Fabrício Lopes Fernandes*

Resumo: Esta pesquisa visa refletir sobre um autor de suma importância para o início e processo de debates filosóficos do século XVII: René Descartes. Em uma de suas principais obras, as Meditações, Descartes, depois de afirmar o cogito cartesiano, fala de suas premissas para provar a existência de Deus. Refletir-se-á sobre o que ele propõe, ressaltando também a importância desse pensamento que inaugurou um novo estilo de estudo do metafísico. Aqui, será abordada esta questão filosófica que perpassou as gerações da filosofia: o discurso sobre Deus e sobre a sua existência.

Palavras-chave: Deus. Descartes. Meditações. Ideia. Infinito

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 

Para entendermos um pouco mais sobre o discurso acerca de Deus elaborado por Descartes em sua obra Meditações, tentaremos de forma breve fazer seu percurso com relação ao método que o leva à certeza do cogito. Em seguida, pretenderemos dizer um pouco de suas primeiras premissas em Meditações para dizer da existência de Deus, dando um pouco de ênfase à reflexão sobre a possibilidade de existência de um Deus enganador. E, a partir disso, refletiremos um pouco de como Descartes saiu dessa problemática que atribuiria caráter malicioso ao Deus perfeito que, em muitas religiões, é aclamado na figura paterna diante de tanto amor que sua figura parece transmitir a ponto de amar os seus mais do que uma mãe biológica.

Enfim, quanto ao final das meditações, abordaremos as premissas que o autor se vale para dizer de Deus quanto à sua relação com a ideia de infinitude que trazemos em nós. Propomo-nos, então, a colocar mais ênfase na ideia de perfeição que na de infinito para dizer do Divino. Ao explicitar o valor dessa preferência de termos que não é a comum atribuída nesse momento comumente para dizer do princípio importante para René Descartes em sua metafísica do Télos.

 

1 O CAMINHO DA DÚVIDA PARA CHEGAR AO COGITO

 

Descartes deseja abordar em sua obra Meditações como principais conceitos Deus, alma e corpo. A reflexão do ser divino é vista em seu pensamento como grande objeto para pesquisas e estudos para qualquer acadêmico. Nesta obra, especificamente, nos encontraremos com este tipo de reflexão juntamente com definições específicas de alma e corpo. Dividida em seis partes, as reflexões que veremos são de sua obra Meditações, que fazem alusão às meditações religiosas, como um caminho feito para se explicar conceitos demonstráveis através da racionalidade para se chegar a um verdadeiro conhecimento indubitável.

 Ele chama Meditações um pequeno tratado de Metafísica que, segundo Emanuela Scribano, tem como pontos principais “provar a existência de Deus e a das nossas almas, quando são separadas do corpo, (bem como) de onde se segue sua imortalidade[1]” (SCRIBANO, 2007, p.10). É uma obra que pertence ao âmbito metafísico. Seu principal objetivo é criar um método que seja acessível a todos.

Se é que eu creio que nada se poderia fazer mais útil na Filosofia do que procurar uma vez com curiosidade e cuidado as melhores e mais sólidas razões e dispô-las numa ordem tão clara e tão exata que doravante seja certo a todo mundo serem verdadeiras demonstrações (DESCARTES, 1973, p. 84). [2]

Na primeira meditação, Descartes faz-nos pensar que o mundo corpóreo que se apresenta a nós, sendo da possibilidade de não existir. Logo ele fala da dúvida hiperbólica. E questiona a validade expressa por verdades, inclusive a própria matemática. Na biografia que Stephen Gaukroger faz do autor ele complementa que: “Na Meditação Primeira, todavia, Descartes admite que verdades matemáticas como 2+2=5 podem ser submetidas à dúvida hiperbólica e, nesse ponto, é bem possível que haja uma contradição lógica” (GAUKROGER, 1999, p. 416). Ou seja, também as verdades matemáticas são incertas.

No início da segunda meditação é notório o uso da dúvida como método da busca de alguma certeza segura. Isso não o prende ao ceticismo. Lembrando que Descartes buscava uma certeza de onde poderia fundar toda a sua filosofia. Colocou em dúvida tudo o que já tinha como conhecimento, visto que os sentidos enganam, e até mesmo a razão, com o argumento do sonho que utiliza para dizer de nossas incertezas quanto ao que é real. Mas uma coisa lhe parece certa enquanto assim reflete. Ele pode duvidar de tudo o que julga conhecer, porém não pode duvidar da própria dúvida.

Mas, logo depois que atentei que, enquanto queria pensar assim que tudo era falso, era necessariamente preciso que eu, que o pensava, fosse alguma coisa; e, notando que esta verdade, Penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes da abalá-la, julguei que podia admiti-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que buscava. (DISCURSO, IV, AT VI, 32) [3].

Essa mesma ideia é questionada por muitos por parecer já presente em Agostinho em seu livro Cidade de Deus (livro 11, cap. 26) quando diz: Si fallor, sum “Se engano existo”. Para Georges Pascal quando Descartes é interrogado por um correspondente sobre tal aparente reminiscência, ele vai à procura pela obra do Santo para se certificar. O que parecia indicar que não possuísse qualquer contato com essa citação do santo antes.

Mesmo a hipótese de um enganador como ainda sugere Descartes, a certeza do cogito não pode ser abalada. O processo para se chegar a esta certeza indubitável, podemos dizer, se dá do seguinte modo no sujeito. Primeiro, vale-se da dúvida de todo conhecimento já obtido. Logo após, percebe que pode duvidar de tudo, exceto que duvida. Então, uma certeza lhe apresenta claramente, que é a de sermos seres que duvidam. Para Descartes, essa indubitabilidade da dúvida se assemelha ao pensar e, consequentemente, em seu pensamento, a uma certeza de existência.

A reflexão que alcança usando o método da dúvida leva o filósofo a pensar na hipótese de Deus enganador (excluindo lhe as características que comumente lhe são atribuídas como; onipotência, onipresença e onisciência, sobretudo sua bondade) No entanto, Kenny defende que “O princípio de que Deus não é enganador é o fio que permitirá a Descartes nos conduzir para fora dos desapontamentos do ceticismo” (Kenny, 2009, p. 149). Ou seja, ao defender que Ele não pode ser enganador, a dúvida de que se valeu se resume a um exercício metódico do conhecimento, e não uma afirmação propriamente de se aderir ao ceticismo.

 

2 PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS E A HIPÓTESE DE UM ENGANADOR

 

As primeiras provas da existência divina se encontram na terceira meditação. Para René, Deus coloca a ideia da substância infinita no intelecto humano, pois por si só ele que é finito não a poderia produzir, logo ele tem de existir para que isso ocorra. Todas as coisas que avaliamos por claras e distintas se fundam desta ideia de perfeição que encerra tudo o que é real e verdadeiro. “Concebo Deus atualmente infinito em tão alto grau que nada se pode acrescentar à soberana perfeição que ele possui” (DESCARTES, 1973, p.117).

Sobre a possibilidade de esta ideia de Deus ser falsa ele afirma: “Sendo esta ideia mui clara e distinta, e contendo em si mais realidade objetiva do que qualquer outra, não há nenhuma que seja verdadeira nem que possa ser menos suspeita de erro e de falsidade (DESCARTES, 1973, p.116)”. Essa ideia, portanto não pode vir a ser falsa, pois vem de um ser soberanamente perfeito e infinito. O que ainda garante mais para Descartes é por conter em si mesma, (ou seja, na ideia) uma presença de perfeição que independe de qualquer coisa.

O próximo argumento de Descartes é sobre o efeito causal de si. Como substância de natureza pensante que tem em si a ideia de Deus, ele vê a necessidade de que a causa de sua natureza necessariamente tenha de ser de igual modo pensante possuindo em si toda a ideia de todas as perfeições a partir da conclusão do cogito que alcançara. Sua reflexão continua dizendo da impossibilidade de ter adquirido esta ideia dos sentidos, nem mesmo de seu próprio espírito, mas que tenha sido adquirida do próprio Deus.

Na quinta meditação Descartes fala que não é possível separar a essência da existência de Deus. Pensá-lo assim seria concebê-lo como algo que lhe falta uma existência consistente. Seria o mesmo que tentar separar a essência de um triângulo retilíneo de seus três ângulos iguais a dois retos. Concebê-lo separado não está em sua liberdade de ser pensante. É colocado aqui também o conceito de necessidade da união das duas realidades em Deus: liberdade e ser pensante em perfeição.

Para o filósofo a partir de então, torna–se possível o adquirir de uma ciência perfeita. Diferentemente de antes que nenhum conhecimento era perfeito sem esse fundamento que veio a encontrar. “não somente das que existem nele, mas também das que pertencem à natureza corpórea” (DESCARTES, 1973, p.136). A justificação agora se dá a soberania de Deus vista no corpo e na alma dos homens que criou com uma perfeição e eficácia para a conservação do próprio. E, portanto não há nada neles que torne incompatíveis o poder e a bondade divina que os fizeram.

“Há muito que tenho no meu espírito certa opinião de que há um Deus que tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou” (DESCARTES, 1973, p. 94). Descartes considera que ninguém o pode garantir de que esse Deus de que fala não tenha feito às coisas existirem tais como ele as percebe. E poderia ainda mais o enganar nas coisas que as outras pessoas consideram com maior certeza que seria enumerar lados de um quadrado, adição de números por mais simples que se parece fazê-los. No entanto o filósofo diz que Deus não poderia querer decepcioná-lo assim, pois ele é considerado sumamente bom.

Caso venhamos negar a existência de um Deus tão poderoso, poderemos supor um gênio maligno: “Suporei, pois, que não há um verdadeiro deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno” (DESCARTES, 1973, p. 96). Tudo que, no entanto parecemos conhecer vem neste caso a ser uma ilusão e enganação desse gênio maldoso. O gênio poderá enganar sobre tudo que pensamos conhecer, todavia de que somos capazes de pensar e duvidar ele não pode nos enganar.

Seu dever agora é refutar a possibilidade de Deus ser enganador: “Por que Deus não possui defeitos, argumenta Descartes, ele não pode ser enganador” (Kenny, 2009, p. 149). Assim, Descartes consegue. É o mesmo que pensarmos que a perfeição divina, não pode permitir que Ele fosse enganador. Assim sendo deixaria de ser tão perfeito quanto nos parece. No entanto, a sua perfeição é o que salvaguarda sua bondade, que é infinita.

 

3 A IDEIA DE DEUS: MAIS PERFEIÇÃO QUE INFINITUDE

 

Falar de Deus em Descartes e nas Meditações não tem como deixar de dizer da ideia. Ela como se apresenta em nosso intelecto, sendo a causa de si mesma, torna-se umas das principais provas utilizadas pelo ‘pai da modernidade’[4] para dizer do Divino.

Se examinamos a apresentação definitiva da filosofia primeira de Descartes, as Meditações, vemos que todas as várias provas diferentes da existência de Deus envolvem, como uma de suas premissas, uma referência explicita à ideia de Deus (BEYSSADE, 2009, p. 215).

Descartes em Meditações pressupõe primeiramente para falar de Deus a ideia como algo que foi dado a nós. E a partir dessa ideia que nos foi dada ele dá vida aos outros argumentos de prova de Deus. “Deveríamos concluir daí que, ao seguirmos as provas a posteriori da existência de Deus de Descartes, testemunhamos a construção de uma ideia de Deus” (BEYSSADE, 2009, p. 219).

O nosso próprio intelecto seguindo o percurso sugerido por Descartes nos leva a perceber essa ideia em nós. Que podemos considerar como construída, mas que na verdade se parece mais com uma descoberta. Pensá-la como uma ideia construída é desejar entende-la como algo que se faz num processo criatório. Um processo que esclarece e torna mais inteligível o que é próprio do intelecto humano como presença viva a ideia do perfeito, à qual chamamos Deus. Por isso, uma ideia de construção que se remete mais a uma redescoberta torna-se mais aceitável para não cairmos no risco de dizer que a metafísica de descartes é algo que ele criou, e não descobriu. Assim pensada, evitar-se-á o risco de concebê-la como simples criação do intelecto subjetivo.

Alguém poderia talvez resumir a questão dizendo que Deus é (neste sentido) tanto construído quanto definido como aquele objetivo que me esforço por alcançar, como aquilo que aspiro ser. Não devemos confundir aqui ideias com pensamentos: alguns de meus pensamentos, como o desejo ou a dúvida, não são ideias; Uma ideia é aquilo que representa um objeto (BEYSSADE, 2009, p. 219).

“A formação da ideia de Deus equivale, efetivamente, à determinação do objetivo ao qual eu viso” (BEYSSADE, 2009, p. 220). Diante da dúvida e do sentimento de ser Descartes afirma que:  “uma coisa incompleta e dependente, a ideia de um ser completo e independente, ou seja, de Deus, a presenta-se a meu espírito com igual distinção e clareza; e do simples fato de que essa ideia se encontra em mim, ou que sou e existo, eu que possuo esta ideia, concluo tão evidentemente a existência de Deus e que a minha depende inteiramente dele em todos os momentos de minha vida, que não penso que o espírito humano possa conhecer algo com maior evidência e certeza” (DESCARTES, 1973, p.123). Portanto, Deus é considerado a coisa mais fácil de conhecer. Não associação direta a ideia de número, pois:

A existência não pode ser derivada da ideia de um número infinito (por que este número pode ou não existir), ao passo que a existência origina-se necessariamente da ideia de Deus, uma vez que a existência é uma de suas perfeições (BEYSSADE, 2009, p. 225).

Do infinito não se pode deduzir a ideia de Deus pela sua incerteza de existência. Neste caso ele pode ser dubitável, assim como o autor apresenta a ideia de números. A ideia de Deus pelas suas perfeições pode oferecer possibilidade a existência de modo a ser unicamente necessário por essa via por participar de suas perfeições.

Quanto mais a substância pensante não puder por hipótese ser a causa de uma determinada ideia, mais realidade objetiva esta ideia tende ter em si. A causa da realidade objetiva da ideia de Deus possui grau de realidade que é infinita. Aceitando estes princípios, podemos concluir que a ideia de Deus ou é causada por uma ideia que tenha mais realidade objetiva que a sua ou é causada por uma res, isto é, uma realidade atual que tenha no mínimo a mesma perfeição contida objetivamente na ideia.

O Deus de Descartes é ao mesmo tempo perfeito e infinito. A infinitude age sobre a perfeição, tornando-a incompreensível: nenhuma perfeição infinita encontra-se dentro de nossa compreensão. Mas a perfeição também age sobre a infinitude, tornando-a inteligível: a infinitude de Deus é positiva e perfeitamente entendida (BEYSSADE, 2009, p. 238).

A infinitude é compreendida por causa da perfeição. A infinitude em si não pode ser atingida pelo intelecto, todavia a perfeição pode conter em si a infinitude, ou seja, a infinitude pode ser abarcada pela perfeição em nosso intelecto pelo pensamento. Na interpretação de Beyssade, Deus não é compreendido apenas com a ideia de infinito em nosso intelecto, visto que não temos alcance dele todo em nosso pensamento, todavia com a perfeição ele é compreendido, pois a ela temos com clareza em nosso intelecto agindo sobre o infinito.

A ideia de Deus ultrapassa a capacidade finita do pensamento, tendo como explicação outra realidade atual, que é o próprio Deus. A impressão que temos aqui é que, admitindo a existência da ideia de Deus deve-se admitir necessariamente sua existência atual por ser sua única e possível causa.

Para Descartes, a ideia do infinito é anterior à ideia do finito. A própria ideia que temos de nós mesmos é derivada da ideia de Deus, embora só tenhamos um conhecimento claro disso após meditarmos mais a fundo a questão. A ideia do infinito é o arquétipo a partir do qual podemos compreender a própria noção da substância pensante enquanto um ser finito, que duvida, que se engana, que pode aumentar seu conhecimento indefinidamente pela sua capacidade racional.

A ideia de Deus é mais clara do que a ideia de distinção do corpo e da alma. Embora este conhecimento não contenha todas as propriedades divinas e infinitas, o que é justificado pela própria natureza finita do entendimento, ele é um conhecimento completo, no sentido de que ele não é produzido por uma prevenção ou precipitação do espírito e nem é derivado de alguma noção mais completa.

“[…] Descartes considera a intuição superior ao argumento como um método de obter e verdade” (Kenny, 2009, p. 153). Isso faz muita diferença na interpretação de seu pensamento, sobretudo nessa quinta meditação. Com ela, a reflexão gira em torno da justificativa da natureza corpórea e da necessidade de Deus como necessidade da clareza de sua existência para a própria certeza e fundamento em demonstrações das outras coisas do mundo.

O caminho que René faz é o seguinte: ele se pergunta se possui algum poder que o faz ser, já que é algo que existe como pensante e se este poder reside nele (corpo). Todavia, chega a esta conclusão: “Nada sinto de tal poder em mim, o que me faz reconhecer como suma clareza que dependo de algum ser diferente de mim mesmo” (DESCARTES apud GAUKROGER, 1999, p. 428). Isso se explica, por exemplo, quando pensamos a ideia do triângulo como ideias de coisas que realmente existem e não podem ser duvidosas ou falsas. Desta ideia ele pensa no quadrado como tão real e do círculo, mas da perfeição que um carrega em comparação ao outro. Logo, se Descartes ignorasse a existência de Deus como o Ser pelo qual todas estas coisas podem lhe ser demonstráveis existirem, ele teria suas teorias enfraquecidas. Aí sim cairia num ceticismo pelo qual se afirma que nada é necessário.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

É inegável a importância da reflexão do filósofo Descartes para o entendimento da filosofia moderna. Muito mais ainda no que concerne ao campo metafísico. Conhecido – como vimos no texto – como pai da modernidade não é por menos que seu pensamento venha ser tão relevante para toda a filosofia, e não só ela, mas para todos os campos das ciências modernas.

Deus é delimitá-lo para o filósofo em limites arbitrários. Porém, é possível dizer de provas favoráveis à sua existência. Ele pode criar coisas que não podemos conhecer, por exemplo.

Se na primeira prova, Descartes infere a existência de Deus a partir de sua ideia, na segunda o objetivo é mostrar que, enquanto uma substância finita, eu não poderia ter a ideia de Deus sem que Ele existisse. Essa prova de Deus se dá pelos seus efeitos. Na prova anterior, a batalha era para provar que a ideia de Deus não é inventada pelo espírito, enquanto que, aqui, o esforço é demonstrar que a impossibilidade de ser causa de si é a razão da impossibilidade de ser causa da ideia de Deus e, por isso, a causa dessa ideia não pode ser um ser finito, mas sim um ser infinito, ou seja, Deus.

Na argumentação ontológica, Descartes procura demonstrar que as essências das coisas corporais, que nada mais são que as ideias matemáticas, são verdadeiras. Ele revela que ainda que concebamos todas as outras coisas como existentes, não se infere disso que elas existam, mas unicamente que elas podem existir, pois não é necessário que sua existência atual esteja unida às suas outras propriedades. Com a ideia de Deus acontece exatamente o contrário, isto é, a existência atual é concebida clara e distintamente unida às outras propriedades. A unidade das provas da existência de Deus é atingida, portanto, através da união da causa eficiente à causa formal.

 

REFERÊNCIAS

 

DESCARTES, René. Meditações. Coleção os Pensadores. 1º edição. Trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

BEYSSADE, Jean-Marie. A ideia de Deus e as provas de sua existência. In.

COTTINGHAM, John (org.) Descartes; trad. De André Oídes.  Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2009.

GAUKROGER, Stephen. DESCARTES Uma biografia intelectual. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: UERJ, 2002.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Vol. III. O Despertar da Filosofia Moderna. Trad. Carlos Alberto Bárbaro. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

SCRIBANO, Emanuela. Guia para leitura das Meditações metafísicas de Descartes. Trad. Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

PASCAL, Geogers. DESCARTES. Trad Maria Ermantina Galvão Alves. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

 

* Graduando em filosofia na FDLM.

[1] Parênteses nosso.

[2] Introdução que faz a Deão e doutores da Sagrada Faculdade de Teologia de Paris.

[3] cf. DISCURSO, IV, AT VI, 32 apud  PASCAL, 1990, p. 39.

[4] Pai da modernidade: termo muito referido à Descartes.

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