Luciano de Oliveira Pereira

A dialética do senhor e do escravo, a qual abordaremos neste artigo, se encontra na obra Fenomenologia do Espírito, de G. W. Friedrich Hegel (1770 – 1831). Nosso objetivo aqui é mostrar como a consciência-de-si se relaciona com os termos para-si, em-si, outro, vida etc., situando esses termos na dialética do senhor e do escravo para melhor compreendê-los.

Como consciência-de-si podemos entende um voltar-se saindo do ser percebido e sentir como algo observado, sendo um reflexo da consciência sobre si. Na consciência-de-si há um desejo, que é o de buscar o outro, e dessa forma para ser acaba aniquilando o outro, envolvendo-o em sua identidade.

 O para-si podemos entender como uma consciência-de-si. Quando dizemos que há seres independentes, é o mesmo que dizer que são para-si; entendendo para-si como retorno à unidade e a unidade como algo que está no interior de cada ser finito.

Quando observamos a vida, ela nos mostra o outro que é diferente dela, entendido como consciência, pois na vida há esta unidade para-si. Ao chegar no objeto, que é abstrato compreendido como um Eu puro, não podemos entender o Eu da consciência como objeto para ela, e sim o outro, porque são consciência o Eu e o objeto.

Assim, a consciência-de-si é para-si, e o em-si é uma consciência que está intrínseca no indivíduo. Por exemplo, “Um bebê é racional em si, mas não para si, porquanto não tem consciência de que é racional; um escravo é, como um homem, livre em si mesmo, mas pode não ser livre para si mesmo” (INWOOD, 1997, p.111).

A consciência-de-si é simples e igual a si mesma. Com Hegel podemos ver a consciência-de-si como algo que é para-si e para o outro, dando uma ideia de duplicação em alguns momentos da consciência.

Observando a consciência-de-si, podemos ver que há outra consciência-de-si que vem do exterior, e dá o significado ao sentido duplo que é o de perder e o de suprassumir o outro. Esse suprassumir o outro, devemos compreender como adquirir a essência de algo e o absorver para-si, tornando-se a mesma essência do outro.

A consciência-de-si retorna a si, deixando o outro livre ao atraí-lo para-si, tendo a necessidade de um agir duplo, que é ao mesmo tempo separado. Existe uma ordem na qual a consciência-de-si é o meio termo, e as duas extremidades que o acompanham são a consciência e a consciência-de-si-objeto. Segundo Hegel os extremos só veem no outro aquilo que é comum a si.

É de forma negativa que surge primeiro a consciência-de-si, sendo com outro negativo, e quando o outro fica positivo, aparecem dois indivíduos que são o outro e o si, originando uma luta entre duas consciências-de-si. O combate é de vida ou morte e dá entre consciência e não-consciência.

Na dialética[1] do senhor e do escravo, o senhor aparece como a vida e o escravo como um ser para o outro, sendo comparado a uma coisa. O senhor é visto como para-si, enquanto o escravo é a ponte entre o senhor e o objeto de seu querer, sendo o escravo uma coisa de seu senhor. “[…] o que o escravo faz é justamente o agir do senhor, para o qual somente é o ser-para-si, a essência: ele é a pura potência negativa para a qual a coisa é nada, e é também o puro agir essencial nessa relação” (HEGEL, 1992, p.131).

No agir do escravo não existe essência, pois se trata de pura negação, porque o senhor não reconhece seu escravo, é só o escravo que reconhece o seu senhor. Este é consciência-de-si independente, enquanto o escravo é a consciência reprimida para dentro si. “Cada consciência-de-si quer provar que é autêntica consciência-de-si, no desapego da vida corporal. Uma abdica para conservar a vida: o escravo. A outra emerge como autêntico ser-para-si: o Senhor” (MENEZES, 1985, p.55).

Mas o senhor que domina seu servo não se pode dizer livre, pois “[…] acaba escravo, porque, acostumado a ser servido, nada sabe fazer. Ele não pode se realizar como autoconsciente porque necessita do outro […]” (CASTRO, 2008, p.92). Na concepção de homem hegeliana pode se dizer que se procura relacionar o homem com os diversos níveis da realidade, sem dar elevação a um nível, pois o ser humano é um todo.

O servo através de seu trabalho vê-se contrário ao senhor, pois no trabalho o escravo alcança a consciência-de-si, dando um sentido a si mesmo. Dessa forma vemos que o processo dialético de Hegel é um modo de explicar o movimento e a mudança tanto no mundo quanto em nosso pensamento, dando-nos uma imagem da constituição de nossa consciência, pois o processo de submissão degrada tanto quem é submetido, como também o quem o submete.

Neste momento o escravo é livre em-si, mas para-si ou em sua autoconsciência ainda está preso, ele precisa buscar a razão para que o ajude a libertar-se, porque é por meio dela que vai legislar e criticar o seu estado atual; somente em pessoas livres é que a razão será concretizada, encontrando seu caminho e sua completa realização.

A liberdade efetiva de um indivíduo consiste nele pessoalmente obtendo dos seus interesses um completo reconhecimento e seus direitos atendidos, tendo uma consciência-de-si, mas não se esquecendo de que faz parte de um ambiente universal.

A intenção de Hegel com o exemplo do senhor e do escravo é conduzir a consciência a um saber absoluto, com o qual o homem encontra seu fundamento último e tem consciência-de-si.

 

Referências

 CASTRO, Susana de. Introdução à filosofia. Petrópolis: Vozes, 2008.

HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. Tradução de Paulo Meneses com colaboração de Karl-Heinz Efken. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1992.

INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

MENESES, Paulo. Para ler a Fenomenologia do Espirito. São Paulo: Loyola, 1985.


[1] “Para Hegel, a dialética não envolve um diálogo entre dois pensadores ou entre um pensador e o seu objeto de estudo. É concebida como a autocrítica autônoma e o autodesenvolvimento do objeto de estudo, de, por exemplo, uma forma de consciência ou um conceito” (INWOOD, 1997, p.99).

2 Comentários


  1. Boa reflexão meu caro. Publique mais artigos sobre Hegel.

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  2. RicardoB

    Este texto necessita de uma revisão gramatical.

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