Fábio Avelar Salmen

 

A atitude de ouvir adquire especial importância nos dias atuais, marcados pelo imediatismo e pela superficialidade das pessoas, impregnados pela mentalidade materialista e consumista que nos é transmitida cotidianamente pelos meios de comunicação social. Hábitos tradicionais de nossa cultura, como o das conversas no ambiente familiar ou o do escutar pregações nos ambientes religiosos, hoje competem com a sensação de perda de tempo e com a autossuficiência desenvolvida nos meios estudantil e profissional, carregados de um tecnicismo que supervaloriza apenas o conhecimento prático e de aplicação utilitária.

A arte do bem ouvir, tratada pelo autor nos primórdios da era cristã, destaca o sentido da audição como de maior valor entre os demais, por relacionar-se mais com a razão do que com as paixões. Segue-se que os bons ouvintes estarão mais próximos da condição de liberdade, dado que esta seja um merecimento daqueles que se guiam pela razão. Ouvir e aprender com os outros são elementos de importância especial desde a educação infantil à idade adulta, com ênfase especial à juventude, cujos ouvidos são o único meio de conquistar sua alma para a virtude, segundo Plutarco[1], para quem o bom educador é aquele que ensina a ouvir (PLUTARCO, 2003, p. 3-7).

Como Ouvir traz a marca de ferramenta educacional, voltada principalmente para a juventude daquele tempo, considerada por Plutarco como susceptível a deixar-se levar mais por aspectos da arte da retórica e da aparência externa dos declamadores e oradores, frequentes no cenário grego do primeiro século. Capra (2002) observa que as palavras tornaram-se a forma principal da comunicação humana ao longo do processo evolutivo da humanidade; Plutarco (2003, p. 9) enfatiza a importância desse veículo, colocando a palavra como base para a produção de frutos virtuosos e para evitar o desvio para o vício. A imaturidade juvenil, que predispõe os jovens à influência de palavras vãs, aumenta, consequentemente, a possibilidade de tal desvio.

A problemática apontada pelo autor, não obstante voltada para o tempo em que vivia, é adequada aos dias atuais, em que a juventude acha-se exposta à carência educacional para a vivência de valores relacionais e comportamentais. A atualidade do tema não se limita aos mais jovens, estendendo-se a grande parcela da população, também não preparada para o bom ouvir e ainda exposta ao conteúdo polarizado de mensagens que nos são transmitidas pelos meios de comunicação social. Segundo Chauí (2000), empresas de divulgação social realizam a seleção do que pode e deve ser ouvido pelos grupos sociais existentes. Assim, tornamo-nos presas fáceis para influências várias, não raro restritivas e alienadoras, que nos chegam de forma massificante e, muitas vezes, de difícil percepção, obscurecendo, dessa maneira, o papel libertador da razão nos seres humanos.

Os ensinamentos transmitidos por Plutarco adquirem, assim, importância ainda maior no cenário hodierno. De que forma será possível auxiliar as pessoas a se desenvolverem como tais, senão pelo aprendizado com seus semelhantes? Como não agir para evitar o crescimento da insensibilidade das pessoas, em muito decorrente do não entendimento de aspectos importantes do seu cotidiano? Arduini (2002) postula que a perda da sensibilidade torna o ser humano insensível, estupidificado, levando a insensibilidade a converter-se em crueldade, entorpecimento, brutalidade. Segundo ele, pessoas insensíveis são impermeáveis e nada consegue atingi-las. Cenário pétreo à primeira vista, paradoxalmente enrijece-nos a convicção da importância da predisposição para ouvir, combatendo a autossuficiência e o orgulho e colocando as pessoas em posição receptiva para aprender com os outros. Plutarco (2003, p. 14-16) nos chama a atenção para esse aspecto, e adverte para o pequeno proveito que os arrogantes e invejosos conseguem obter das palavras ouvidas, postura que podemos, com alguma atenção, identificar em situações de convivência em nosso cotidiano.

O resgate do aprendizado auditivo torna-se relevante e urgente se queremos contribuir para a construção de uma sociedade melhor; o esforço começa em cada um de nós, já que também somos frutos do referido processo educacional deficiente, enquanto relativo a posturas comportamentais sobre como ouvir bem. Plutarco (2003, 13) louva a importância da paciência e do esforço para não interromper quem fala, lembrando que até nossas expressões corporais podem necessitar de correção caso caracterizem falta de respeito para com nossos interlocutores. Lages e O’Connor (2004) reforçam a importância da postura do ouvinte, colocando fatores que prejudicam o ouvir de forma produtiva, como o próprio diálogo interno, talvez sobre outro assunto que não o colocado pelo interlocutor, e a tensão muscular, que torna difícil prestar atenção ao outro.

A postura de aprendizado recomendada pela sabedoria do séc. I ensina ainda que a crítica gratuita endereçada a quem fala, comum aos muitos que prezam o falar em detrimento do ouvir, é vazia e pouco relevante, uma vez que sendo fácil criticar, os que o fazem esquecem-se de seus próprios erros e do trabalho e competência requeridos para produzir discurso alternativo digno de valor. Aos que, como Platão (1972, p. 153), acreditamos ser o ensino a arte mais apropriada para combater a ignorância, é requerido combater aquele arrogante “coaxar no pântano das opiniões” por meio de contribuições fundamentadas e relevantes, que, por sua vez, constituam-se em elemento educacional efetivo.

O aprendizado do bem ouvir, não obstante requeira empenho de ambos os partícipes do processo, educadores e aprendizes, apresenta-se como urgência hodierna tanto pelo aspecto da promoção de melhorias relacionais como pelo potencial em despertar as pessoas para a virtude; assim, atua como elemento de ignição para fazer acender a chama motivadora existente dentro de cada um para a prática do bem, esperança que todos os educadores alimentamos no caminho da construção de um mundo melhor.

 

Referências

ARDUINI, Juvenal. Antropologia: ousar para reinventar a humanidade. São Paulo: Paulus, 2002.

CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2002.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática. 2000. Disponível em <http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/convite.pdf> . Acesso em 23 mar. 2010.

LAGES, Andrea, O’CONNOR, Joseph. Coaching com PNL: o guia prático para alcançar o melhor em você e em outros. Tradução de Celso Roberto Paschoa. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2004.

PLATÃO. Diálogos. O banquete. Fédon, Sofista, Político.  In: ______. Fédon, Sofista, Político. Traduções de José Cavalcante de Souza (O banquete) e Jorge Paleikat e João Cruz Costa (Fédon, Sofista, Político). São Paulo: Abril, 1972. p. 137-203.

PLUTARCO. Como ouvir. Tradução de João Carlos Cabral Mendonça. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

WIKIPEDIA. Plutarco. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Plutarco>. Acesso em 09 jun. 2010.


[1] Plutarco (46 a 126 d.C.), conhecido como Plutarco de Queroneia, Grécia, foi filósofo e prosador do período greco-romano. Estudou na Academia de Atenas (fundada por Platão), sendo atribuída a ele a autoria de mais de 200 livros. Além de biografias de gregos e romanos, deixou muitos tratados e escritos sobre filosofia, moral, crítica literária e pedagogia, conhecidos genericamente por Moralia.

2 Comentários

  1. Thiago Gandra do Vale

    Parabéns pelo texto, e pelo posicionamento. Gostei muito da escrita e do desenvolvvimento do texto. Porém, quando você trata da expressão corporal realacionada a quem está na atitude de escutar, descordo de você, pois não podemos relativizar em dizer que quem está em postura considerada imprópria não está escutando. E nem que quem está em postura adequada está na escuta, pois considero isso muito subjetivo e interno a cada ser humano, do qual não podemos saber, mas apenas deduzir, e deduções não nos trazem certeza de nada!! Thiago Gandra.

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  2. fauzi amim

    O último parágrafo sintetiza tudo, de forma brilhante, e esclarece as discordâncias . O texto é oportuno, para que os políticos pensem em formas de incentivar o aprendizado de posturas, para melhorar o inter-relacionamento nas escolas, com reflexo evolutivo no profissional e social. Parabéns, ao Engenheiro aposentado Fábio, agora um promissor estudante de área de Ciências Humanas.

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