Alex Cristiano dos Santos

Em sua obra “Indústria cultural e sociedade”, Adorno concebe tempo livre como possibilidade produtiva, criativa, de desenvolvimento, de verdadeira liberdade. Entretanto, percebe o nosso filósofo que, com o desenvolvimento do sistema capitalista, o tempo livre passou a se subjugar ao trabalho, alienando o indivíduo do direito a este, prendendo-o aos interesses do sistema capitalista através de sua indústria cultural. Esse domínio exercido pelo sistema capitalista deixa-nos a seguinte indagação: seria possível uma emancipação do indivíduo, transformando seu tempo livre em liberdade e autorrealização?

Tempo livre

Convencionou-se, pelo senso comum, conceituar tempo livre em oposição a trabalho como espaço de tempo para o ócio, o lazer descompromissado. Segundo Adorno, o tempo livre se encontra na possibilidade de liberdade do indivíduo, possibilidade de se reconhecer, pelo processo cognitivo, seus interesses, suas vontades. O tempo tornar-se-á verdadeiramente livre quando possível de ser vivenciado na liberdade. (NASCIMENTO, 2009, p.3)

O tempo livre é tempo de racionalidade, de desenvolvimento de novas capacidades ou aprimoramento de capacidades já presentes. É possibilidade de produção intelectual, artística, cultural, de lazer. O tempo livre não exige, necessariamente, uma cisão do tempo em duas partes: tempo produtivo ou tempo do trabalho e tempo livre. O trabalho para o indivíduo livre, consciente e emancipado não se manifestará em oposição ao tempo livre, mas trará satisfação e realização assim como o tempo livre.

Compor música, escutar música, ler concentradamente, são momentos integrais da minha existência, a palavra “hobby” seria escárnio em relação a elas. Inversamente, meu trabalho, a produção filosófica e sociológica e o ensino na universidade, têm-me sido tão gratos até o momento que não conseguiria considerá-los como opostos ao tempo livre, como a habitualmente cortante divisão requer das pessoas. (ADORNO, 2009, p. 63)

A plenificação do tempo livre se dá na autonomia do indivíduo que reflete sobre si mesmo, sobre seu tempo, e age de forma livre, conjugando seus interesses e desejos com suas possibilidades. Racionalmente, ele utiliza-se do tempo para realizar o que deseja, seja produzindo, seja adquirindo, seja apreciando cultura, arte ou simplesmente o viver[1].

Indústria cultural

Segundo nosso filosofo, a indústria cultural seria a capacidade de produzir material, seja ele mercadoria, informação, arte, ideologias, com o objetivo de despertar o desejo consumista produzindo ganho financeiro. Trata-se de uma produção em série e que, frequentemente, exige pouca capacidade intelectual do consumidor.

A indústria cultural seria a capacidade de produzir o produto e ao mesmo tempo criar sua necessidade de uso (…). Não se trata de produzir uma mercadoria qualquer, mas uma mercadoria com determinado valor simbólico, produzida em grande escala (serialização), com baixo custo e de forma padronizada (estandardizada). (MEZZAROBA, 2009, p. 3)

A indústria cultural utiliza-se dos meios de comunicação, cada vez mais globalizados e integrados, para transformar formas de lazer como o esporte, o camping, ou formas de cultura como a arte televisiva e cinematográfica em possibilidades mercantis. Essa produção prima pela baixa qualidade intelectual, o que possibilita uma maior abrangência e evita despertar no indivíduo uma capacidade reflexiva e crítica sobre o que lhe é oferecido.

Também se buscou, pela indústria cultural, subordinar o tempo livre ao trabalho, substituindo sua conceituação, que possibilitaria o crescimento do indivíduo – como liberdade reflexivo-consciente-produtiva, produzindo arte, conhecimento etc. – por uma conceituação que favoreça o trabalho – ócio improdutivo ou prática do nada. “O ‘tempo livre’ teria a função de restaurar a força de trabalho” (NASCIMENTO, 2009, p. 2)

Alienação do indivíduo

A alta produtividade do sistema capitalista e a necessidade do indivíduo como força de produção levou a uma alienação do indivíduo de seu tempo livre. Não importa o desenvolvimento do indivíduo enquanto sujeito, mas seu papel social desenvolvido. Com isso o tempo livre passou a ser moldado como extensão do trabalho. O tempo livre passa a ser determinado pela função social que o indivíduo ocupa, adestrando-o para seu trabalho.

Decerto, não se pode traçar uma divisão tão simples entre as pessoas em si assim chamados papéis sociais. Esses penetram profundamente nas próprias características das pessoas, em sua constituição íntima. Numa época de integração social sem precedentes, fica difícil estabelecer, de forma geral, o que resta nas pessoas, além do determinado pelas funções. (ADORNO, 2009, p. 62)

Nesse processo de alienação do indivíduo de seu tempo livre, este – o tempo livre – passa a ser utilizado como forma de manutenção do sistema capitalista. Mercadoriza-se o tempo livre. Um exemplo disso é o esporte. Não basta que o indivíduo pratique esporte. A indústria cultural vende a ideia de que, para se praticar esporte é preciso que o indivíduo adquira aquela camisa, aquele tênis que é utilizado por aquele atleta patrocinado por aquele fabricante. “O tempo liberado (…) [torna-se] alvo de interesses opostos entre classes sociais. A classe dominante dos empresários tende, portanto, a explorar a aspiração ao lazer por meio de produção e difusão de bens e serviços lucrativos”. (MACHADO; MEDEIROS, 2011, p.1)

Com isso, a vida do indivíduo em sua totalidade passou a ser controlada pelo sistema capitalista, através de sua indústria cultural, que controla a consciência e a inconsciência do indivíduo, regulando sua vida produtiva enquanto tempo de trabalho e enquanto tempo livre voltado para o trabalho e para o consumo dos bens e serviços produzidos por essa indústria. Configura-se o indivíduo, pela indústria cultural, para constituir um todo do sistema capitalista.

A sociedade, moldada pelo sistema capitalista, recomenda a renúncia à fantasia, à imaginação, ao processo reflexivo consciente. Sem capacidade de imaginação, de se refletir conscientemente, torna-se mais fácil a manipulação da consciência do indivíduo, o que permite que a indústria cultural tenha sobre ele um controle integral – controle sobre o tempo de trabalho e sobre o tempo livre.

Percebe-se, portanto, que a indústria cultural procura alienar o indivíduo de seu tempo livre, moldando-o como mecanismo produtivo do sistema capitalista, ao mesmo tempo em que cria mercado para os bens ou serviços produzidos, transformando-o em consumidor do que esta indústria produz e oferece.

Emancipação do indivíduo: em busca do tempo verdadeiramente livre

Sobre um indivíduo marcado pelo processo de alienação de seu tempo livre e configurado como mecanismo produtivo do sistema capitalista, através de sua indústria cultural, poder-se-ia esperar que este fizesse, de seu tempo livre, algo de produtivo e criativo?

Segundo Adorno, desde a infância a renúncia à fantasia é recomendada insistentemente pela sociedade, o que destruiria a capacidade criativa das pessoas. Uma vez que se destruiu a produtividade e capacidade criativa das pessoas, seria insensato esperar que essas fizessem algo de produtivo e criativo em seu tempo livre, porque seus produtos seriam, no máximo, imitações e produções supérfluas. (NASCIMENTO, 2009, p. 2)

Todavia, percebe-se que o indivíduo não perdeu completamente a capacidade de reflexão sobre o que a indústria cultural o oferece, tornando-se um consumidor sem reservas. “As pessoas aceitam e consomem o que a indústria cultural lhes oferece para o tempo livre, mas com um tipo de reserva, de forma semelhante à maneira como mesmo os mais ingênuos não consideram reais os episódios oferecidos pelo teatro e pelo cinema”. (ADORNO p. 69-70)

A realidade do indivíduo, seus interesses, desejos, mesmo que moldados pela indústria cultural, ainda mantém-se como parâmetros para as escolhas deste. O controle da indústria cultural sobre o indivíduo não conseguiu chegar ao ponto de tomar toda a sua consciência, vendendo-lhe produtos, serviços e ideias contrários as suas convicções como realidades supremas, verdadeiras e benéficas a ele.

A não alienação total do indivíduo permite-nos pensar na possibilidade da emancipação deste. Para tal, seria necessário um processo educacional que permita ao indivíduo conhecer a si mesmo, a sociedade que o cerca, a cultura a que pertence e as possibilidades que lhe são oferecidas, para que, enriquecido pelo conhecimento, possa discernir sobre o que mais lhe convenha. Uma formação educacional de qualidade permitiria ao indivíduo se conscientizar de sua importância na sociedade, reconhecendo-se como protagonista do sistema, transformando a relação de subjugação em relação de igualdade, liberdade e respeito.

Concluímos que, apesar do domínio latente do sistema capitalista através de sua indústria cultural, o indivíduo mantém certo nível de consciência sobre o que lhe é oferecido e sobre as escolhas que faz. Isto nos permite pensar que a emancipação do indivíduo do jugo do capitalismo, exercido por sua indústria cultural, seria possível através de um processo educacional que possibilitasse ao indivíduo reconhecer sua dignidade e seu protagonismo na sociedade, tomando em suas mãos o controle da própria vida, transformando seu tempo livre em liberdade e possibilidade de autorrealização.

Referências

ADORNO, Theodor W. Tempo livre. In: ______. Indústria cultural e sociedade. 5. ed. Tradução de Maria Helena Ruschel. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 71.

MEZZAROBA, Cristiano. Esporte e lazer na perspectiva da indústria cultural: aproximações preliminares. Esporte e sociedade, s.l., ano 4, n. 11, p. 1-11, mar./jul. 2009. Disponível em: http://www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/dcefs/Prof._Adalberto_Santos/5-esporte_e_lazer_na_perspectiva_da_industria_cultural-aproximacoes_preliminares_11.pdf. Acesso em: 10 set.2012

MACHADO, Danielle Fernandes Costa; MEDEIROS, Mirna de Lima. A era do lazer enlatado: algumas reflexões sobre o tempo livre e o tempo do trabalho. In: SEMINÁRIO DA ASSOCIAÇÃO PESQUISA E PÓS GRADUAÇÃO EM TURISMO, 8., 2011, São Paulo. Trabalhos apresentados. São Paulo: Associação Nacional de Pesquisa e pós-graduação em Turismo, 2011. p. 12. Disponível em: http://www.anptur.org.br/anais2011/pdf/240-652-1-SP.pdf. Acesso em: 10 set. 2012

NASCIMENTO, Renata Morais do. Possíveis contribuições de Theodor W. Adorno para estudos sobre o lazer. In: MOSTRA ACADÊMICA UNIMEP, 7., 2009, Piracicaba. Resumos dos trabalhos apresentados. Piracicaba: Universidade Metodista, 2009. p. 4. Disponível em: http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/7mostra/1/14.pdf. Acesso em: 10 set. 2012


[1] Viver: enquanto nada criativo, contemplação das realidades, movimento reflexivo.

3 Comentários


  1. Alex Cristiano dos Santos, vc foi intuitivo, simples e direto. Parabéns.

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    • Michelle

      Parabéns pela excelente síntese! Clara, rica e direta! Obrigada por isso!

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  2. Alex Cristiano Mendes, vc foi intuitivo, simples e direto. Parabéns

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