Evaldo Rosa de Oliveira

Reginaldo Pereira Inácio


O niilismo vem do latim nihil que significa nada; é uma corrente filosófica que, a princípio, concebe a existência humana como isenta de qualquer sentido. Foi popularizada primeiramente na Rússia do século XIX, como reação de alguns intelectuais russos, principalmente socialistas e anarquistas à lentidão dos czares em promover as desejadas reformas democráticas. Porém o assunto a ser trabalhado se dará na perspectiva do filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900). Para ele “o niilismo é aquilo em que estamos e como pensamos, é teoria de razão e lógica de decadência” (OLIVEIRA, 1999: 51).

Segundo Nietzsche, o niilismo tem suas raízes na Grécia antiga, mais precisamente com a metafísica socrática-platônica. Com a dicotomia estabelecida por Platão, criam-se dois mundos o sensível, um mundo que é ilusório, por isso, aparente, e o outro mundo que é chamado de supra-sensível que é ideal e perfeito, portanto verdadeiro. Esta mesma dicotomia estabelecida por Platão está presente também no cristianismo.

Em Sócrates, o homem é definido como ser racional, o que o possibilita racionalizar sua vida, desconsiderando o aspecto trágico da mesma. Aspecto este, que contribuiu para que Nietzsche combatesse a sistematização. Para ele “sistematizar é querer regular a vida em movimento dentro de esquemas” (MACHADO, 1994: 22). Mas, nem tudo que se apresenta coerente e isento de contradições, por isso um dos objetivos da filosofia nietzschiana é valorizar o dionisíaco, isto é, o princípio desordem, da espontaneidade, que resgata o vir-a-ser no homem.

Paulatinamente o homem racionalizado percebe-se em meio ao niilismo, sem ter em que se apoiar, isento de valores e ideais. Assumindo assim a condição de um “andarilho que há muito caminhar numa área congelada e de repente com o desgelo, se vê surpreendido pelo chão que começa a se partir em mil pedaços. Rompidos a estabilidade dos valores e os conceitos tradicionais torna-se difícil prosseguir o caminho” (VOLPI, 1999: 7). A condição deste andarilho representa bem a condição concreta que o homem contemporâneo se encontra, o mesmo homem que tinha sua vida pautada em valores que eram “eternos” agora vive o niilismo, já que junto do niilismo vieram também a perda dos sentidos, dos grandes valores que eram tidos como pontos referenciais.

Ao constatar a morte de Deus, constata-se também o niilismo na modernidade. O que concretiza que a “fé no Deus Cristão deixou de ser plausível” (NIETZSCHE, 2002: §2). Conforme o próprio Nietzsche afirma, “(…) não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ (…) ‘Para onde foi Deus?’ Gritou ele, já lhes direi! Nós o matamos. Você e eu somos todos seus assassinos! (…) Deus está morto (…)” (SAFRANSKI, 2001: 277). A preocupação aqui não é epistemológica, mas ao contrário, mostrar como surgiu e porque desapareceu a crença de que havia um Deus. Afirmar a morte de Deus é negar os valores mais supremos que se tinham até então, por isso, é cabível mencionar o que afirmou Gianni Vattimo, “Deus morreu, mas o homem não vai muito bem” (NIETZSCHE, 2004: §9), ou seja, o homem moderno vive uma situação em que perdeu seus fundamentos e referências.

O niilismo é apresentado, não por Nietzsche, mas por alguns de seus estudiosos de formas diferentes que merecem ser mencionados, trata-se do niilismo negativo, passivo, reativo e ativo (FINK, 1988: 83-84). É do niilismo negativo que todos os outros tipos de niilismos derivam. Tem sua origem na dissolução dos valores supremos tradicionais, conforme ocorre ao platonismo e cristianismo, o homem nega o real em detrimento do que é vão.

Já no niilismo passivo há o “desaparecimento de toda vontade, a ausência de todo valor, o fim do amor, da criação, do anseio; tudo é igual nada vale a pena, o saber nos sufoca” (MACHADO, 1999: 70). Com isso, a vida passa a não ter mais valor e os homens passam a se sentirem sozinhos no mundo. O niilismo reativo é o que a modernidade viveu através do ocultamento de Deus. “O homem reativo não suporta mais nenhuma testemunha quer estar sozinho com seu triunfo e apenas com as forças” (NIETZSCHE, 2002: §2).E, por último, o niilismo ativo que tem a vida regida pelo nada, além de tê-la como abertura ao trágico.

Portanto, o niilismo destrói todos os fundamentos, mas ele é por sua vez, um “mal necessário”, caso a transvaloração dos valores seja levada em consideração. Pois é por meio desta transvaloração que os valores que são considerados eternos, imutáveis e inquestionáveis, passam a ser desconsiderados, resgatando assim, os valores que eram considerados subordinados e secundários.

Ao assumir o niilismo niitzschiano, é necessário levar em consideração as três transformações possíveis ao ser humano, sendo necessário enfatizar o da criança. “Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão finalmente em criança” (REALE, ANTISERI, 1991: 431). O camelo é o “homem de grande veneração, que se inclina diante da hegemonia de Deus, diante da proeminência da lei moral que se prosterna e transporta docilmente o seu pesado fardo” (ib.: 436). Ou seja, o homem camelo tem como característica, o tu deves, obedecendo o sentido da vida ao que lhe é imposto, ele não é capaz de revoltar-se conta os fardos pesados que lhe é imposto.

Apesar do leão descobrir o eu quero e por isso lutar contra o tu deves, “nesse eu quero ainda existe demais desafio e rigidez, ainda não existe a verdadeira liberdade do querer criativo, ainda não chegamos a nós mesmos, no tesouro da nossa vida” (NIETZSCHE, 1998: §2). Fazendo assim com que o homem que carregava o peso de uma tradição se torne imponente. Portanto, este processo se completa quando o leão se transforma em criança.

“A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação” (MACHADO, 1997: 46). Ela é inocente por ser incapaz de adequar sua conduta a preconceitos da mente humana, mas ao contrário ela vive e aceita a vida tal como esta lhe é apresentada.

Portanto, diante do niilismo, deve levar em consideração esses três momentos: camelo, leão e criança. Pois, o niilismo nasce paralelamente a estas transformações, ele rompe com o peso da tradição, com os valores supremos. Por isso, rompe com o tu deves, mas ele vai além, rompe também com os fundamentos que são criados num dado momento, fazendo assim, com que a espontaneidade esteja presente no homem niilista, que passa a não ter preconceitos, não carregar o peso da tradição, nem se impõe, mas resgata o aspecto do vir a ser.

Referências

FINK, Eugen. A filosofia de Nietzsche. Trad. Joaquim Lourenço Duarte Peixoto. 2° ed. Lisboa: Editorial Presença, 1988.

MACHADO, Roberto Cabral de Melo. Deus, Homem e Super-Homem. In: Revista Kriterion, Belo Horizonte, vol. 35, n. 89, 1994.

MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

NIETSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das LetraS, 1998.

_____. Aurora. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

_____. Crepúsculo dos Ídolos: como se filosofa as marteladas. Trad. Delfim Santos. Lisboa: Guimarães Editoras, 2002.

OLIVEIRA, Ibraim Vitor de. A irresistível provocação do nada. Roma: Pontifícia Universidade Gregoriana, 1999. (Mestrado em filosofia)

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol III. São Paulo; Paulus, 1991.

SAFRANSKI, Rudiger. Nietzsche, Biografia de uma tragédia. Trad. Lya Luft. São Paulo: Geração Editorial, 2001.

VOLPI, Franco. O Niilismo. Trad. Aldo Vannucchi. São Paulo: Loyola, 1999.

MACHADO, Roberto Cabral de Melo. Zaratustra, tragédia nietzschiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

4 Comentários

  1. Maurício de Assis Reis

    O niilismo, um abismo que se abre com a morte de Deus num aparente salto do pensamento moderno para o contemporâneo, parece atingir na veia os pensadores que vieram depois de Nietzsche. O louco que procura no mercado com uma vela um Deus que está morto se assemelha à procura, incrivelmente atual, por um sagrado que marque o sentido, o telos de uma vida moderna sem sentido. Basta ver a pluralidade de igrejas, seitas, religiões de hoje. Ainda existe, contudo, algo que incomoda esse quadro: a transformação do camelo para o leão, onde este último diz “eu quero” contrasta com uma realidade influenciada profundamente pela velocidade do agir e das transformações técnicas e que perde a capacidade de uma reflexão propriamente dita. Questionaria portanto, aos nietzschianos de plantão, por quais caminhos ainda é possível que o leão diga “eu quero” de forma a expressar sua vontade própria, sem a participação nessa vontade dos “preconceitos da mente humana” e assim efetuar a transformação desejada por Nietzsche, a do leão em criança, alcançando a espontaneidade, a criatividade tão enaltecida por esse pensador, que antecipa o caminho da pós-modernidade.

    Responder
  2. edir

    caro amigo, sua reflexão ficou interessante, no entanto, essa sua afirmação: “Portanto, o niilismo destrói todos os fundamentos, mas ele é por sua vez, um ‘mal necessário'”, na minha perspectiva, ela é uma agressão ao pensamento nietzscheano. O Niilismo de Nietzsche não destrói nada, mas é o passo fundamental dado pelo pensador depois do processo feito por ele de dissolução do conceito, do sujeito. Trata-se de um “trampolim” para um pensar livre. Daí já começo refletir acerca do comentário acima, inclusive é uma bela reflexão atualizada no horizonte tecno-filolófico. Então, partiria exatamente de um processo maduro de marteladas, isto é, desconstrução do que violentamente é imposto, assumir o vazio que transborda sentido e transvalorar com honestidade intelectual para não cairmos em relativismo, há quem busque uma luz, o nietzscheano constrói seu próprio sol, afirma Nietzsche: “Eis o meu gosto: não é um gosto bom ou mau, mas é o meu gosto, e não tenho que o ocultar nem dele me envergonhar. Este é agora o meu caminho: onde está o vosso? Era o que eu respondia aos que me perguntavam o caminho. Que o caminho, na verdade…não existe!” (ZA, ‘do espírito de pesadume’)

    Responder
  3. Marcos

    Niilismo são dois: um passivo outro reativo. O que o amigo esta tratando aí, é de um niilismo que se transforma gradativamente de passivo em reativo. O passo fundamental é elevar o pensamento da reação a uma ação afirmativa, inteiriça, sem o qual é impossível sair do círculo vicioso que gravita entre niilismo passivo e reativo. Este é o princípio básico para compreender o eterno retorno.

    Responder
  4. Otávio

    Nosso amigo, o Sr Edir, esta correto em corrigir a afirmação: “Portanto, o niilismo destrói todos os fundamentos, mas ele é por sua vez, um ‘mal necessário’”, considero que para atingirmos tal grau de liberdade no raciocínio, verdadeiramente, o 1º passo é considerar todos os fundamentos que nos impuseram (dogmas religiosos, sociais, etc.) como, e estes sim, um “mal necessário”. Pois deixar de engolir divindades (deuses) ao longo de um caminho de reflexão é muito mais fácil do que aceitar “a existência humana como isenta de qualquer sentido.”(como citado no 1º parágrafo), e aceitar a existência isenta de sentido é aquela história do copo de água pela metade, eu entendo que esta meio cheio outros podem achar que esta meio vazio (para quem esta sedento, dai talvez entender como um mal necessário).
    Exemplo: Sempre considerei a religião mãe de todos os preconceitos e os dogmas sociais o pai de conceitos que não formei, pois prefiro formar meus conceitos e agir com meus preconceitos sem ser preconceituoso, e sem julgar, pois se eu não me permitir mudar não poderei ser mais livre do que já sou.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *