José Mário Santana Barbosa*

 Resumo: Com esse estudo buscar-se-á compreender melhor a importância da dialética na metafísica de Platão, uma vez que ela é considerada, nas entrelinhas de seu pensamento, a ponte capaz de realizar a passagem do mundo sensível para o mundo inteligível. Para isso, será utilizado, mais especificamente, o livro VII da obra A República, um dos mais conhecidos textos platônicos, que, dentre outros temas, aborda a importância do diálogo na perspectiva desejada, a partir do “mito da caverna”, e na sua relação com o processo da formação de um bom governante para a cidade. Além disso, este trabalho buscará contrapor brevemente o pensamento de Platão ao de seu discípulo Aristóteles, a fim de melhor discutir a real validade da dialética na metafísica e na filosofia em geral, bem como enriquecê-lo com o comentário de alguns estudiosos do tema.

Palavras-chave: Dialética. Metafísica. Ontologia. Ideias. Essência.

 

INTRODUÇÃO

 

Se há polêmicas quanto à demarcação do nascimento da metafísica com Aristóteles ou em algum filósofo anterior a ele, é inegável que, já em Platão (e até mesmo nos pré-socráticos), se questionava a respeito de conceitos importantes, ainda que bastante complexos, como verdade, realidade e essência. É nessa perspectiva que surge, nos escritos platônicos, a definição de “dialética”, como ponte entre os mundos sensível e inteligível, entre as sensações e as ideias, capaz de conduzir o homem ao verdadeiro Bem.

O “mito da caverna”, apresentado no livro VII da República, de Platão, é uma interessante alegoria que mostra o difícil caminho que o filósofo deve percorrer em sua constante busca por encontrar a verdade. Dialogando com Gláucon, Sócrates apresenta importantes traços da compreensão platônica de alguns temas, que seriam posteriormente muito estudados ao longo da história da filosofia, dentre os quais a dialética, objeto de nosso estudo.

Assim, com esse estudo, pretende-se compreender melhor, a abordagem platônica de dialética, mais especificamente a partir do que é tratado no texto citado. Acrescentaremos, também, uma breve atualização do tema na filosofia de Aristóteles, bem como comentários a ele de outros estudiosos.

 

1 O MITO DA CAVERNA E A DIALÉTICA

 

O livro VII da República inicia com a apresentação de uma realidade falsa, na qual estavam mergulhados alguns homens. Presos no fundo de uma caverna, impossibilitados de olhar para frente, apenas experimentavam as sombras que podiam ver na parede anterior a eles, derivadas da imagem do que se passava lá fora, a partir da luz de um longínquo fogo. Achando que viam objetos reais, tinham uma realidade um tanto quanto ilusória, em vistas do que ocorria lá fora, de fato. Aqueles homens, conversando uns com os outros, tentavam identificar, às suas maneiras, o que acontecia, e não tinham qualquer motivo para acreditar que estavam errados.

Tendo sido possibilitada, a um deles, a oportunidade de se libertar da caverna e entrar em contato com a realidade do que se passava no exterior, este que foi liberto sofre forte desilusão e descrença, ao escutar que aquilo no qual ele acreditava anteriormente não passava de uma ilusão. “Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais?” (PLATÃO, A República, VII, 515d)

Platão parece, aqui, apresentar categoricamente a figura do homem acomodado a sua ignorância, que não busca de forma alguma acrescentar conhecimento a sua vida. Para este, as coisas são da maneira que aí se vê; não é necessário ir além, buscar uma explicação para suas sensações. Quando finalmente cai em si, esse homem pode buscar e encontrar o Bem desejado, a contemplação das coisas superiores e, assim, esclarecer-se.

A “ascensão” dialética na República exprime-se pela metáfora do “caminho” ou da “via para o alto”. Essa metáfora exprime otimamente o “finalismo” do Bem, que aparece como termo no qual os caminheiros chegam enfim a descansar […]. A subida do prisioneiro equivale à subida da alma (tês psykhês ánoîon: 517b) à região inteligível (eis tòn noetón tópon: ibid.). No próprio mundo inteligível deve-se ir até o termo, no qual a Ideia do Bem, não sem dificuldade, aparece como causa de tudo (em tôi gnostôi teleutaíoi he agathoû ideá kaì mógis horâsthai: ibid.). (VAZ, 2012, p. 207)

Diante da cegueira, era necessário, para aquele homem, um certo tempo, para que ele se acostumasse com o mundo novo em que vivia. Para quem estava acostumado a ver apenas sombras, o primeiro passo para ver o Sol, por exemplo, seria vê-lo nas coisas, através das sombras que já conhecia; após certo tempo, poderia ver o Sol em si mesmo; e após mais algum tempo, poderia entender a origem e a atuação do Sol, como importante astro e causador de fenômenos cíclicos, as estações etc.

Após contemplar tão grande beleza, o coração daquele homem se encheria de regozijo com a mudança que realizara em sua vida, passando das trevas da falsidade, ao conhecimento da realidade em si (trazendo para linguagem metafísica, da essência das coisas). Já não mais desejaria voltar para a caverna onde estava e, se a isso fosse obrigado, sofreria grande incompreensão daqueles que ali permaneceram, sendo taxado de louco e ignorante.

Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo […]. (PLATÃO, A República, VII, 517a-517b)

Apresentando essa “conclusão” ao mito da caverna, Platão reafirma basicamente a compreensão que se criou de seu pensamento ao longo da filosofia. As realidades nas quais estamos inseridos nem de longe representam aquilo que realmente são as coisas. A contraposição entre os mundos sensível e das ideias torna-se, aqui, muito clara e, aquele que desejar contemplar, um dia, a realidade dos fatos que o cercam e dos quais ele vê apenas “sombras”, deve buscar sair da caverna e acostumar-se com a contemplação das coisas superiores.

A passagem do sensível para o real é apresentada, como se vê, a partir de um processo doloroso e conturbado. Não há qualquer facilidade em abandonar aquilo que se tem como certo, para aderir a algo novo. Esse caminho, Platão apresentará adiante, só pode ser alcançado de uma maneira: pela dialética.

É interessante ressaltar, a partir do mito da caverna, a estreita ligação que Platão estabelece, desde já, entre o esclarecimento a partir da busca do conhecimento real das coisas e a passagem do mundo sensível para as ideias. Assim como a saída da caverna é possibilitada pela libertação do “conhecimento”, isto é, pelo contato com uma realidade superior à que se estava habituado, também só se conhecerá a verdadeira essência das coisas investigadas por meio do confronto entre aquilo que duas ou mais pessoas têm como certo, suas opiniões, buscando um conceito único e verdadeiro.

A dialética, como já vimos, é um diálogo ou uma conversa em que os interlocutores possuem opiniões opostas sobre alguma coisa e devem discutir ou argumentar de modo a passar das opiniões contrárias à mesma ideia ou ao mesmo pensamento sobre aquilo que conversam. Devem passar de imagens contraditórias a conceitos idênticos para todos os pensantes. (CHAUÍ, 1995, p. 181)

 

2 A EDUCAÇÃO E A DIALÉTICA

 

Dando continuidade ao texto, Platão toca em um assunto de grande importância para seu tempo, sobre o qual, ao longo de toda a sua obra, o autor dedicaria numerosas páginas. Sócrates apresenta para Gláucon a relevância da educação no processo de formação dos indivíduos de uma sociedade madura e busca discutir com este, qual é a melhor maneira de se chegar à formação ideal de um governante, aquele que, por direito, comandaria a cidade.

Para Sócrates, educar não é conceder algo novo a quem não tem, como a vista a um cego, mas, sim, desviar a alma daqueles a quem se deseja educar “das coisas que se alteram, até ser capaz de suportar a contemplação do Ser e da parte mais brilhante do Ser” (PLATÃO, A República, VII, 518c). Todas as faculdades do corpo podem, em condições normais, criar-se pelo hábito ou pela prática, exceto o pensamento, que é, aqui, apresentado com um caráter divino, inerente à essência do homem.

É essa ascensão de pensamento, das coisas transitórias às eternas e imutáveis, que deve buscar cada pessoa e que, de maneira especial, distingue aqueles que devem administrar as cidades, cuidando dos demais. Após contemplar de maneira mais “íntima” a verdade imutável das coisas, o antigo prisioneiro é chamado a voltar à caverna, observar novamente as trevas nas quais estão imersos seus amigos e levá-los ao esclarecimento e à justiça.

Deve, portanto, cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis cada imagem, o que ela é e o que representa, devido a terdes contemplado a verdade relativa ao belo, ao justo e ao bom. E assim teremos uma cidade para nós e para vós, que é uma realidade, e não um sonho […]. (PLATÃO, A República, VII, 520c)

Apresentando possibilidades para se encontrar o verdadeiro bom governante, Platão expõe as figuras do filósofo e do guerreiro, como possíveis “candidatos”. Não há como separar o processo de educação dos dois. Para Sócrates, a boa educação dos jovens deve partir primeiramente das artes do autocontrole e do aprendizado, dando grande destaque a algumas: guerra, geometria, astronomia e música. Mas nenhuma delas, sozinha ou até mesmo junto às demais, é o caminho seguro para se chegar a uma boa e satisfatória educação.

Somente por meio da dialética, alcança-se o objetivo da contemplação das coisas eternas e imutáveis, saindo da transitoriedade do mundo sensível e conhecendo, de fato, as essências das coisas. Todo o conhecimento das ciências é importante, mas converge para que o processo dialético seja possível, caminho último para se chegar à meta buscada.

O diálogo isto é, a dialética ou filosofia, é o caminho que nos conduz das sensações, das percepções, das imagens e das opiniões à contemplação intelectual do ser real das coisas, à ideia verdadeira, que existe em si mesma no mundo das puras ideias ou no mundo inteligível. (CHAUÍ, 1995, p. 215)

A capacidade de conduzir uma discussão, de apresentar argumentos e refutar os do outro, enfim, o desejo de purificar aquilo que pensamos até o ponto de chegarmos a uma ideia comum a todos (essência), essa é a verdadeira sabedoria, capaz de tirar o homem das trevas da caverna em que ele vive, bem como libertar os seus que continuam ali aprisionados. Assim, o filósofo – como conhecedor da “realidade verdadeira” – é apresentado, de certo modo, como o único homem capaz de levar a cidade à perfeição desejada, a partir da justiça, primeiro objeto do diálogo (VAZ, 2012, p. 203).

O bom dialético, para Platão, é aquele que possui visão de conjunto, aquele que conhece as ciências de maneira profunda, mas que vai mais além delas. Um correto aprendizado das ciências citadas é indispensável no caminho que culmina com a contemplação do Bem, a partir da dialética. Esse conhecimento exige tempo e, portanto, é impossível que alguém possa exercer bem o processo dialético sem estar na idade adulta, tendo assim passado pelos “estágios anteriores”.

 

2.1. O PROCESSO DO CONHECIMENTO PARA ARISTÓTELES

 

Segundo Berti (1998, p. 18), Aristóteles dedica grandes obras para, de maneira inédita, discorrer sistematicamente a respeito da dialética: oito livros dos Tópicos e o livro Refutações sofísticas (também conhecido como IX livro dos Tópicos).

Aristóteles discorda de Platão não apenas no que se refere à dualidade presente no pensamento deste, com relação às realidades sensível e inteligível. Para o Estagirita, a dialética seria um processo muito válido e bom, não para conhecer a verdadeira essência das coisas, mas para o exercício dos discursos e da persuasão. O confronto de ideias contraditórias, baseadas em opiniões, não garante, de maneira alguma, que o resultado desse embate seja uma definição satisfatória e verdadeira do que se busca.

Contudo, longe de considerar a dialética uma ciência inútil, como poderia parecer, Aristóteles admite sua importância, uma vez que também a partir da opinião podemos chegar “próximo” às verdades que buscamos.

Aqui, realmente, ele [Aristóteles] não diz que a opinião, e portanto a dialética, seja o oposto da verdade, mas que, caso se queira fazer dialética, discutir com os outros, é necessário preocupar-se não tanto com as premissas que sejam verdadeiras, quanto com que sejam opinadas, isto é, partilhadas, aceitas (o que não exclui, naturalmente, que possam ser verdadeiras). (BERTI, 1998, p. 27).

Se Aristóteles chama a atenção para a realidade física das coisas, que é o próprio ser delas (e não um “pseudo-ser”, imitação das ideias, como pensara Platão), ele sugere a lógica como único método válido para se alcançar o conhecimento, de fato. A partir dela, sim, pode-se basear em elementos concretos e imutáveis, seguindo raciocínios coerentes, que resultam em conhecimentos universais e necessários daquilo que se busca.

A lógica aristotélica oferece procedimentos que devem ser empregados naqueles raciocínios que se referem a todas as coisas das quais possamos ter um conhecimento universal e necessário, e seu ponto de partida não são opiniões contrárias, mas princípios, regras e leis necessárias e universais do pensamento. (CHAUÍ, 1995, p. 182)

 

CONCLUSÃO

 

É bela e inegável a ligação estabelecida, na obra estudada, entre a dialética e a passagem do mundo sensível para o mundo inteligível. O homem que deseja sair da escura caverna da ignorância na qual está aprisionado deve aceitar o questionamento dos seus, a dor e o sofrimento do contato com a “luz do Sol” que ele não conhecia em si e, além disso, a incompreensão do outro, no momento de seu retorno para junto daqueles que ainda não se libertaram. Somente esse duro processo de ascensão das coisas mutáveis para as eternas é capaz de produzir, como resultado, um conhecimento verdadeiro dos conceitos procurados e, consequentemente, a alegria daquele que se sente liberto da cegueira em que estava mergulhado.

Eis por que a dialética é considerada, pelos comentadores de Platão, a ponte que o autor indica como a transição necessária entre o mundo sensível e o mundo inteligível, cuja contemplação é tão desejada pelo filósofo. Por meio do diálogo, isto é, da contraposição de ideias e opiniões, pode-se chegar a um conceito verdadeiro e único daquilo que se busca e, assim, à contemplação do Bem verdadeiro.

Antecedida pelas outras ciências indispensáveis à formação de um bom cidadão, a dialética é ainda apresentada como condição imprescindível para o governante da cidade, uma vez que ele deve ser capaz não apenas de libertar-se da escuridão em que vive, mas, mais do que isso, descer novamente à caverna e ajudar os demais a encontrarem-se com a verdade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Tradução de Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 1998.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 2. ed. São Paulo: Ática, 1995.

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 7. ed. Lsboa: Calouste Gulbenkian, 1949.

VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Contemplação e dialética nos diálogos platônicos. Tradução de Juvenal Savian Filho. São Paulo: Loyola, 2012.

 

* Bacharelando em Filosofia pela FAM

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