuro só se pode dizer o que possivelmente ocorrerá, já que ele, mais vez reafirma-se, é um ser em devir.

Associa-se a experiência advinda da memória das imagens do passado, com a projeção que se faz em relação ao futuro. São os dois termos que se designam história (relato do passado e investigação preliminar) conformando o que se projeta do futuro, “[…] como, por exemplo, quando dizemos que toda vez que Kalias ou Sócrates, estando acometidos por uma determinada enfermidade, tomaram um determinado medicamento produziu-se neles a saúde. (cf. Met. 981 a7-9)” (PUENTE, 2001, p. 336) A projeção só torna-se verossímil através da experiência que se tem acerca daquela ação. “A experiência é incapaz de unificar e ordenar as sensações, as imagens e as lembranças, mas pode apenas descrever a ordem casual em que esses estados mentais produziram.” (PUENTE, 2001, p. 337) E tratando-se de projeção e possibilidade, a história não pode dar conta do futuro, apenas aquele que o faz através da projeção, da criação, levando em conta não apenas uma unidade de tempo como critério. Este é o poeta. (PUENTE, 2001, p. 333)

 

3 O presente: a instância do tempo que ainda não é e que ainda não foi

 

Discorridos os assuntos referentes ao passado e ao futuro faz-se necessário tratar do presente. Diante da bifacialidade do tempo, sendo esta passado-futuro, ambos como partes constitutivas do tempo que não podem assegurar sua existência por serem eles, respectivamente, um ser que já foi e não é mais e um ser em devir, resta-nos assegurar a existência do tempo com o presente. Presente que só pode ser definido como um ser que ainda não é e que ainda não foi, pois do contrário, se já foi é passado e se ainda não é é futuro. (BITTAR, 2003, p. 397)

Mas na Física, Aristóteles irá dizer que o tempo é o número do movimento segundo o anterior e o posterior, a saber, passado e futuro. (Phys. 219 b1-2.) O presente, neste caso, trata-se do limite que separa essas dois instantes, não podendo ser chamado, simplesmente, de instante presente.

Um uso infeliz, porque o instante presente é uma noção incoerente. “Presente” é um adjetivo aplicável somente a períodos, tais como o presente ano ou o presente século. Instantes são as fronteiras dos períodos: os períodos futuros são ligados por instantes futuros; os períodos passados são ligados por instantes passados. Mas os períodos presentes não são ligados por instantes presentes, mas por dois instantes, um dos quais é passado, o outro futuro. Não existe presente instantâneo. (KENNY, 2008, p. 226)

Aristóteles, na Física, fala amiúde do agora, como esse limite entre o futuro e o passado. Pode-se dizer que o tempo é composto de agoras, sendo um deles o limite entre o agora que já passou e não é mais e o agora que virá e ainda não é, e entre eles, efetivamente, o agora que ainda não é e ainda não foi. Sendo assim, este intercalar de “agoras” traz a aporia do agora como aquele que passa, mas permanece sempre agora, e embora sendo agora, é sempre outro diferente.

O agora não é uma parte, pois uma parte é a medida do todo, e o todo tem de ser composto por partes, mas não parece que o tempo é composto por agoras. Além disso, não é fácil de ver se o agora, que parece ser o limite entre o passado e o futuro, permanece sempre um e ele mesmo o é sempre outro diferente. (Phys. 218 a8, tradução nossa)[5]

O agora garante a existência do tempo, mas a defesa de sua própria existência percorre um caminho de aporias. Garante a existência do tempo, pois “[…] se o tempo não pode existir nem pode ser pensado sem o “agora”, e se o “agora” é um certo meio, que é tanto início e fim, o início do tempo futuro e o fim do tempo passado, então o tempo deve existir sempre.” (Phys. 251b 19-20, tradução nossa)[6] Mas o tempo é considerado por Aristóteles como um contínuo, e se o agora é apenas o limite entre o anterior e o posterior, em que ele consiste de fato?

Em outros termos: ao se pensar a infinitude do tempo o agora deve ser pensado não mais como um dos limites que determinam um intervalo temporal, mas sim como um limite único e indivisível que conecta incessantemente o passado e o futuro. [7] (PUENTE, 2001, p. 125)

Podem-se levantar dentro desta discussão duas afirmações sobre o agora: a primeira delas é de que o agora é sempre diverso, diferente, novo; e a segunda delas é que cada um desses agoras dá lugar ao outro, ou seja, um agora é destruído para que outro possa existir, já que sendo eles partes consecutivas do tempo, não podem ambos existir ao mesmo tempo. A primeira afirmação leva a segunda e conduz a discussão para uma situação aporética.

[…] dado não ser possível estarem presentes simultaneamente no tempo partes diversas entre si, exceto se uma delas for contida pela outra, como, por exemplo, diz-se um dia estar contido em um determinado mês (o exemplo é de Simplício cf. In Arist. Phys., 698, 10-12), então é necessário que o primeiro agora seja destruído para que possa advir um novo agora. Mas quando ele poderia ser destruído? (PUENTE, 2001, p 125)

Os agoras devem ser um anterior e outro posterior, diferentes entre si e diferentes no interior da sucessão, ambos devem ainda ser diversos daquilo que se situa entre eles. Isto entre eles é o tempo por eles delimitado, é o agora-limite. (PUENTE, 2001, p. 206) Para se destruir um agora para advir outro agora é necessário pensar quantitativamente o que representa um espaço de tempo determinado agora, mas é preciso levar em consideração que a divisão do tempo pelo agora é apenas conceitual. (PUENTE, 2001, p. 215) Como afirma a própria Física “No que é contínuo há um infinito número de metades, não em ato, mas sim potencialmente.” (Phys. 263 a 28-29, tradução nossa)[8]

Nesse passo o Estagirita afirma que o agora, considerado como “aquilo que era em um momento qualquer”, é o mesmo, entretanto, “por meio de seu ser próprio é diverso” O que quer dizer isto? Quer dizer que, nas palavras de Heidegger, “em cada agora o agora é um outro, mas cada outro agora é enquanto agora sempre agora”[9]. Em outros termos: o que há de idêntico em cada novo agora é que ele também ocorre agora, sua “agoridade” é, por assim dizer, sempre a mesma, ou seja, seu “substrato” é o mesmo. Seu ser, todavia, é sempre outro, pois ele, embora pensado sempre no agora atual, refere-se sempre a uma outra fase da translação ou alteração determinada pelo deslocamento ou pela mudança do que se transladou ou se alterou. (PUENTE, 2001, p. 209-210)

Nesta afirmação é defendida tanto a identidade como a diversidade dos agoras, antes quebrada, considerando o que o agora é em seu substrato e também em relação ao que ele é em seu ser.

Na dimensão prática do tempo, o agora ou o presente, é o momento em que a ação é praticada. A história, que rememora o passado, o faz no presente; assim como a projeção do futuro que se faz através da poesia acontece no agora. É no presente que o ser humano toma estas duas ferramentas como fomento necessário para compreender a dinâmica do tempo no qual está inserido. E por mais aporética que possa tornar-se a discussão sobre o agora, é nele que o ser humano percebe o tempo.

O tempo (chrónos) deve ser definido, para que se dispersem todas as dúvidas levantadas, a partir da percepção sensória. Percebemos o tempo, não por si, pois sua visão é impossível, sua audição muito mais, impossível o são também a degustação, o olfato ou o tato desta entidade i-material, in-corpórea, intangível, mas, sobretudo, simbólica, ponto de referência e critério de apoio para o transcurso existencial de todas as coisas. (BITTAR, 2003, p. 398)

No que concerne à dimensão prática do tempo, tendo em vista toda a explanação sobre este mesmo tema nas abordagens sobre o passado e o futuro e ainda na dedução natural de que a praticidade do tempo enquanto instante de atuação só pode ser o agora, o presente é para o ser humano o instante de realização de suas atividades e movimentos.

Submetidos ao tempo, os homens vivem sempre no agora, pois o agora sempre será agora, deixa de ser quando passa, torna-se agora quando se atualiza a potência em devir. A vida acontece, pois, no agora. O agora, instante, lapso, está sempre presente, o tempo torna-se assim indistinguível do agora. (BITTAR, 2003, p. 399) As relações, rememorações, projeções, atitudes, todos os movimentos que são operados na natureza acontecem dentro da ação do tempo. “A realização temporal do ser permite dizer, afinal, que o ‘ser-no-tempo’ é um ser imerso na ação qual do tempo, tomado em sua totalidade, assim como o conteúdo encontra-se tomado pela grandeza do continente. ” [10] (BITTAR, 2003, p. 399)

Se o Καιρός é assim, na categoria do tempo, o momento oportuno para a realização de uma ação (PUENTE, 2001, p. 319), e a ação só pode ser realizada no momento presente, o Καιρός se configura no momento oportuno que só pode ser vivido no presente. Nem todo momento presente pode ser o momento oportuno para realizar uma ação, mas se toda ação só pode ser realizada no momento presente, todo momento oportuno, todo Καιρός, será presente. O momento oportuno para a ação é sempre um agora.

 

Considerações finais

 

Diante do exposto pode-se concluir que o tempo é um contínuo. Sua divisão através de agoras é apenas conceitual, assim como a sua definição se dá pela sua percepção sensória. Imersos no tempo, o ser humano pauta todas as suas ações em função das horas, dias, meses e anos. É o tempo que submete o ser humano à sua ação, e não o ser humano que submete o tempo ao seu poder.

Irretornável, o passado não permite alterações, não pode ser revivido, tampouco podem ser executados novamente os movimentos que nele foram realizados. Se foram realizados é porque um dia ele foi presente, mas do ser passou ao não ser. Apenas a memória pode fazer com que o passado seja mensurado, dito e utilizado como exemplo. A história é responsável por preservar os feitos que no passado foram realizados e permitir que o homem siga num progresso no tempo.

O futuro ainda não é, e, portanto, nada pode ser realizado nele, mas pode ser realizado em vistas dele. A garantia de um futuro próspero depende das ações que se realizam agora. E neste sentido o futuro pode ser projetado. Só se colherá X se hoje se plantar X, e se hoje for o momento oportuno para a semeadura de X. O futuro ainda não é, mas só será como planejado se projetado no presente e neste mesmo momento começar a ser construído.

O agora é o único momento em que a ação pode acontecer de fato. É no conceitual presente que os movimentos são realizados, as decisões são tomadas, os projetos são criados e executados. Ainda que inspirados na memória de feitos passados, ainda que em vistas de um futuro próspero, é no agora que todas as atitudes precisam ser tomadas, as mudanças de postura, as atitudes. Muitas ações pedem um momento oportuno para serem realizadas, se este não o for, é fundamental esperar que a potência se atualize. Nem todo agora será um momento oportuno, mas todo momento oportuno será sempre um agora.

 

Referências

 

ARISTOTELES. Física. Traducción Guillermo R. de Echandía. Madrid: Gredos, 1995. PDF disponível em <http://bz.otsoa.net/Libros%20de%20Divulgacion% 20 Cientifica/Historicos%20de%20Ciencia/Aristoteles%20-%20Fisica.pdf> Acessado em 27/08/2016.

BITTAR, Eduardo C. B. Curso de Filosofia Aristotélica. Leitura e interpretação do pensamento aristotélico. Barueri: Manole, 2003.

KENNY, Anthony. Filosofia Antiga: Uma nova história da filosofia ocidental. Vol. I. Tradução Carlos Alberto Bárbaro. São Paulo: Loyola, 2008.

PUENTE, Fernando Rey. Os sentidos do tempo em Aristóteles. São Paulo: Loyola, 2001.

RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental. Livro Primeiro. Tradução Brenno Silveira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.

 

* Bacharelando em Filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana.

[1] Porque el tiempo es justamente esto: número del movimiento según el antes y después.

[2] Pero parece imposible que lo que está compuesto de no ser tenga parte en el ser.

[3] Porque el tiempo es justamente esto: número del movimiento según el antes y después.

[4] Trata-se da obra Poética de Aristóteles.

[5] El ahora no es una parte, pues una parte es la medida del todo, y el todo tiene que estar compuesto de partes, pero no parece que el tiempo esté compuesto de ahoras. Además, no es fácil ver si el ahora, que parece ser el límite entre el pasado y el futuro, permanece siempre uno y el mismo o es siempre otro distinto.

[6] Pero si el tiempo no puede existir ni se puede pensar sin el «ahora», y si el «ahora» es un cierto medio, que sea a la vez principio y fin, el principio del tempo futuro y el fin del tiempo pasado, entonces el tiempo tiene que existir siempre.

[7] Cf. o minucioso comentário de E. Cavagnaro-Stuijt, Aristotele e il tempo. Analisi di “Physica”, IV, 10-14, Leeuwarden, 1995, p. 47. (Nota da própria obra)

[8] … en lo que es continuo hay un infinito número de mitades, no en actualidad,sino potencialmente.

[9] Cf. M. Heidegger, op. cit., p.350: “In jedem Jetzt ist das Jetzt ein anderes, aber jedes andere Jetzt ist als Jetzt doch immer Jetzt”. (Nota da própria obra)

[10] Física, IV, 221a, 25/30

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *