Feita por : Flávio Nogueira Cunha*

HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Tradução Artur Morão. Lisboa: Ed. 70, 2000. p. 39-66.

Edmund Husserl nasceu em 08 de abril de 1959 na cidade de Prossinitz, em Morávia, território pertencente ao Império Austro-Húngaro, e faleceu em 1938. Husserl estudou nas universidades de Leipzig, Berlim e Viena. Depois tornou-se professor e lecionou inicialmente na Universidade de Berlim e, posteriormente, nas Universidades de Viena, Halle, Gottingen e Freiburg-im-Breisgau, onde encerrou sua carreira. Durante o período em que lecionava, recebeu influência de Brentano e escreveu várias obras como Filosofia da Aritimética (1891), Investigações Lógicas (1901 e 1902), Ideias Diretrizes para uma Fenomenologia-logica (1913), Meditações Cartesianas (1929) e A Ideia da Fenomenologia (1907). É um dos grandes filósofos da fenomenologia, sendo ele quem faz a ruptura com a filosofia Moderna ao abrir as portas para a uma nova forma de raciocínio, isto é, a fenomenologia. Esta ciência parte da matemática e da psicologia, e preocupa-se com o estudo dos fenômenos do modo que se apresentam ao sujeito. A imaginação, o espaço, o tempo e a empatia são dados ao sujeito por meio da consciência que os apreende.

Na Obra A Ideia da Fenomenologia, Edmund Husserl preocupa-se em apresentar as raízes da sua reflexão filosófica. Husserl divide A Ideia da Fenomenologia metodologicamente em cinco lições às quais foram pronunciadas em 1907, onde ele apresenta uma nova visão da razão, o que implica em sua linha de pensamento. No texto que segue, ater-se-á à primeira e à segunda lição em que Husserl procura apresentar as primeiras definições de fenomenologia. Além disso, ele se preocupa em compreender a essência do conhecimento, ou seja, como é possível o conhecimento.

Na primeira lição, Husserl apresenta a distinção entre atitude espiritual natural, da qual provém a ciência natural, e atitude espiritual filosófica, da qual provém a ciência filosófica. A atitude espiritual natural não se atém à crítica do conhecimento, ou seja, tal atitude não é capaz de atingir o conhecimento, pois todas as coisas presentes no mundo tornam-se de alguma forma objeto da investigação natural. Nesta atitude, as coisas estão aí e caem “naturalmente” sobre a percepção. Desse modo, as ciências naturais podem ser ciências da natureza e também da natureza psíquica, as ciências do espírito e as ciências da matemática.

Na atitude intelectual filosófica, Husserl mostra que ela é esclarecida em seus propósitos abisais, ou seja, percebe-se um mistério acerca da possibilidade do conhecimento. Dessa maneira, a essência do conhecimento se apresenta como um problema, isto é, como um mistério a ser investigado. É desse mistério sobre a busca pela essência do conhecimento que surge a atitude intelectual filosófica. Husserl busca fundamentar a essência do conhecimento e sua possibilidade. Então, pode-se dizer que o conhecimento é uma vivência de natureza psíquica, pois o homem busca ter consciência de seu próprio conhecimento. Ao afirmar que o conhecimento é uma percepção psíquica, diz-se assim, que ele é uma das formas de vivência do sujeito que percepciona, logo, porquanto se dão na consciência. De tal modo, somente os fenômenos são verdadeiramente dados ao cognoscente e esta é justamente a conexão das suas vivências.

Diante dos problemas referentes à correlação entre conhecimento, sentido do conhecimento e objeto do conhecimento, cabe à teoria do conhecimento ou crítica da razão teorética solucioná-los. Sua tarefa é uma tarefa crítica, ou seja, ela deve procurar refutar as teorias sobre a essência do conhecimento. Husserl afirma que só a reflexão gnosiológica separa a ciência natural e filosófica. As ciências naturais do ser não são ciências definitivas do ser. É preciso uma ciência do ente, e esta é a metafísica. Ele finaliza a primeira lição ao apresentar a definição de fenomenologia como sendo uma ciência, ou uma conexão de disciplinas científicas, como o estudo ou a ciência do fenômeno ou de tudo aquilo que se manifesta e se revela à consciência. Além disso, a fenomenologia designa um método e uma atitude intelectual, e esta atitude refere-se à atitude filosófica ou ao método filosófico propriamente dito.

Ao seguir sua reflexão na segunda lição, Husserl afirma que ao iniciar uma crítica ao conhecimento, o importante é submeter o índice da questionabilidade do mundo, da natureza física e psíquica, ao próprio ser humano, assim como as ciências que dizem respeito a essas realidades. Tudo isso é colocado em questão. Logo, o conhecimento é um problema de difícil compreensão, carente de elucidação e algo duvidoso, isto é, a obscuridade crítico-cognoscitiva faz com que não se compreenda que sentido exista em um ser que seja em si e que seja conhecido no conhecimento. Isso mostra que a apreensão do conhecimento é um mistério.

Edmund Husserl faz uma recordação à meditação de Descartes quanto à dúvida hiperbólica operada em suas Meditações Metafísicas. Ele diz que mesmo que se duvide de tudo da maneira mais cética, é impossível duvidar que se existe à medida que se duvida, isto é, nem tudo pode ser duvidoso, pois, ao afirmar que tudo é duvidoso, seria absurdo manter uma dúvida universal. E isto, como se pode ver, vale para todos os atos do cogito. Husserl compara a percepção intuitiva e a fantasia intuitiva. Ele dá pouca importância ao fato de ser verdadeiro ou não o que ele percebe, pois o que importa é a verdade da sua percepção. Husserl propõe uma nova ciência da crítica do conhecimento a fim de elucidar sobre a sua essência, apesar do conhecimento ser questionado.

Husserl mostra que não se deve colocar radicalmente em questão tudo o que transcende a experiência intuitiva e imanente do “eu percebo” na tentativa de recuperar algo transcendental exterior. A transcendência segundo Husserl é o problema inicial e guia da crítica do conhecimento, ou seja, é enigma que bloqueia o caminho do conhecimento natural, constituindo assim o impulso para as novas investigações. Apesar do conhecimento ser questionado, isso não implica que ele negue sua possibilidade. Assim, o conhecimento é uma coisa distinta do objeto do conhecimento, ou seja, o conhecimento está dado, mas o objeto não. Não se pode interrogar o que é percebido na cogitatio, uma vez que o percebido enquanto um possível objeto transcendente já fora repudiado pela dúvida. Dessa forma, Husserl conclui a segunda lição ao tratar da redução gnosiológica. É preciso afetar toda a transcendência concomitante com o índice da indiferença, da nulidade gnosiológica com outro índice que afirma não se importar com a existência de todas as transcendências, crendo nelas ou não. Desse modo, o conhecimento deve procurar conhecer o objeto.

A obra A ideia da Fenomenologia é apresentada em cinco lições, das quais foram explicitadas as duas primeiras. Husserl é um autor exigente, e a leitura exige atenção e clareza dos termos que lhe são próprios. Nessas lições, ele se propõe trabalhar como é possível em geral o conhecimento e o que pode ser conhecido. Pode-se concluir a partir da leitura da primeira e segunda lição que a fenomenologia é a ciência do fenômeno, isto é, de tudo aquilo que se manifesta e se revela à consciência. Assim, a fenomenologia consiste num método que se deriva de uma atitude sem pressupostos, que tem por objetivo dar bases sólidas de uma ciência rigorosa, isto é, procura voltar à coisa como ela é. Segundo Husserl, a consciência é intencionalidade, uma vez que qualquer consciência é consciência de algo. Sendo assim, a consciência constitui uma atividade formada por atos dispostos num feixe vivencial e que torna possível perceber algo. Tais atos são a imaginação, percepção e violação, sendo estes o que permite perceber alguma coisa. A consciência possui um modo de ser e este é a intencionalidade enquanto capacidade de transcender a outra coisa. A intencionalidade é um modo de ser da consciência enquanto um transcender em direção à outra coisa. A consciência não está no mundo, é transcendental. De tal modo, como mostra Husserl, o objeto só é possível de ser definido em relação à consciência, ou seja, o objeto é objeto para algum determinado sujeito.

Com esta obra de Husserl, percebe-se sua importância no pensamento contemporâneo quando se propõe a trabalhar a dimensão do conhecimento. Mesmo diante do que Descartes e outros filósofos já trabalharam, Husserl vai além da reflexão destes ao propor uma reflexão com caráter científico, tornando a fenomenologia não apenas uma atitude intelectual natural, mas uma atitude intelectual filosófica. Para que a verdade filosófica se torne permanente, é preciso que ela alcance as coisas da forma como estas se apresentam à consciência. Assim, a filosofia deve buscar o alcance da essência do conhecimento. Esta obra de Husserl coloca todas as coisas enquanto fenômeno da consciência, de tal modo que se pode interrogar como é possível compreender que tudo o que está em torno de um sujeito, existe somente em relação à consciência. Não seria permanecer subjetivista como Descartes e psicologista como Brentano?

Esta obra de Edmund Husserl contribui muito e é essencial para uma compreensão filosófica, principalmente no que diz respeito ao pensamento contemporâneo. É dirigida a todo público da academia filosófica, ou para quem se sente admirado pelo saber, pelo conhecimento, mas principalmente, para quem deseja pesquisar a contemporaneidade, pois Husserl está entre os autores que mais influenciaram este período.

Notas
*Graduando em Filosofia na FAM

1 comentário

  1. Emanuele

    Muito bom, gostaria de ver a continuação sobre as outras lições…

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *